Entrevista TSF Dinheiro Vivo

Brexit, Itália e... tweets de Trump. Três "riscos desnecessários" para Centeno

Mário Centeno faz o balanço de um ano como presidente do Eurogrupo, reconhecendo que até ao fim do mandato "dificilmente" haverá acordo sobre a proteção europeia de depósitos.

"O Brexit, a situação orçamental italiana e as decisões ao som de tweets da administração americana": são três os riscos "desnecessários" que Mário Centeno lamenta na hora de fazer as contas ao primeiro ano como coordenador dos ministros das Finanças da Zona Euro.

Em entrevista à TSF e ao Dinheiro Vivo, Mário Centeno faz um balanço positivo do último ano, afirmando estar satisfeito com o fim do resgate à Grécia e com o acordo para reforçar a união bancária. Sente, no entanto, que as decisões dos governos de Itália, Reino Unido e EUA podiam ter sido diferentes, porque tiveram como base "avaliação e informação que não reflete o contexto em que essas decisões estão a ser tomadas".

Por isso, "mais tarde ou mais cedo têm de ser revistas, como aliás temos visto várias vezes com as decisões da administração Trump em termos económicos, comerciais e até orçamentais. E, como foi o ziguezague até chegarmos a um equilíbrio, que agora tem de ser robustecido, na situação italiana", defende o ministro das Finanças.

"Não seria bonito do outro lado do Canal da Mancha"

Questionado sobre a possibilidade de um "hard Brexit" - uma saída sem acordo da União Europeia -, Mário Centeno responde que seria um fardo sobre toda a Europa, mas que "quem sairia mais a perder seria, claramente, o Reino Unido". "Não iria ser bonito do lado de lá do Canal da Mancha", garante.

O presidente do Eurogrupo diz ter "certeza de que a União Europeia e a área do Euro iriam superar essas dificuldades", embora admita "uma preocupação grande sobre o impacto de uma saída dessa natureza na Irlanda, na Holanda e depois na generalidade dos países da área do Euro".

Em todo o caso, Mário Centeno não quer pensar nesses termos. "Não acho que devamos considerar esse cenário como um cenário sequer possível, espero genuinamente que todos o consigamos evitar. É evidente que neste momento a questão está mais do lado do Reino Unido que do lado da Europa", afirma.

"Honestamente, acho que devemos continuar a trabalhar para avaliar as vantagens e desvantagens do Brexit e que no Reino Unido isso se faça todos os dias. Aliás, é o que se está a fazer neste momento", nota o ministro das Finanças, que mantém esperança de que o Brexit possa ser revertido. "Acho que ainda temos espaço para que isso aconteça", acredita.

Recuperação em Itália? Se houver estabilidade e "bom senso"

"Itália tem desafios de crescimento que se refletem no setor financeiro, e obviamente tem de continuar a reduzir riscos... por isso devíamos ter sido mais lestos a chegar a acordo entre Itália e Comissão Europeia", reconhece Mário Centeno.

"Itália está e continuará numa situação de recuperação, que requer algum temperamento mais de bom senso nas decisões que são tomadas...", avisa o ministro das Finanças. Isto, ressalva ainda, num cenário em que "não houvesse mais perturbações".

Apesar dos desafios, o presidente do Eurogrupo deixa elogios ao caminho feito pelas autoridades italianas, nomeadamente na recuperação do sistema financeiro. "Houve enorme esforço dos governos italianos na recuperação dos bancos que tinham dificuldades em Itália, o [crédito] malparado já está abaixo de 10% neste momento, todos os bancos têm melhor desempenho", argumenta.

"Dificilmente" haverá acordo sobre depósitos durante mandato de Centeno

Mário Centeno entende que "é absolutamente crucial" avançar com o sistema europeu de proteção de depósitos (em inglês, EDIS, "European Deposit Insurance Scheme"), "a única peça que falta na união bancária", depois do acordo alcançado em dezembro pelos estados membros.

No entanto, e embora o presidente do Eurogrupo acredite que "vai haver acordo, um dia...", Mário Centeno também reconhece que será difícil chegar a um consenso até ao fim do mandato à frente do Eurogrupo, no próximo ano e meio. "Se quiser que seja totalmente honesto: dificilmente".

O ministro das Finanças sublinha, no entanto, que é importante o assunto estar ainda em cima da mesa e recorda que foi criado um grupo de trabalho, que "vai ser apresentado proximamente", e que terá de produzir conclusões até ao verão.

"A minha ideia é que esse grupo de trabalho recolha todos os contributos, técnicos e políticos, que estão em cima da mesa e os elabore e trabalhe neles de forma pausada. Tudo isto tem de ser feito com muita ponderação, dada a sensibilidade às questões de risco que existem entre nós", salienta.

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