"Ainda somos fraquinhos para eles." Selecionador de andebol critica erros de arbitragem e organismos internacionais

Créditos: Sebastian Elias Uth/EPA
Paulo Jorge Pereira considera que Portugal foi duplamente prejudicado no jogo contra a Alemanha e que isso se deve também à falta de estatuto em relação a outras seleções
A derrota contra a Alemanha no Main Round do Europeu é uma "espinha encravada" na garganta do selecionador de andebol. Apesar do quinto lugar "extraordinário", acredita que Portugal podia ter chegado à final e culpa a arbitragem e a Federação Europeia de Andebol.
Em entrevista à TSF, o selecionador Paulo Jorge Pereira recorda o castigo de um jogo aplicado a Victor Iturriza - algo que não aconteceu com mais nenhum atleta ao longo da prova -, depois da expulsão frente à Dinamarca, que o fez falhar a partida diante dos germânicos. Além disso, recorda o golo mal anulado à Alemanha, que foi reconhecido publicamente pela federação europeia.
Para Paulo Jorge Pereira, "falta ganhar força, a um nível mais administrativo", para a seleção portuguesa se sentir "mais protegida".
Acredito que deste Europeu fica encravada uma espinha por causa da primeira parte contra a França, em que Portugal saiu para o intervalo a perder por 13 golos. No segundo tempo foram minimizados os impactos, dentro do possível, e perdeu apenas por oito. Foi um jogo difícil de digerir, de alguma forma?
Não, esse jogo não me ficou nada encravado como uma espinha porque isto é perfeitamente normal acontecer. Nestas competições, com um dia de intervalo entre jogos, as equipas têm jogos menos bons ou piores. Foi correndo tudo mal.
Não conseguíamos fazer nada bem. Portanto, eles marcaram golos rápidos e fáceis e, quando demos por ela, já estávamos a perder por cinco ou seis.
Para mim, a espinha que fica encravada é o jogo contra a Alemanha porque, se tivéssemos ganho, estávamos a jogar a final do Europeu. Se fizerem as contas, ficaríamos à frente da Alemanha. Claro que teríamos de jogar a meia-final, mas estou convicto [que se apurava]... naquele jogo contra a Alemanha fomos penalizados como ninguém foi no torneio. Neste torneio só houve um jogador sancionado com uma partida. Quem? Um jogador português, o senhor Victor Iturriza, precisamente antes do jogo contra a Alemanha. Houve contactos perfeitamente similares noutros jogos e não aconteceu nada, como, por exemplo, com o pivô alemão no jogo seguinte. [Sem o Iturriza] Tivemos de mudar os nossos formatos defensivos e uma série de coisas um bocadinho à pressa.
Mesmo assim perdemos por um, não foi por dois. Aquele último golo não é válido. A EHF assumiu publicamente que era inválido [depois do jogo], mas depois não nos deu o golo, a diferença ficou na mesma em dois. Não entendo. Se não é golo, por que razão mantêm o resultado? Até nos podia dar jeito aquele golo.
Determinados órgãos das federações europeia e internacional, por vezes, querem demonstrar uma certa força. E normalmente utiliza-se a força contra quem? São os fortes contra os fraquinhos. Como ainda somos fraquinhos para eles, não têm problemas em sancionar. Provavelmente, se fosse outra seleção, as consequências seriam outras. É um caminho a percorrer e faz parte desse ganho de estatuto que temos vindo a conseguir, pouco a pouco. No entanto, num plano mais administrativo, se quisermos dizer assim, falta ganhar força para nos sentirmos mais protegidos.
É só dentro de campo que se ganha essa força?
A maior parte é dentro de campo, mas não é só. Temos obtido [bons] resultados para o país que somos, em termos de infraestruturas, da forma como se vê o desporto desde os pequeninos, até nas escolas... como é que olhamos para isso? Estamos a construir a casa pelo telhado. Estamos a ganhar lá em cima quando cá em baixo não se ganha. Embora o ganhar em baixo é muito diferente do ganhar em cima. Em cima é competir e em baixo é saúde e atividade física e depois é que se fala do desporto de jovens e por aí fora. E nós olhamos muito pouco para isto. Ou seja, há um certo esquecimento desta parte, mas acredito plenamente que as coisas vão mudar, pouco a pouco.
Apesar desse resultado histórico de Portugal, tendo em conta a qualidade que a seleção foi apresentando e o que me disse, sobretudo relacionado com o jogo contra a Alemanha, sente que, de alguma forma, o quinto lugar pode saber a pouco?
Eu fiquei extremamente feliz com o quinto lugar. Aliás, era o nosso objetivo. E já nos diziam que ia ser muito difícil porque no main round... e é verdade. Olhamos para as seleções e com quem íamos jogar e dizíamos: "Isto não é possível, não vamos conseguir..." E conseguimos. Conseguimos porque teimamos. Como fazemos sempre.
Às vezes, um golo para cima ou um golo para baixo pode fazer a diferença entre passar à fase seguinte, ou não passar. Se a Dinamarca jogar contra Marrocos, sabemos que a Dinamarca vai ganhar, no mínimo, por 15 golos. Isto é claro. Se a Dinamarca jogar contra Portugal, teoricamente a Dinamarca ganha. Mas, num dia mais ou menos ou não tão bom para a Dinamarca, nós podemos vencer. Já estamos mais próximos deles. As seleções de topo já estão muito mais próximas. Já se preparam os jogos de outra forma e qualquer resultado pode acontecer.
A diferença de qualidade entre os dois grupos do Main Round era também considerável?
Era considerável. Basta ver quem foi à final.
Dá a sensação de que quem terminou em primeiro no Grupo II, a Croácia, podia acabar no último lugar do Grupo I.
Exatamente. Ou seja, a Alemanha e a Dinamarca acabam na final e jogámos contra elas no main round. Sentimos que podíamos ganhar à Alemanha. Quando acabou o jogo, sentimos que éramos melhores do que eles. E se voltarmos a jogar, com os jogadores todos, provavelmente, seríamos ainda mais competitivos. Depois de vermos a Dinamarca, a quem vencemos, e a Alemanha, com quem perdemos por um, sem os jogadores todos, dá a sensação de que realmente podia ter sido melhor. E, se eventualmente, o sorteio ditasse outra dispersão das seleções nos dois grupos... mas sorteio é sorteio e estamos muito satisfeitos com este quinto lugar, que acho que foi extraordinário.
