Quatro divisões em cinco anos: a fantástica viagem de Raphaël Duarte no futebol alemão

Carmen Jaspersen/DPA Picture-Alliance Via AFP
Aos 29 anos, o luso-luxemburguês Raphaël Duarte é o braço direito do treinador do Werder Bremen na liga alemã. Em entrevista à TSF, o técnico adjunto português explica por que está o futebol alemão a superar todos os concorrentes no número de pessoas a cada semana nos estádios, dos regionais à Bundesliga. Raphaël conheceu em quatro anos todas as realidades do futebol germanico
Olhar para o adversário, conversar com os analistas, examinar os últimos treinos e puxar pela cabeça para criar algo novo para cada sessão com os jogadores: o dia a dia de Raphäel Duarte não mudou assim tanto no caminho sinuoso que o técnico adjunto percorreu dos regionais até ao primeiro escalão do futebol germanico, onde entrou pela porta do Werder Bremen, esta temporada.
Mais do que o ritmo do futebol praticado, o que mais impressiona o treinador português de 29 anos é a presença do público nos estádios a cada jornada, seja na Bundesliga 1, Bundesliga 2 ou Bundesliga 3. Basta espreitar os números da média de espectadores nas diferentes divisões no ano em que Raphaël esteve no Elversberg (atualmente na Bundesliga 2): em 2023/2024, na Bundesliga 3, dez clubes superaram a fasquia dos dez mil adeptos por semana (em média) no estádio a cada jornada, um número que supera os clubes da League One inglesa, o equivalente britânico.
Liga regional e Bundesliga 3
Raphaël era treinador principal no Luxemburgo, no Jeunesse Canach, mudou-se para o Nancy da segunda liga francesa como adjunto. A experiência foi curta. Do lado leste da fronteira surgiu uma outra oportunidade, desta vez um convite do técnico alemão Horst Steffan.
"Naquele momento a minha ideia não era ir para a quarta divisão da Alemanha como adjunto, mas as conversas foram muito boas, o clube tinha um projeto muito interessante. O treinador principal disse-me que eu ia ter muitas responsabilidades, seja no treino - com treino de campo, para ele ter mais tempo para gerir o grupo -, nas conversas com os jogadores", explica à TSF o treinador português.
Horst Steffen assumiu a equipa do Elversberg na Regionalliga Südwest (2020/2021, 2.º lugar atrás do Fribourg 2) e subiu o clube na segunda época completa como treinador (2021/2022) para a Bundesliga 3 - primeiro escalão nacional na hierarquia alemã. Mas o Elversberg só esteve uma temporada na Bundesliga 3: venceu o campeonato superando o Fribourg 2 em 2022/2023.
Bundesliga 2
O Elversberg não ajudou particularmente à impressionante estatística de assistência média nos estádios da Bundesliga 3. Com um estádio de dimensões reduzidas (para o contexto), o clube esforçou-se para se adaptar a uma realidade nova.
"O clube cresceu muito rápido. Quando cheguei estávamos na quarta divisão, subimos ao terceiro escalão. Depois, logo no primeiro ano, subimos da terceira para a segunda divisão. O clube tentou acompanhar o crescimento desportivo, construindo um centro de treinos e aumentando a capacidade do estádio. Mas tudo demora o seu tempo. Neste momento, estão a finalizar o estádio, para o ano já vão ter uma capacidade para 14 ou 15 mil pessoas - quando comparado com a capacidade atual, cerca de nove mil pessoas -, é um clube em crescimento", resume.
"O futebol alemão é único. Quando percebemos que há na terceira divisão jogos com 20 ou 30 mil espectadores, percebemos que é um futebol único. Há menos polémicas do que em Portugal ou noutros países, fala-se mais de futebol do que de outros assuntos que não têm que ver com o futebol praticado em campo. É uma questão cultural, as pessoas gostam de falar sobre futebol. Não se fala de arbitragem, não se tenta encontrar explicações fora de campo para as derrotas", assinala.
No segundo escalão do futebol alemão, o Elversberg foi 11.º em 2023/2024 e 3.º em 2024/2025. "O objetivo era não descer de divisão. Terminamos em terceiro e tivemos a oportunidade de nos mudarmos para um histórico como é o Werder Bremen. Não hesitamos."
Bundesliga 1
O passo de Horst Steffen (56 anos) para a Bundesliga levou Raphaël Duarte a estrear-se no primeiro escalão aos 29 anos.
"Se falamos do treino, da preparação dos jogadores, estamos a falar do mesmo futebol. O que muda é o ritmo. Mesmo quando falamos de infraestruturas, a Bundesliga 2 está num nível muito elevado, falamos de, por vezes, estádios com mais de 50 mil pessoas. A grande diferença [da Bundesliga] está na qualidade individual do jogador", defende.
O adjunto português tem um papel determinante na conceção do treino, mas também na forma como a equipa prepara cada jogo. "Analisamos com os analistas o próximo adversário. A partir daí preparo os exercícios para o treino de campo. Tudo o que é responsabilidade na preparação do próximo jogo e dos treinos é tarefa minha."
De semana para semana há tendências que repetem. "O futebol alemão é muito intenso, seja na primeira, na segunda ou na terceira liga. A reação à perda de bola, a forma como todas as equipas tentam ser ativos em fase defensiva. Uma tendência no futebol alemão e no futebol europeu é a marcação homem a homem na pressão alta, algo que está a voltar e que muitos clubes estão a praticar. Há muitos clubes na primeira liga alemã com essa tendência", revela.
"Estamos num processo. Nos últimos cinco jogos fomos muito felizes, com 11 pontos, mas continua a ser um processo. Nós chegamos este verão, chegaram muitos jogadores na fase final do mercado de transferências, os jogadores ainda estão a entender como queremos jogar. Mas temos uma equipa muito interessante. Há que continuar a somar pontos para evitar ficar nos lugares de baixo da tabela. Na segunda volta logo veremos onde podemos chegar", remata.