
José Cabeça
Créditos: Comité Olímpico Português (arquivo)
Portugal marcará presença pela 11.ª vez nos Jogos Olímpicos de Inverno, que decorrem em Milão e Cortina d"Ampezzo, entre 6 e 22 de fevereiro
José Cabeça deixou o triatlo para se dedicar em exclusivo ao esqui de fundo e aos desportos de inverno. Depois da estreia olímpica em Pequim 2022, o atleta português regressa aos Jogos Olímpicos, agora em Milão-Cortina 2026, com o objetivo de alcançar o melhor resultado de sempre para Portugal na modalidade.
O esquiador português quer melhorar significativamente a classificação obtida na sua primeira participação olímpica, onde terminou em 88.º lugar, e aponta agora ao top 50 na prova de estilo clássico. Um objetivo ambicioso que representa também um pequeno grande passo para os desportos de inverno em Portugal - um país onde, reconhece José Cabeça, tem havido esforço por parte das entidades responsáveis, embora ainda falte maior atenção do público e apoio privado.
"Para estes Jogos Olímpicos, o meu objetivo é tentar cortar para metade o resultado anterior em termos classificativos. Vamos ver se é possível. Estes Jogos vão contar com muito mais atletas do que os anteriores. Em Pequim fui o 88.º de 99 classificados e agora teremos cerca de 148 atletas. Isso torna a competição mais exigente, porque países de alto nível vão poder levar mais representantes. Ainda assim, acredito que, com o trabalho que tenho desenvolvido, vou estar no melhor nível de sempre. A minha ambição é claramente melhorar muito o resultado anterior", explica.
Ao contrário do que aconteceu em edições anteriores, José Cabeça não estará presente na cerimónia de abertura, marcada para o Estádio Giuseppe Meazza, em Milão. As provas de Milão-Cortina 2026 estão distribuídas por várias regiões italianas e, por esse motivo, também os atletas e as cerimónias encontram-se descentralizados, com eventos a decorrerem em simultâneo em diferentes locais.
"A minha cerimónia de abertura vai ser em Predazzo, onde ficará instalada a Vila Olímpica dos desportos nórdicos, como o esqui de fundo, o combinado nórdico e os saltos de esqui", explica. Esta distribuição geográfica acaba por facilitar a logística antes das competições. Para além de Milão, há provas e cerimónias em Valtellina (Stelvio, Mottolino/Sitas), Cortina d"Ampezzo, Val di Fiemme, estando a cerimónia de encerramento marcada para Verona.
"Diria que, para os atletas, os desafios logísticos não serão muitos, porque vamos estar relativamente perto dos locais de competição. Já para os espectadores, se quiserem acompanhar várias modalidades, torna-se complicado percorrer 500 ou 600 quilómetros. Infelizmente, nestes Jogos não haverá muita confraternização entre atletas de diferentes modalidades, precisamente por estarmos tão distantes", lamenta.
Duas provas para José Cabeça
Os dias que antecedem a competição são dedicados ao reconhecimento das pistas e das condições locais. "Já estive no local, mas durante o verão. Nunca fiz provas ou treinos nesta pista com neve. Por isso vamos chegar cedo à Vila Olímpica, porque treinar nestas pistas é fundamental. São pistas muito técnicas e, quando não temos total confiança, podem perder-se minutos. Num desporto em que, num espaço de um minuto, chegam 30 atletas à meta, cada segundo conta", sublinha.
Nos últimos anos, o atleta tem trabalhado para evoluir em todas as vertentes do esqui de fundo, tanto na técnica clássica como na técnica de skate. "Vai ser a minha primeira participação olímpica nas provas de sprint e dos dez quilómetros. O objetivo inicial passava pela qualificação para as provas de mass start, nos 50 quilómetros, mas fiquei muito perto e acabei por não conseguir a qualificação", explica.
José Cabeça já olha para o próximo ciclo olímpico e tem como meta chegar à terceira presença nos Jogos, em 2030. "O objetivo futuro é qualificar-me em todas as distâncias. Venho do triatlo, com provas de três a quatro horas, e passei para competições que duram cerca de 25 minutos. É um tipo de esforço completamente diferente, que obrigou a alterar a minha preparação ao longo dos últimos quatro anos. O meu corpo também mudou - já não posso ter a mesma leveza que tinha no triatlo."
Atualmente a viver em Oslo, na Noruega, o atleta beneficia da proximidade com o seu treinador. "Desta forma, tenho a possibilidade de estar constantemente a treinar com ele, quase como se estivesse em estágio permanente. Vou continuar a evoluir e acredito que, nos próximos Jogos Olímpicos, conseguirei competir nas provas que melhor se adequam às minhas capacidades físicas."
Representando um país sem tradição nos desportos de inverno, José Cabeça reconhece as limitações naturais de Portugal, mas destaca o trabalho que tem vindo a ser feito na deteção e desenvolvimento de novos talentos. "É complicado para Portugal, porque precisamos de neve e não temos neve suficiente. Não se cria neve do nada. Ainda assim, o trabalho tem sido bem feito, sobretudo nas modalidades praticadas no gelo, onde é possível construir infraestruturas adequadas."
"É muito mais fácil construir uma pista de patinagem de velocidade ou de hóquei no gelo do que uma pista de esqui de fundo, que exige montanhas, neve e frio. Infelizmente, nem mesmo na Serra da Estrela existe consistência durante meses para permitir a prática regular."
O atleta sublinha ainda a importância de uma mudança cultural na relação dos portugueses com o desporto. "Não podemos comparar Portugal com a Noruega, onde as crianças mal sabem andar e já estão em cima de esquis. Mas também precisamos de repensar a nossa forma de ver o desporto em geral - não só os de inverno, mas também os de verão - e incentivar hábitos mais ativos desde cedo. Isso faria toda a diferença."
A proximidade geográfica e o fuso horário dos Jogos Olímpicos de Inverno em Itália podem ajudar a dar maior visibilidade aos atletas portugueses. Ainda assim, José Cabeça aponta a falta de apoio privado como uma fragilidade.
"Sou um sortudo por ter um patrocínio que não está ligado diretamente ao meu desporto. Não é bom haver atletas portugueses sem qualquer apoio de marcas nacionais. Não falo do Comité Olímpico nem da federação, porque aí existe apoio. Mas é fácil olhar para nós apenas de quatro em quatro anos e achar que, se não ganhamos medalhas, não estamos a fazer o nosso trabalho. Fazemos isto por amor ao desporto e por amor a Portugal. Claro que também depende de nós continuar a trabalhar para sermos cada vez melhores."
Portugal marcará presença pela 11.ª vez nos Jogos Olímpicos de Inverno, que decorrem em Milão e Cortina d"Ampezzo, entre 6 e 22 de fevereiro. Vanina Guerillot, Emeric Guerillot e José Cabeça são os três atletas que representam Portugal nesta edição.