Selecionador de andebol e o Euro em Portugal: "Queremos organizar coisas grandes e há coisas 'pequenas' que não estão resolvidas"

Créditos: Rui Oliveira Costa/TSF
Paulo Jorge Pereira alerta para a urgência de investir em infraestruturas, a começar pelos pavilhões. A necessidade de usar três sobretudos no inverno e o facto de se jogar com 42 graus no verão são alguns dos exemplos dados
O selecionador de andebol lamenta que só haja um pavilhão em Portugal habilitado a receber o Europeu 2028. Em entrevista à TSF, Paulo Jorge Pereira considera que "tudo tem de começar a ser melhor" para que o desporto possa crescer.
Portugal vai acolher a prova, numa organização conjunta com a Espanha e a Suíça. Para lá dos objetivos, a nível de resultados, o técnico refere que "o país precisa de acordar um bocadinho e começar a tratar daquilo que é preciso", denunciando o mau estado de alguns pavilhões.
Ainda não sabe se será o selecionador nessa altura, mas, daqui a dois anos, Portugal vai organizar o Europeu, a par da Espanha e da Suíça. Acredita que a seleção pode ganhar uma medalha, eventualmente a de ouro, ou é muito cedo para pensar nisso?
É muito cedo e é muito difícil dizermos que o nosso objetivo é ganhar a medalha de ouro. O que temos feito ao longo deste tempo todo, melhorar os nossos próprios resultados, tem sido já brutal. E é cada vez mais difícil melhorar, mas acho que vamos manter essa linha. Agora, atiramo-nos lá para cima de cabeça... acho que temos de continuar a ter a humildade suficiente para perceber onde estamos, quem somos e para onde queremos ir. Se quisermos ir para um sítio maravilhoso, tudo em Portugal tem de começar a ser melhor. Vamos organizar esse Europeu em 2028 e em Portugal só há um pavilhão que cumpre os requisitos mínimos exigidos pela Federação Europeia de Andebol. É o MEO Arena, em Lisboa. E o resto do país? Estamos a falar de infraestruturas, meus caros.
E não é só isso. E os campeonatos nacionais? Quando vamos ao cinema, pagamos quanto? 12/15 euros, mas temos ar condicionado no verão e aquecimento no inverno. Acho que realmente as pessoas têm razão em dizer «Não, eu não pago mais do que 5 euros porque tenho de ir com três sobretudos para ir ver um jogo em alguns pavilhões e, mesmo assim, saio de lá com os pés gelados». Por outro lado, no verão, este ano cheguei a jogar com o Dinamo Bucareste num pavilhão em Portugal e estavam 42 graus lá dentro. Isto até é um risco para a saúde. Estamos a falar de organizar coisas grandes e as coisas ditas 'pequenas', que não são assim tão pequenas, não estão resolvidas. É preciso o país acordar um bocadinho e começar a tratar daquilo que é preciso tratar. É preciso olhar para estas coisas que são tão importantes para que o desporto cresça. Em quantos pavilhões não há treino por causa da humidade? Quantos? É semanalmente, no inverno. É preciso gastar dinheiro para depois ter o retorno.
É precipitado organizar um Europeu nessas condições ou pode ser uma alavanca?
Não sei se será uma alavanca. Oxalá que seja. Acho que é uma oportunidade para melhorar algumas infraestruturas que necessitamos até para as seleções que vêm cá treinarem, por exemplo.
Há pouco falou do Dinamo Bucareste. Em março, vai voltar a Portugal para jogar contra o Sporting, na Liga dos Campeões. É fácil gerir emocionalmente o facto de defrontar jogadores com quem trabalha na seleção? Consegue encontrar fracos, por exemplo, no Francisco, no Martim Costa ou no Salvador Salvador?
Nesses três é difícil... Aconteceu também agora no Europeu quando defrontámos a Roménia. Na seleção estavam seis atletas meus. Quando defrontamos os nossos rivais, normalmente temos de ir sempre com aquele combustível adicional para dentro de campo.E, às vezes, é um bocadinho difícil ir buscar esse combustível adicional quando estamos a jogar contra pessoas de quem nós gostamos. Portanto, essa parte para mim é a mais difícil. Mas, de resto, o jogo começa e depois já queremos ganhar, como sempre. De qualquer forma, há ali um conflito de emoções, mas também não acontece muitas vezes.
Conversa com eles antes do jogo?
Normalmente, não. Não conversamos nada. No final do jogo damos um abraço e a vida continua.
Até ao próximo estágio?
Até ao próximo estágio. Exato.
