Paulo Jorge Pereira explica ausência de André Gomes: "Ele não quer vir à seleção"

Créditos: Rui Oliveira Costa/TSF
O lateral-esquerdo já não joga há quase três anos pela seleção. Por outro lado, o selecionador de andebol acredita que Francisco Costa pode vir a ser o melhor jogador do mundo
Primeiro por lesão e agora por opção do jogador. Estes são os motivos para o facto de André Gomes, um dos maiores talentos do andebol nacional, não ser convocado para a seleção desde abril de 2023.
Depois de várias lesões que o afastaram do Europeu 2024, o selecionador de Portugal explica que o lateral-direito de 27 anos recusou a convocatória para o último Mundial, há um ano, porque tem "outros objetivos". Agora, mesmo que queira, Paulo Jorge Pereira confessa que é difícil chamá-lo, até porque passou a competir no Japão, no Toyota Auto Body, e "não há acesso aos jogos do campeonato japonês".
Sobre Francisco Costa, o selecionador antecipa que um dia pode vir a ser o melhor jogador do mundo e que a única diferença para o atual detentor desse título é que "Gidsel está melhor preparado fisicamente". "Há dias falei com o Francisco sobre isso e disse-lhe que podia ser ainda melhor que o Gidsel".
Paulo Jorge Pereira considera ainda natural uma eventual saída do Sporting por parte do jogador que está prestes a completar 21 anos.
A nível individual, dois jogadores portugueses foram premiados no Europeu. O Francisco Costa foi o melhor lateral-direito e o melhor jovem. Além disso, foi também o terceiro melhor marcador da competição, com 61 golos, apenas atrás de dois dinamarqueses e que fizeram mais um jogo, o Simon Pytlick, com mais três golos, e o Mathias Gidsel, com mais sete. Já o Salvador Salvador foi o melhor defensor. Ele disse aos meios da federação que ficou "muito surpreendido pelo prémio". Também ficou?
É tão boa pessoa o Salvador. O Salvador é aquele tipo de atleta que todos os treinadores gostariam de ter. Se ele tiver de ir defender para a baliza, ele vai. É de uma humildade extraordinária, mas não é de uma humildade acomodada. Porque pode-se ser humilde e andar calado o tempo inteiro e ele não se cala. Ele é humilde, mas, quando tem de falar de alguma coisa, também fala. É uma pessoa extremamente equilibrada a todos os níveis. Mas depois, no fundo, estes prémios individuais, muito merecidos, são sempre um trabalho de equipa. Não sei se o Francisco Costa conseguia ter esse prémio se não tivesse o Rui Silva ao seu lado. Ou se não tivesse o Martim Costa também. Tentamos que algumas relações aconteçam para benefício da equipa. Existem timings e eles conhecem-se bem. Organizamos o nosso jogo para que consigam finalizar as ações mais perto uns dos outros. Na prática é simples, embora seja preciso preparar as ações para que assim aconteça. Tenho a certeza absoluta que, se não tivéssemos estas pecinhas todas, a trabalharem umas para as outras, acho que ia ser mais difícil estes prémios individuais. O Salvador também é uma pessoa que está sempre disponível para defender em qualquer sítio. Normalmente ele defende sempre na posição 4. Se começarmos a contar da esquerda para a direita no sistema 6-0, ele defende na posição 4, mas, se for preciso defender a 3 ou a 5, também o faz.
E sempre preparado para o contra-golo?
Sempre. Lembro-me que, há uns três ou quatro anos, punha o Salvador e o Frade a competir um contra o outro para treinar o contra-golo. Normalmente ganhava o Frade e acho que ainda hoje é capaz de ganhar o Frade. Mas eles andam muito perto um do outro sempre. Se calhar, em dez remates, há uma diferença de um golo. Não será muito mais do que isso. Portanto, até isso ele tem de bom.
Quanto ao Francisco Costa, faz 21 anos este mês. Na sua opinião, já é um dos melhores jogadores do mundo?
É. Ele é uma pessoa extremamente competitiva.
Não lhe surpreenderia se daqui a uns anos o Francisco Costa fosse considerado o melhor jogador do mundo? Ou é preciso esperar que o Gidsel termine a carreira?
Vamos lá ver. O Gidsel só está melhor preparado fisicamente que o Francisco. É a única diferença. Há dias falei com o Francisco sobre isso e disse-lhe que podia ser ainda melhor que o Gidsel. Só tem é de continuar. Ele trabalha muito e é jovem ainda. Este processo de construção física dele tem de continuar, não pode parar. E, se não parar, acho que ele ainda pode fazer melhor do que faz, que já é extraordinário. Ele faz coisas do arco da velha, que ninguém percebe muito bem onde é que ele vai buscar aquilo, tecnicamente difíceis de fazer. Taticamente é muito evoluído. Na cabeça dele, consegue ver o jogo rapidamente e tomar decisões que parecem fáceis. Claro que pode vir a ser [o melhor jogador do mundo]. Para mim ainda não é, mas anda perto e a questão física vai ser fundamental para ele continuar a progredir.
Seria importante para ele sair de Portugal? Ou acha que não tem de ser assim, tendo em conta o nível que o Sporting tem?
É sempre relativo, mas acho que algum dia ele poderá vir a sair. Creio que algum dia vai sair. Agora, acho que o Sporting também está com uma dinâmica competitiva espetacular. Neste momento, jogar no Sporting é uma excelente alternativa de crescimento e de competitividade.
Estava a falar mais da competitividade interna porque jogar no campeonato alemão ou dinamarquês é naturalmente diferente.
Ele ia ter mais competitividade, isso é seguro. Ele no Sporting é o primeiro lateral direito. Provavelmente, se fosse para o Fuchse Berlin.ia andar a repartir com o Gidsel. E não sei se o Gidsel gosta de repartir. Uma coisa é jogar numa equipa em que ele é o primeiro, outra é estar numa equipa em pode ser o segundo ou ter de repartir com outro jogador. A este nível há equipas que têm dois atletas por posto e todos eles são de altíssima qualidade porque é obrigatório. As equipas alemãs, por exemplo, se tivessem só um jogador por posto, ia ser difícil manter o nível, tendo em conta a exigência do campeonato e das competições europeias. É de uma brutalidade o impacto que esses jogos têm nos atletas, além das viagens. Portanto, eles precisam de ter mais jogadores de altíssimo nível para ir a uma final four, por exemplo.
Falando de jovens, mas menos experientes que o Francisco, que, apesar de ser novo, já está na alta roda há algum tempo, este foi um Europeu de estreias em grandes competições para seis jogadores da seleção: Diogo Valério, Pedro Tonicher, Miguel Neves, Filipe Monteiro, Gabriel Cavalcanti e José Luís Ferreira. É um sinal claro de que a renovação está a acontecer?
Ela sempre aconteceu. Não foi este ano. Em final de outubro e início de novembro, fizemos um estágio em Moimenta da Beira, onde jogámos duas vezes contra o Egito. Em 2017, num modelo parecido, estivemos também em Moimenta para jogar contra a Roménia. Passaram oito anos e só um atleta é que esteve nesses dois estágios. Tenho quase sempre caras novas nos estágios e a renovação vai acontecendo. E vão os melhores para cada momento. Temos uma lista alargada de trinta e cinco atletas. Desta vez não utilizei todos, mas utilizámos perto de 30, entre a qualificação e a fase final do Europeu. Essa renovação é feita sempre sem pressa. Jogar na seleção não é a mesma coisa que jogar no clube. Chegar aqui, sentir as cores da seleção, também é preciso. Às vezes, as pessoas questionam por que razão aquele não vai? E eu pergunto «Mas tu conheces o jogador?» É que, se calhar, ele não quer ir. Ou, para aquele, ir ou não ir é indiferente.
Está a falar do André Gomes, por exemplo?
Não quero destacar nenhum, mas, por exemplo, o André Gomes não quis vir ao último Mundial. E agora está a jogar no Japão.
Esse é o principal motivo? Ele já não vai à seleção há quase três anos.
Ele teve várias lesões e agora foi para o Japão. Nós nem conseguimos sequer ver como é que ele está a jogar. Não temos acesso aos jogos dos japoneses. Portanto, isto. Às vezes há uma série de limitações.... mas à última competição ele não esteve disponível para vir à seleção. É uma pessoa que não quer vir à seleção. Tem outros objetivos. É uma questão financeira, familiar... sei lá. Há muitos atletas que têm este tipo de problemas que as pessoas desconhecem.
Quando isso acontece, o selecionador insiste ou não?
Depende da situação, da pessoa, do problema e do motivo. Se o motivo é estritamente pessoal e sabemos que, quando as pessoas vêm à seleção, chegam contrariadas.... eu não quero ninguém contrariado na seleção, nem um bocadinho.
Porque isso é uma energia negativa que alastra e não pode ser. Neste momento só temos gente que adora vir à seleção, que vem sempre com aquele brilhozinho nos olhos sempre.
Neste processo de renovação, acredito que seja difícil deixar de fora nomes históricos da seleção como Gilberto Duarte, Fábio Magalhães, Pedro Portela, Daymaro Salina ou Alexis Borges. Tem o cuidado de falar com os jogadores, de explicar o porquê?
Tenho, tenho, tenho. A não ser que me esqueça. Como estou no Dínamo de Bucareste também, isto é non-stop. Às vezes, algumas coisas. embora sendo, de certa forma, prioritárias, começam a ficar um bocadinho mais lateralizadas. Por exemplo, com o Daymaro Salina, sempre falei. Ele fez uma coisa que eu não vou contar, mas que para mim é super top em termos do comportamento para com a seleção. Arriscou mesmo a renovação de contrato com o clube [FC Porto]. Isto já aconteceu há uns tempos. Não é de agora, que ele agora sente-se bem. Está a jogar lindamente e o clube está extremamente contente com ele. É uma pessoa fantástica. Desta vez recordo-me que não disse nada ao Fábio Magalhães, embora ele já soubesse que não ia ser convocado porque tem alguns problemas físicos que o limitam bastante. Mas depois já falámos outra vez, por escrito. É uma pessoa também extraordinária, que deu muito à seleção. E há uma coisa que nós temos de ter enquanto federação: um cuidado enorme no sentido de arranjar uma forma de reconhecer o trabalho destas pessoas. Se calhar há pessoas que não entendem o que estou a dizer. Isto de vir à seleção tem de ser um orgulho nacional, mas não podemos esquecer que estes atletas também têm família. Quando eles vêm à seleção, os colegas de clube estão em casa a descansar com as famílias. Normalmente, estamos dois meses por ano juntos na seleção. Os seus companheiros, que também são profissionais de andebol, têm mais dias de descanso com a família. Agradeço-lhes sempre quando eles vêm e dão tudo pela seleção. Eu sou o primeiro a agradecer-lhes porque acho que o país deve agradecer. Não nos podemos esquecer, por exemplo, que eles podem arriscar uma lesão grave na seleção, que os limita depois a conseguir um novo contrato. Se houver uma competição em abril, no final da época, se contraírem uma lesão grave na seleção, esse atleta já não vai ter contrato. Ou vai ter um contrato diferente ou limitado. Tudo isto é muito interessante e muito bonito das cores nacionais e nós lutamos por isso, mas também há outras nuances ao redor que estão associadas à vida das pessoas e das suas famílias, às quais temos de ser sensíveis.
O salário é pago pelos clubes?
Claro. Isso é também um fator a ter em conta.
Diogo Rêma, Alexandre Cavalcanti e Miguel Martins falharam o Europeu devido a lesão. Fizeram falta?
Nós, em Portugal, temos um bocadinho a mania de falar sempre de quem não está. E eu prefiro sempre falar de quem está. Às vezes, há atletas de quem não se fala e estiveram lá a jogar. No caso destes três é muito difícil dizer. Claro que há aqueles treinadores de bancada, que são muito bons, que, quando o Manuel, o José ou o Joaquim vai marcar um penálti e falha, eles já sabem que o burro do treinador deveria ter escolhido outro atleta.
Neste caso é o livre de 7 metros.
Exatamente. Ou seja, a maior parte dos treinadores de bancada sabe muito de tudo quando as coisas acabam. E, muitas vezes, calam-se porque aquilo que disseram antes já não funciona, que, no final de tudo, não tinham razão. De qualquer forma, é muito fácil sempre falar. Quando as coisas acabam, a primeira pessoa a fazer a análise da possibilidade de convocar outro tipo de atleta sou logo eu e fico a pensar «Se calhar podia ter feito de outra maneira ou daquela forma». Neste Europeu era assim que devíamos ter feito. Não mudava nadinha. E a prova é que jogámos como jogámos e o quinto lugar esteve aí. Em relação aos atletas lesionados, é muito difícil saber se seria melhor ou pior porque não é possível reproduzir outro campeonato para perceber. Até podia ser pior. Não sabemos. Acho que é perder tempo estar a falar sempre dos atletas que não estão.
