Turismo teme cancelamentos na Páscoa como impacto do estado de calamidade em Portugal

O presidente da Confederação de Turismo de Portugal, Francisco Calheiros
Créditos: Leonardo Negrão/Global Imagens (arquivo)
O presidente da Confederação do Turismo de Portugal receia que os cancelamentos de reservas possam acontecer já no período da Páscoa, após o comboio de tempestades que assolou o país
Antes do corte da A1, Francisco Calheiros atravessou o país até ao Porto para participar no Congresso do setor, na Alfândega. Com a informação que foi recolhendo, teme que os primeiros cancelamentos aconteçam já na Páscoa.
"Já não há palavras que caracterizem a calamidade que nos assolou e que continua a assolar. É, de facto, impressionante. Não há ninguém que não saiba o que é que está a acontecer em Portugal e temo que, por exemplo, a nível de Páscoa possamos ter alguns problemas de cancelamento", diz.
Receios manifestados, após um ano de recordes nas receitas, que atingiram os 29,4 mil milhões de euros, que o presidente da Confederação de Turismo de Portugal atribui ao comportamento dos turistas portugueses e dos visitantes norte-americanos, além da aposta dos operadores na relação preço-qualidade.
"Crescemos mais em valor do que em quantidade. É uma aposta que tem vindo a ser feita e que tem vindo a ser conseguida, por exemplo, com o mercado norte-americano. A segunda nota é para pôr fim àquele mito urbano de que Portugal não é para os portugueses, é um erro. Foram os portugueses que fizeram aumentar as dormidas em Portugal este ano."
Mas a instabilidade geopolítica internacional também contribui para a incerteza da nova temporada, adianta Francisco Calheiros.
"A situação geoestratégica internacional não para de nos surpreender. Começámos com uma pequena invasão da Rússia na Ucrânia e achávamos nós que seria uma questão que se resolveria em duas ou três semanas e já vão lá anos. A partir daqui, não mais parou e em todas as geografias. Isto causa uma grande instabilidade e o turismo precisa de tudo menos desta instabilidade. Logo, é muito difícil prever o que pode acontecer, mas se o ano de 2026 for igual ao ano de 2025, já seria uma ótima notícia."
Com previsão de mais 12% de visitantes estrangeiros este ano, enquanto o país espera pelo novo aeroporto, o líder da CTP insiste no apelo ao Governo para encontrar uma solução intermédia. "Não podemos ter a principal porta de entrada de Lisboa completamente entupida e, pior do que estar entupida, é ter estado a prestar o mau serviço que prestou nestes últimos meses ao turismo. De facto, é o apelo que eu faço ao Governo: temos de estudar uma solução intermédia que possa servir para os próximos 12 anos."
Estas preocupações foram manifestadas por Francisco Calheiros à TSF, à margem do Congresso da Hotelaria e Turismo, a decorrer na Alfândega do Porto, numa altura em que o setor espera conquistar mais 133 empreendimentos nos próximos três anos e alcance, até 2028, as 13.324 unidades de alojamento no país, mais concentradas nas regiões metropolitanas de Lisboa e Porto, além da restante região Norte, mas também a sul, no Algarve.
O evento que termina esta sexta-feira teve na sessão de abertura, na quarta-feira, uma mensagem de Marcelo Rebelo de Sousa exibida em vídeo.
Para o arranque dos trabalhos, o Presidente da República falou de um balanço indiscutivelmente positivo do setor, ao longo do seu último mandato, apesar das crises internacionais, da pandemia e realçando o trabalho da AHP na última década face a desafios externos, como as guerras, mas também desafios internos, como a saída do país do procedimento de défice excessivo, ou a forma como lidou com a inflação de 2022.
Marcelo elogiou ainda a forma como o setor foi capaz de se renovar, de promover a qualidade de serviços, sofisticar a oferta e conquistar mercados, só possível pelo papel "daqueles que lhe dão vida todos os dias, empresários, gestores e trabalhadores que conseguiram um nível inédito que transformou Portugal numa moda de sucesso".
Antes da saída de Belém, como chefe de Estado, sublinhou que "a luta continua, para o ano tem de ser melhor, para os próximos anos tem de ser melhor e para a próxima década tem de ser ainda melhor."
Também na abertura do Congresso de Hotelaria e Turismo, no Porto, Pedro Machado, secretário de Estado do Turismo, deixou a garantia de que o Governo está a fazer o que está ao seu alcance para minimizar o impacto do comboio das tempestades e diz que tem visitado na região centro os empreendimentos hoteleiros mais afetados.
Residente na região, Pedro Machado afirmou que sente na pele os efeitos das tempestades, porque a ruptura do dique também coloca bens da sua própria família debaixo de água.
