
Créditos: António Marujo/7Margens
De ascendência catalã, Emília Nadal nasceu em 1938 em Lisboa, onde teve uma infância feliz. Os pais deixaram-na assumir sempre a sua liberdade e as suas opções.
Emília Nadal, de 88 anos, conta que nem sempre quis ser pintora - na verdade, pensava na música. A vocação da pintura foi nascendo com o tempo e seria nessa arte que acabaria por se tornar um nome significativo em Portugal.
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A sua formação na área começou na Escola de Artes Decorativas António Arroio. Em 1960, terminou o curso de pintura da Escola de Belas Artes de Lisboa.
Expôs coletivamente, pela primeira vez, em 1957, manteve meio século de exposições individuais. A última, no Museu Frei Manuel do Cenáculo, em Évora, está patente até 21 de março, com o título "Espaço Tempo e Transcendência - uma retrospectiva". Apesar de dar importância à espiritualidade, não gosta da arte devocional que reduz a fé a sentimentos.

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Envolveu-se desde a faculdade em grupos católicos, esteve no jubileu dos artistas em Roma, no ano 2000, e em outras iniciativas de diálogo entre a arte e o sagrado. A sua adesão ao cristianismo traduz-se também na pintura que faz, com séries de obras sobre a Via Sacra, o Calvário, a Páscoa e a Ressurreição, o Apocalipse, procurando traduzir a inquietação humana, o sofrimento, a criação ou a salvação.
Mas nunca esquece outras questões como a condição das mulheres ou a pobreza que atinge tantas pessoas, como não esqueceu a crítica à guerra colonial, o que lhe valeu o azedume da ditadura do Estado Novo.
Na sua militância católica teve sempre uma atitude crítica: escreveu cartas a bispos sobre a energia nuclear, ou sobre os abusos sexuais do clero e a violência doméstica, quando ainda não se falava desses temas. Nos anos 60 e 70, ligou-se ao movimento por um mundo melhor, liderado pelo bispo Vieira Pinto. Desde 1977, integrou a equipa coordenadora de Lisboa do Renovamento Carismático Católico. Conheceu e foi amiga da economista Manuela Silva, investigadora do fenómeno da pobreza em Portugal, e dos padres Honorato Rosa, iniciador do Instituto de Serviço Social, e Manuel Antunes, o jesuíta da Faculdade de Letras que enchia auditórios de alunos. Mantém, hoje, o espírito crítico, defendendo que os seminários deveriam ser todos reformados.

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Representada em múltiplas coleções - incluindo a Coleção de Arte do Estado, Serralves, Gulbenkian e vários museus - Emília Nadal foi também membro do Conselho Nacional de Educação, e esteve em várias direcções da Academia Nacional de Belas Artes, que continua a integrar. Recebeu múltiplos prémios e, além das exposições no país e no estrangeiro, criou cenários e figurinos para o Ballet Gulbenkian e Teatro Nacional D. Maria II, projectou cartazes, espaços e alfaias litúrgicas, desenhou o novo altar da Sé de Faro. Na Católica, em Lisboa, realizou os painéis "Os Livros" e Instalações sacras para o átrio da basílica da Santíssima Trindade, em Fátima.
No fim da entrevista, Emília Nadal manifesta que mantém a esperança, mas gostaria que a mentalidade das pessoas mudasse mais depressa.

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A tranquilidade desta pintora católica contrasta com a criança que foi hiperativa.
