Sociedade

Levante-se o Réu. Um casal em paz

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Crónicas de justiça de Rui Cardoso Martins. Relatos de vidas que se cruzam com o poder da lei, o braço da justiça e as circunstâncias de cada um. E quando se levanta o réu, é o juiz que decide

Nas perguntas sobre a situação pessoal, de resposta verdadeira e obrigatória, Nídia foi muito directa. Nídia já estava sentada na cadeira das testemunhas, pequena para ela.

— Qual é a sua profissão?, começou a juíza.

— Desempregada.

— Desempregada é um estado, não é uma profissão...

— Não, não, eu nunca trabalhei!

Eu nunca tinha ouvido esta resposta e nem esta, mais tarde, que nunca vi tão triste: “Da parte dele, sim.”

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Da parte dele — neste instante do julgamento — já sabíamos: Carlos, serralheiro, passado de drogas e prisão, pele de cinza, vivia em casa de Nídia e batia-lhe às vezes. Há anos, Nídia enviuvou, mas ficou para ela a casa de arrendamento social que estava em nome do falecido.

Nas mãos da juíza e da procuradora da República estava uma decisão de natureza social, jurídica, de segurança, mas também íntima: podia Carlos voltar para junto de Nídia, ou era preciso proibi-lo até de a contactar?

— Em paz, estamos em paz, explicou Nídia.

— O que é que fizeram para ultrapassar a situação de violência?

— Estivemos juntos e conversámos sobre que... as medidas que... a nossa conversa... como se costuma dizer “casa que não é ralhada não é bem governada.”

— Esse velho ditado não se aplica a estas situações. Só serve para quando é ralhar falando, não é cometendo crimes. Está pacificada com ele desde quando?

Nídia fez sobrolho desmemoriado.

— Acho que... o senhor Carlos acho que consegue dizer.

— Mas eu não lhe vou perguntar a ele, é a si que pergunto.

— Eu... eu não estava habituada a partilhar a minha vida, estava a viver uma vida solo. Habituada a chegar a casa à meia-noite, uma da manhã. E foi também preciso habituar-me à presença dele. Não só dele, mas à minha vida nova. Até que um dia ele me disse: “tu vens para casa ou então vou deixar-te.”

Nídia não tem contacto com a sua família. Pura e simplesmente, disse, deixou de falar com a família, quando esta deixou de lhe ligar a ela. E “psicologicamente” não quer ter acesso à filha enquanto houver discussões, não há condições.

— Eu tomo calmantes há mais de três anos. Vou ao médico de seis em seis meses.

— Sente-se melhor?

— Um bocadinho. Ainda estou numa fase de ajustamento. Às vezes sinto necessidade de tomar os medicamentos e às vezes penso “mas tomar para quê?”

Sofreu ataques de pânico, tentativas de suicídio. À espera de mais consultas de psiquiatria, tem agora uma assistente social que a ajuda, são da mesma idade. A procuradora perguntou-lhe o que faria se o senhor Carlos voltasse à violência:

— Se sim, eu abriria a porta de casa, punha-lhe as malas à porta e diria: “sê feliz noutro lado”. Aliás, as minhas portas estão sempre abertas.

— É uma pergunta difícil, mas tenho de lhe perguntar: se a senhora tivesse meios financeiros, estaria com o senhor Carlos?

— Eu ajudo-o, já que ele está também a ajudar-me muito. Quando eu recebo, eu ajudo-o. Eu como muito. Quando ele recebe, comemos do que ele ganha.

— Mas... existe sentimento?

Houve um silêncio curto na sala abafada:

— Existe da parte dele. Eu fechei um bocadinho na morte do meu marido. Aos poucos, acho que vou abrindo um bocadinho mais.

E o senhor Carlos, homem com sentimentos que existem da parte dele, suspirou porque os dois estão em paz.

O autor escreve de acordo com a anterior ortografia

Rui Cardoso Martins