"Ainda fico com pele de galinha." José Barata Moura recorda o espetáculo que se tornou numa "forma de luta"

Créditos: Rui Oliveira/Global Imagens (arquivo)
José Barata Moura recordou à TSF a noite no Coliseu dos Recreios, em março de 1974, antes da Revolução, onde o problema foi "a força do momento" e "o poder da comunhão das pessoas" que cantavam "Grândola, Vila Morena"
O filósofo, compositor e político português José Barata Moura admite que ainda fica com "pele de galinha" quando recorda o concerto no Coliseu dos Recreios em março de 1974, antes da Revolução dos Cravos. A gravação do concerto está agora classificada como tesouro nacional.
À meia-noite e vinte minutos da madrugada de 25 de Abril de 1974, é transmitida a senha que dá início à Revolução. O Governo classificou como tesouro nacional dois fonogramas relativos a esta senha.
Um conjunto de três bobinas, sendo a primeira corresponde à gravação do Programa Limite, da Rádio Renascença, que na madrugada de 25 de abril deu início às movimentações militares que levariam à queda da ditadura, e as outras duas que incluem a gravação do primeiro encontro da canção portuguesa a 29 de março de 74, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
Foi a partir daí que "Grândola, Vila Morena" começou a desenhar-se como senha para a Revolução que haveria de acontecer menos de um mês depois, a 25 de Abril de 1974.
José Barata Moura esteve no palco do Coliseu dos Recreios e recorda à TSF que quem lhe telefonou para o convidar a integrar o espetáculo foi José Jorge Letria, jornalista português.
"Ficamos perplexos porque nós estávamos proibidos de atuar em salas de espetáculo que carecessem de uma autorização prévia da Direção-Geral dos Espetáculos. Ficámos de pé atrás [porque] éramos impedidos de cantar, às vezes até em salas que não tinham a dimensão do Coliseu", declara.
O cantautor relembra ter ido atuar como um ato de afirmação: "Éramos sete ou oito que desde 1970 estávamos proibidos de cantar."
José Barata Moura admite que, mesmo com dificuldades em termos de reportório, por se encontrar alguém da censura no Coliseu, "o ambiente era extraordinário e a sala estava completamente cheia".
"Foi um ambiente que hoje ao falar disso ainda sinto aqui alguma pele de galinha", confessa.
A canção que passaria mais tarde a ser a senha para a revolução ficou guardada para o fim daquela noite no Coliseu dos Recreios.
"Já tinha passado largamente da meia-noite. Eu lembro-me que colocamos o problema de como iríamos terminar [o espetáculo]. Já tinha sido cantado o 'Grândola, Vila Morena', que tinha tido uma resposta fabulosa por parte do público, e foi então que decidimos que íamos acabar o espetáculo todos no palco cantando o 'Grândola, Vila Morena'. As pessoas levantaram-se todas... foi de facto um momento de como um espetáculo pode ser também uma forma de luta", afirmou, enquanto lhe faltavam as palavras.
José Barata Moura explica que, depois do 25 de Abril, alguns militares lhe contaram que vários membros do Movimento das Forças Armadas estiveram presentes naquela noite no Coliseu: "Certamente que a plateia deve ter-se apercebido que a temperatura das massas estava em ascenso. O problema ali não era de esperança, mas sim a força do momento e o poder daquela comunhão das pessoas que cantavam."
O compositor, que foi também professor de filosofia, acredita que a democracia nunca morreu, "mesmo durante o tempo mais negro do fascismo". José Barata Moura diz que neste momento as condições são "completamente diferentes" e vinca que "a construção da democracia tem de prosseguir e aprofundar-se".