Paulo Jorge Pereira não sabe se continua à frente da seleção de andebol: "É preciso mudar algumas coisas"

Paulo Jorge Pereira, selecionador nacional de andebol
Rui Oliveira Costa/TSF
Há quase uma década no cargo, o selecionador está em conversações com a federação. O contrato termina este verão
Paulo Jorge Pereira sonha com a conquista de uma medalha numa grande competição ao serviço de Portugal, mas ainda não é certo que seja o selecionador no próximo Mundial, daqui a um ano.
Se lá chegar, o pódio é o objetivo, de forma a melhorar a última prestação na prova, em que foi quarto classificado, e a dar sequência ao quinto lugar alcançado no Europeu, que terminou há menos de uma semana: "Não podemos voltar para trás agora."
Em entrevista à TSF, confidencia que já recusou propostas de outras seleções "500 vezes mais aliciantes" financeiramente, mas que "a emoção acaba por falar mais alto". Acumulando o papel de selecionador com o de treinador do Dínamo de Bucareste, da Roménia, confessa que o excesso de trabalho está "a dar cabo da saúde mental", mas sente-se obrigado a ter de fazer a gestão entre os dois cargos.
Depois de 14 anos sem estar numa grande competição desde 2020, em seis anos, Portugal foi a oito fases finais. Só falhou os Jogos Olímpicos de 2024. A seleção foi quinta classificada no Europeu e quarta no Mundial. Pode-se considerar que Portugal já está na primeira linha do andebol internacional?
Eu achei espetacular quando disse "falhou" a ida aos Jogos Olímpicos de Paris. Não estou a dizer que está mal dito, mas nós nunca fomos aos Jogos Olímpicos na vida, a não ser em Tóquio [em 2021]. Mais nenhuma modalidade coletiva foi, com exceção do futebol. Se bem que para eles os Jogos Olímpicos são campismo, não é bem uma competição séria. Levam uns miúdos e só vão aqueles que lhes apetece ir. Portanto, falando de desportos cujas provas são muito importantes nos Jogos Olímpicos, nós somos o único, a nível nacional, que esteve nos Jogos. Se calhar ninguém sabe isso e é preciso dizer às pessoas: olha, só o andebol é que se qualificou para os Jogos Olímpicos. Mais ninguém. E agora já dizemos que falhamos a ida aos Jogos Olímpicos. É uma coisa extraordinária. Desde que andavam a jogar andebol com pedras, no Paleolítico, nunca mais ninguém foi aos Jogos Olímpicos. Nós fomos uma vez e agora parece que podemos ir aos Jogos Olímpicos quase sempre. E há mais. Em dois ciclos olímpicos, conseguimos apurar para dois pré-olímpicos. No primeiro ganhámos à França, em França. Vejam lá o que é que fomos lá fazer. E por isso é que fomos a Tóquio. Neste último, tínhamos de ganhar à Hungria, na Hungria, com 12 mil pessoas, num ambiente parecido com o que foi visto na Dinamarca [durante o Europeu]. Estávamos a ganhar a meio da segunda parte, mas depois de duas ou três coisas, aquilo mudou e eles acabaram por nos ganhar. A qualificação para os torneios pré-olímpicos implica ser top-8 mundial ou top-8 europeu do ano anterior. Isso valida que nós realmente estamos na alta roda e que jogamos de igual para igual com toda a gente.
O apuramento para o próximo mundial, na Alemanha, daqui a um ano, já está garantido. Qual é o objetivo para essa competição? É seguir a lógica de fazer melhor do que na edição anterior e, neste caso, chegar ao pódio?
Vai ser seguir essa lógica. Não podemos voltar para trás agora, senão andávamos a mentir a toda a gente este tempo todo. Pergunto sempre aos jogadores o que querem fazer. Eu não chego lá e digo "olhem, o objetivo é isto", mas questiono "o que queremos fazer este ano?". Já levo escrito [o objetivo] para eles verem depois. Discutimos um pouco, mas costuma ser muito rápido. Eles já se habituaram. Neste Europeu, perguntei-lhe e a resposta foi imediata: "Fazer melhor que o sexto lugar." Falámos um minuto sobre o objetivo e depois continuei com a reunião a falar de outros assuntos. Agora, quando formos ao Mundial, eles vão dizer isso [terminar no pódio]. Tenho quase a certeza. A não ser que haja muitas coisas que se sucedam, como muitas lesões. Sabemos que vai ser muito difícil chegar a uma medalha. Eu já disse várias vezes que queria, mas não sei quanto tempo estarei na seleção. Ainda não renovei, por exemplo.
Quando acaba o contrato?
Vai terminar agora no verão. Ainda não sei se vou fazer esse Mundial para o qual já estamos apurados.
Se depender de si, vai continuar?
Nunca depende só de um lado, mas a minha vontade é estar com a seleção. Eles para mim são meus filhos. Até lhes dou beijos e tudo. Para mim é uma sensação muito agradável trabalhar com eles. Já os conheço bem.
O que pode mudar esse possível cenário e não continuar na seleção?
Estamos a falar sobre isso. É preciso mudar algumas coisas. Portanto, vamos ver. Não gostaria de entrar em pormenores, mas é um facto que ainda não renovei pela seleção.
O Paulo Jorge Pereira está na seleção há quase 10 anos. Neste período tem recusado convites mais aliciantes, até financeiramente, de outras seleções?
Tenho recusado alguns. Alguns projetos são 500 vezes mais aliciantes [em termos financeiros].
Mas isso não é tudo....
Claro. Isto é sempre uma mistura de emoção e razão. E, às vezes, a emoção acaba por falar mais alto. Sempre que canto o hino é uma coisa espetacular. Ainda tenho aquelas borboletas na barriga. Mas, de facto, se eventualmente a minha família estivesse a passar mal e eu precisasse... Não é por acaso que acumulo a seleção com o cargo de treinador de um clube [Dínamo Bucareste]. Se eu vivesse extraordinariamente bem só com o facto de ter contrato com a nossa federação, provavelmente não teria que estar a dar cabo da minha saúde mental para que a minha família viva tranquilamente no futuro.
