Pacote laboral "escasso", a reforma do ensino e os contratos sem termo: Noexa ensina a reter talento

Abílio Alexandre Lopes
Foto: Reprodução Linkedln Noexa
O diretor da Noexa, Abílio Alexandre Lopes, critica o pacote laboral, pede uma reforma do sistema de ensino virada para novas tecnologias e quer ver para crer o que vai resultar do investimento da União Europeia na digitalização.
Ouvido no programa TSF Negócios em Português, Abílio Alexandre Lopes começa por sublinhar que o novo centro de competência em desenvolvimento de software e inovação tecnológica do grupo austríaco XRXES, do qual é subsidiária, é instalado em Portugal para alavancar as "soluções digitais de transformação" da empresa.
A isto, somam-se também os serviços partilhados, pelo que a gestão das operações do grupo passam a estar sediadas em Lisboa.
A empresa de consultoria em Tecnologias de Informação quer, assim, consolidar a presença na Península Ibérica e ter o Estado português entre os principais clientes, no prazo de dois anos, bem como expandir para Espanha e América Latina em 2028.
Para isso, arranca com 500 mil euros de investimento e 18 postos de trabalho nas instalações do novo centro (perto da antiga rotunda Batista Russo), mas o plano é mais ambicioso: quer quadruplicar a equipa e, por isso, está a contratar, oferecendo apenas contratos sem termo.
O objetivo, adianta, é também "contrariar a tendência de fuga de talento" com a garantia de "continuidade" oferecida pela empresa.
"Temos muitas posições em aberto e estamos a preencher diretamente para o nosso centro de competências e, naturalmente, também temos outras oportunidades de alguns clientes que nos pedem. E o que nós tentamos fazer é garantir que as pessoas, quando entram na Noexa, tenham uma linha de continuidade e o projeto - apesar de ser versátil, flexível e poder trazer várias experiências aos recurso - dá-lhes uma garantia de continuidade", explica.
É também com esta meta em mente que propõe uma reforma do sistema educativo, para que as novas tecnologias passem a estar na base das preocupações. O diretor da Noexa identifica falhas de formação específica nos cursos universitários e, por isso, a empresa tem apostado na formação profissional dos trabalhadores.
"Estamos a falar de um mundo em constante mudança, mas, na verdade, muitos dos cursos universitários que nós temos ainda apontam para um processo industrial e não tanto um processo de inovação e de serviços como nós temos hoje em dia. Portanto, aquilo que nós temos feito desde logo é garantir que, por um lado, captamos o talento e ele tem as características que nós procuramos, mas, por outro, apostamos desde logo em formação", revela.
E dá como o exemplo o caso da inteligência artificial: apesar de ser um tema amplamente discutido, não existe, afirma, no ensino superior a "tendência de explorar". Lamenta, por isso, que o sistema educativo ainda não esteja "adaptado" à nova realidade.
"Já existem algumas iniciativas no sentido fazer uma adaptação dos nossos cursos e daquilo que seleciona nas nossas universidades mais focados na inteligência artificial, mas eu acho que ainda existe um caminho longo por fazer nessa matéria. E aquilo que eu acredito e que eu tenho observado é que as empresas acabam por fazer um bocadinho isso para garantir que os seus recursos têm uma linha orientativa e estão preparados para os desafios que estão por surgir ainda", aponta.
Apesar de reconhecer que os primeiros passos começam agora a ser dados, Abílio Alexandre Lopes defende que seria "extremamente útil" garantir que o Ministério da Educação possa integrar o mundo académico nas empresas, aproximando estas realidades. Esta, diz, é uma condição que deixaria "todos a ganhar", porque significa desde logo que o "talento português sairia muito mais bem preparado" para os desafios atuais do mundo laboral.
"Isso era fundamental para adaptar inclusivamente tudo aquilo que são os cadernos que nós temos hoje em dia e os vários cursos que nós temos disponíveis para garantir que as pessoas, quando saem da universidade, saem muito mais preparadas para o mundo real que as espera e adaptadas a estas novas tendências", argumenta.
O grupo austríaco XRXES é atualmente o maior parceiro tecnológico da cidade de Viena. E as motivações da Noexa albergam também o setor público português, onde pretendem entrar nos próximos anos. "É daí [do setor público] que vem a experiência do grupo", justifica.
"Queremos colocar todo esse conhecimento ao abrigo daquilo que é o setor público português, sendo que, na verdade, em termos do nosso plano de negócios, essa vertente só aparece em 2027, precisamente porque o setor regulatório e o processo administrativo e de certificação são processos mais demorados que exigem outro tipo de capacidade. Estamos a ir passo a passo: entrar primeiro pelo setor privado e, depois, dedicar-nos ao setor público onde o grupo pode apostar tanto valor", garante.
Já sobre a modernização e digitalização da economia na União Europeia, Abílio Alexandre Lopes refere que esse é um "comboio difícil de apanhar", uma vez que a locomotiva está em "movimento e em grande velocidade e há algum tempo".
"Eu acho que, tendencialmente, os nossos líderes europeus perceberam qual é que era a sua posição no ranking e estão, na verdade, a tentar fazer tudo aquilo que está ao seu alcance para garantir que apanham o comboio", atira.
E destaca um conjunto de "boas" iniciativas que já foram sendo desbloqueadas: desde logo, a desmaterialização dos processos, através das leis de e-Procurement. Mas só o tempo dirá se a Europa tem ou não "capacidade suficiente" para acompanhar uma tendência que avança numa "velocidade considerável".
Já sobre a reforma laboral proposta pelo Governo, o líder da Noexa confessa que esperava mais apoios às empresas, apesar do documento prever medidas de apoio para organizações que invistam em simplificação de contratos ou promoção da efetivação de trabalhadores e desoneração da contratação.
"Infelizmente, aquilo que sentimos é que o pacote [laboral] ainda é escasso, tendo em conta aquilo que precisaríamos em termos de apoio e de patrocínio. Portanto, aquilo que temos feito é garantir que temos a nossa estratégia de gestão para os próximos anos muito assente na nossa gestão de recursos humanos e ter os recursos no centro da nossa estratégia de gestão. Temos uma estratégia e estamos a levá-la a cabo sem contar com o Estado", atira.
Ainda assim, anuncia que a Noexa vai concorrer aos apoios existentes, por considerar que, apesar de insuficientes, são "importantes". E afirma que o Executivo tinha "espaço para ser bastante mais ambicioso" na apresentação do documento.
Abílio Alexandre Lopes revela ainda que a empresa definiu plano de crescimento "muito ambicioso" e espera ter retorno de um volume de negócios na ordem dos dois milhões de euros já no próximo ano.
"Este ano vamos fazer para o primeiro ano de atividade meio milhão de euros. No próximo ano contamos estar perto dos dois milhões de euros, portanto, quase que vamos quadruplicar a nossa faturação", assinala.
Os números estão, assim, "alinhados" com a visão original para a organização e 2026 avizinha-se como um ano de "muito crescimento", numa altura em que acreditam ser capazes de "mais do que triplicar os recursos".
"Apesar de tudo o que discutimos aqui hoje, Portugal continua a ser um destino bastante aliciante para desenvolver centros de competência e ter o talento português ao abrigo não só de Portugal, mas também do centro da Europa", admite.
Mas o sonho pela internacionalização não se fica por aqui: há vontade de expandir a atividade para a América Latina em 2028, sendo que, para já, está a ser preparada a entrada para o mercado espanhol já em 2026.
As portas de entrada seriam, então, o Brasil e Colômbia, onde Abílio Alexandre Lopes já exerceu alguma atividade em funções anteriores. "Sabemos exatamente como entrar nestes países e são uma porta de entrada importante para uma transição do grupo, que deixa de operar unicamente na Europa Central e agora na Península Ibérica, e passa a alcançar um outro continente", remata.
