Chefe da missão portuguesa nos Jogos Olímpicos de Inverno: "Queremos melhorar os resultados de edições anteriores"

Créditos: Teresa Suarez/EPA
Pedro Flávio preparou-se para passar muitas horas nas estradas italianas para garantir o apoio necessário aos três atletas portugueses nos Jogos de Milão/Cortina. No horizonte já estão os jogos de 2030, onde o também presidente da Federação Portuguesa de Desportos de Inverno acredita que Portugal vai ter mais atletas.
Os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão/Cortina 2026 têm alguma particularidade em relação às edições anteriores?
Têm, desde logo, uma particularidade logística muito própria. Os locais de competição estão bastante dispersos e vamos ter três atletas em três regiões diferentes: a Vanina Guerriott estará em Cortina, o José Cabeça em Val di Fiemme e o Emeric Guerillot em Bormio. Estamos a falar de várias horas de viagem entre cada um destes locais, o que obriga a um esforço acrescido de organização.
Que desafios é que isso coloca à missão portuguesa?
Enquanto chefe de missão, vai obrigar-me a um grande trabalho logístico e a passar bastante tempo na estrada. Terei de me desdobrar para conseguir acompanhar todos os atletas, tanto na preparação como durante as competições. A viagem também será feita de forma faseada: eu viajarei com o fisioterapeuta, o treinador de esqui seguirá noutra data e os atletas deslocam-se individualmente diretamente para os seus locais de competição.
Como está o estado de espírito dos atletas?
Estes atletas estão a preparar-se há cerca de quatro anos para este momento, por isso estão todos muito motivados. Encaram esta participação da melhor forma possível, com ambição e consciência da responsabilidade que representa estar nos Jogos Olímpicos.
O facto de os Jogos se realizarem na Europa pode ser uma vantagem para Portugal e para a promoção destes desportos?
Vimos de três edições de Jogos Olímpicos realizadas em locais muito distantes de Portugal, com grandes diferenças horárias. Os últimos, em Pequim, aconteceram ainda em contexto de pandemia, o que dificultou muito a comunicação e a divulgação do trabalho desenvolvido. Milão/Cortina está praticamente "à porta de casa", o que facilita tudo.
De que forma isso pode aproximar os portugueses dos atletas?
Vamos ter transmissões televisivas em vários canais, em horários muito mais acessíveis. Os portugueses vão poder acompanhar as provas, seguir o percurso dos nossos atletas e conhecer melhor os desportos de inverno. É uma oportunidade única para dar visibilidade a estas modalidades, mostrar o trabalho que fazemos e contribuir para o seu desenvolvimento em Portugal.
O que pode esperar do ponto de vista desportivo?
Os atletas estão numa boa fase de preparação. O José Cabeça, pelos resultados recentes e pela forma como garantiu a qualificação, dá-nos indicadores muito positivos. Está muito focado, fez uma preparação exaustiva e acredito que poderá alcançar um resultado superior aos das edições anteriores, sobretudo na prova de distância, que é a sua especialidade.
Pode dizer-se que estes Jogos podem marcar um ponto de viragem no esqui de fundo?
Acredito que sim. Tudo indica que, no esqui de fundo, Portugal poderá alcançar em Milão/Cortina o melhor resultado de sempre em Jogos Olímpicos de Inverno.
E no esqui alpino?
No esqui alpino temos o Emeric, que é estreante nos Jogos Olímpicos de Inverno, mas com um feito muito relevante: desde 1994, em Lillehammer (Noruega), que Portugal não tinha um atleta a competir nas disciplinas de velocidade. Ele conseguiu qualificar-se para o Super-G, está muito motivado e é, claramente, a prova em que tem mais ambição de alcançar um bom resultado.
Apesar de ser estreante, já tem experiência internacional?
Sim, participou no Festival Olímpico da Juventude Europeia e nos Jogos Olímpicos da Juventude, em Gangwon 2024, com resultados interessantes. Chega a estes Jogos com experiência, maturidade competitiva e muita motivação.
E a Vanina Guerriott?
A Vanina é uma atleta mais experiente. Esteve presente em Pequim 2022, está mais madura e vive ligada aos desportos de inverno, trabalhando como professora de esqui nos Alpes. Recentemente conquistou um pódio numa prova da Federação Internacional de Esqui, o que demonstra que está em boa forma e preparada para competir a um nível elevado.
Qual é o grande objetivo da missão portuguesa em Milão/Cortina?
Melhorar os resultados face às edições anteriores. É para isso que trabalhamos enquanto federação e enquanto Comité Olímpico de Portugal. Estamos todos muito focados e com enorme vontade de estar em Milão/Cortina.
Houve modalidades que ficaram perto da qualificação?
Sim, tivemos uma quase qualificação na patinagem de velocidade, com a Jéssica Rodrigues, que ficou muito perto de garantir presença. Acredito que estará nos Jogos de 2030, tal como outros atletas que já estão a fazer esse caminho, alguns deles integrados em bolsas de Esperanças Olímpicas.
Portugal já pensa no próximo ciclo olímpico?
Estamos já a trabalhar com os olhos postos em 2030, nos Alpes Franceses. Há atletas muito focados, por exemplo no snowboard, onde acreditamos que será possível garantir presença. Também temos trabalho em curso na patinagem artística no gelo e no bobsleigh, modalidade onde chegámos a participar em Taças do Mundo, apesar de uma lesão ter comprometido a qualificação.
Como é feito o apoio aos atletas das modalidades de inverno?
Estamos a trabalhar em estreita parceria com o Comité Olímpico de Portugal para aproximar o modelo de apoio ao que já existe nas modalidades de verão. O objetivo é criar um verdadeiro programa de preparação olímpica. Alguns atletas, como o Emeric Guerillot ou o José Cabeça, beneficiaram também de apoios da Solidariedade Olímpica, que são fundamentais para garantir condições de treino e preparação ao mais alto nível.
Esse investimento é essencial para o crescimento da modalidade?
É absolutamente fundamental. Todas as federações precisam de investimento, sobretudo em recursos humanos. Vejo estes apoios como um sinal claro de crescimento e de que estamos no caminho certo para melhorar a gestão diária e o apoio aos atletas.
Portugal inspira-se em outros países neste percurso?
Olhamos sempre para as grandes potências dos desportos de inverno, mas também para países sem tradição histórica nestas modalidades, como o Brasil ou Marrocos. Recentemente estivemos na inauguração de um pavilhão de gelo olímpico em Marrocos, um excelente exemplo de como o investimento em infraestruturas pode acelerar o desenvolvimento.
Esse é também um objetivo para Portugal?
Temos desde 2021 uma infraestrutura mais pequena na Serra da Estrela, onde desenvolvemos as nossas academias, mas queremos avançar para um pavilhão de gelo de dimensões olímpicas em Portugal. Isso permitiria melhores condições de treino, atrair estágios internacionais e organizar competições oficiais no nosso país.
Esse pode ser o grande salto para o futuro?
Acredito que sim. Ter uma infraestrutura deste nível em Portugal será o ponto de viragem para o crescimento exponencial das modalidades de gelo. Permitirá aos atletas treinarem em condições idênticas às dos seus concorrentes internacionais e dará um novo impulso aos desportos de inverno em Portugal.