"Dia histórico." Câmara de Grândola satisfeita com chumbo da APA à Mina da Lagoa Salgada

Créditos: Câmara Municipal de Alcácer do Sal/Reprodução Facebook
Segundo o autarca, eleito pelo PS, esta "é uma vitória da população de Grândola que se juntou, numa luta conjunta, para um projeto que poderia ter consequências muito nefastas, nomeadamente, ao nível dos recursos hídricos
O presidente da Câmara de Grândola, Luís Vital Alexandre, congratulou-se esta sexta-feira com o chumbo da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) à Mina da Lagoa Salgada, no litoral alentejano, e disse esperar que este seja o culminar do processo.
Em declarações à TSF, Luís Vital Alexandre disse ter a "expectativa de que este seja, finalmente, o fim" de um processo longo", que se arrasta "há várias décadas", com impactos no território, e lembrou que devido a este investimento "toda a zona" abrangida pelo projeto foi "intensamente perfurada e sondada, nas últimas décadas".
"Finalmente, vemos que o processo tem um ponto final com esta rejeição por parte da APA. É um dia de grande satisfação, um dia que eu arriscaria até a dizer histórico, não só para o município de Grândola, mas fundamentalmente e principalmente para todas e todos os grandolenses que nunca baixaram os braços e que, com isto, veem a possibilidade de um futuro mais verde", assinalou.
A APA deu parecer desfavorável ao projeto da Mina da Lagoa Salgada, para exploração de cobre, chumbo e zinco nos concelhos de Grândola e Alcácer do Sal, após identificar impactes negativos nos recursos hídricos.
O autarca, eleito pelo PS, reforçou que esta é uma questão "que não tem forma de ser contornada", uma vez que todo o projeto situa-se numa "estrutura ecológica municipal, com muita biodiversidade".
"Por outro lado, e aqui o ponto fulcral que levou à rejeição do projeto, é a questão da água. É sabido que toda esta zona do país se encontra já em stress hídrico. Todo o projeto mineiro iria desenvolver-se em cima de um dos maiores aquíferos, de extrema importância, que é fundamental para o abastecimento público das populações do concelho de Grândola, mas não só. Também com concelhos vizinhos, nomeadamente Alcácer do Sal", salientou.
Luís Vital Alexandre reconheceu ainda que a base económica do concelho está "muito assente no turismo" e, por isso, garantiu não ser contra qualquer tipo de investimento, mas ressalvou que estes devem garantir a "sustentabilidade e a segurança" da região.
"Têm de ser investimentos que não hipotecam questões fundamentais, como a água, e têm de ter longevidade. Recordo que este projeto da Mina da Lagoa Salgada, entre a fase construção e a fase de exploração, era um projeto para 13 anos", resumiu.
A base económica do Concelho de Grandores está muito assente no turismo e desde sempre disse que não sou contra nenhum investimento nenhum. Agora, os investimentos têm que ser investimentos que deem garante sustentabilidade, garante segurança, que não hipoteca questões fundamentais como a água e têm que ser investimentos com longevidade. Recordo que este projecto da Mina da Lagoa Salgada era um projecto que entra fase construção e a fase de exploração era um projeto para 13 anos.
Numa nota publicada esta sexta-feira, à qual a agência Lusa teve acesso, a APA refere que, no âmbito do procedimento de Avaliação de Impacte Ambiental (AIA), emitiu na quinta-feira uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) desfavorável sobre o projeto da Mina da Lagoa Salgada.
Enquanto autoridade de AIA, a APA, considerou que o projeto "continua a comportar impactos negativos muito significativos, nomeadamente, ao nível dos recursos hídricos" dos concelhos de Grândola e Alcácer do Sal.
Para a APA, este é um "fator determinante", tendo em conta "a sua implantação numa zona protegida para a captação de água subterrânea, abastecimento público e a sua vulnerabilidade".
A decisão surge após a submissão de uma proposta de modificação do projeto, cujo promotor é a Redcorp - Empreendimentos Mineiros.
Em comunicado, o município de Grândola lembrou que foram realizadas reuniões com a AICEP Portugal Global, responsável pela atribuição do estatuto de Potencial Interesse Nacional (PIN), e com a APA, e foi encomendado um parecer técnico fundamentado sobre o projeto.
Foi igualmente agendada "uma reunião de Câmara extraordinária dedicada apenas à consulta pública do projeto reformulado da Mina da Lagoa Salgada, na qual foi aprovada a posição desfavorável da Câmara, por unanimidade", acrescentou.
Francisco Ferreira
Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero, elogia a APA.
"Estamos muito satisfeitos com esta avaliação que foi feita pela Agência Portuguesa do Ambiente, mesmo após a remodelação do projeto. É um projeto em que estava em causa a preservação, principalmente, da disponibilidade de recursos hídricos naquela zona do Alentejo Litoral. E é um sinal muito claro que a Agência Portuguesa do Ambiente está a dar e que, obviamente, merece o nosso elogio. Não é fácil, face à pressão de muitos investimentos que temos visto em Portugal, conseguir selecionar aqueles que verdadeiramente minimizam e não põem em causa o futuro das áreas onde têm lugar", disse Francisco Ferreira à TSF.
Para o ambientalista, é preciso introduzir um "passo intermédio": "Antes de nós pensarmos no armazenamento definitivo, como está agora em jogo ao largo da Figueira da Foz, nós temos que introduzir um passo intermédio muito importante que é a utilização deste carbono e a prioridade tem sido muito nessa linha. No caso destas indústrias, o dióxido de carbono emitido deve primeiro ainda tentar ser utilizado antes de ser armazenado nas profundezas. Portanto, é fundamental ter esse objetivo primeiro."
Ainda assim, Francisco Ferreira pede que sejam esclarecidos os custos e os impactos ambientais do projeto.
"Há realmente custos que são extremamente elevados e impactos ambientais que é preciso clarificar e muito bem, porque estamos a falar de centenas de quilómetros de gasodutos para este dióxido de carbono ser canalizado e depois as garantias que têm de ser absolutamente dadas de que estamos a fazer um armazenamento geológico deste dióxido de carbono. Este tipo de projetos de captura e armazenamento de carbono, à escala mundial, não têm sido bem sucedidos, porque para o fazermos precisamos ainda de gastar muita energia e eles têm sido considerados como, pelo menos por agora, processos relativamente pouco eficientes e muito dispendiosos. Portanto, vale a pena, sem dúvida, avaliar, discutir, mas é algo que ainda nos merece bastante cuidado e precaução em validarmos", avisa.
O investimento da empresa Redcorp - Empreendimentos Mineiros foi classificado em 2022 com Estatuto PIN.
O projeto esteve em consulta pública até 27 de novembro de 2025, depois de, em julho do mesmo ano, após emitir uma decisão de DIA desfavorável, a APA ter dito que o promotor tinha seis meses para reformular a proposta e submetê-la a novo Estudo de Impacte Ambiental.
O promotor apontava para um investimento global de 196 milhões de euros e a criação de 300 postos de trabalho diretos e 700 indiretos, e o início da construção para o 1.º trimestre de 2026, com o arranque da exploração mineira no 2.º semestre de 2027 por um prazo de 11 anos.
A produção estimada para a Mina da Lagoa Salgada era de 5.480 toneladas diárias de minério, durante uma vida útil de 11 anos, iniciada após uma fase de construção com cerca de dois anos.
