Pode a velhinha vacina da BCG ajudar a combater a Covid-19?

São investigações preliminares já publicadas em revistas científicas como a Science. A vacina da BCG tem potencial de tratamento no novo coronavírus. Os estudos demonstram que coincidem os países onde taxas de incidência da Covid-19 são menores e aqueles onde a presença da vacina da BCG está mais consolidada no respetivo sistema de saúde. Uma especialista búlgara cita mesmo o exemplo de Portugal.

Porque será que o número de pessoas contaminadas com COVID-19 é substancialmente maior na parte ocidental do continente europeu do que nos antigos países comunistas? Não, não se trata de imunidade ideológica. Mas não deixa de ter que ver com as políticas adotadas durante décadas nos dois lados da chamada cortina de ferro. Na Europa central e oriental, o número de casos confirmados, internados e mortes é muito menor que no ocidente.

Nos últimos dias, um dos textos mais lidos nos países da antiga Europa de leste é um artigo publicado na revista científica Science, intitulado "Can a century-old TB vaccine steel the immune system against the new coronavirus?"

A vacina contra a tuberculose, conhecida como BCG (Bacillus Calmette-Guérin), tem 100 anos e tem sido usada de maneira desigual na parte leste e oeste da Europa. Lyubima Despotova, Presidente da Sociedade Búlgara para os Cuidados Continuados e Paliativos, pediatra de formação, especializada em medicina geral, gestão de saúde, é frequentemente professora convidada em universidades americanas, japonesas e britânicas. Numa entrevista à rádio nacional da Bulgária diz que o mapa de distribuição mundial do Covid-19 bate certo com o mapa da política de vacinas. Os países que abandonaram a BCG (os Estados Unidos nunca a tiveram ministrada em massa) estão atualmente no epicentro da epidemia e são fortemente afetados.

"Se olharmos para o mapa das políticas reais dos países na atualidade, o mapa da Europa, bem como a crescente epidemia nos Estados Unidos, sobrepõem-se completamente ao mapa das políticas de vacinação nacionais. Os países que abandonaram a vacina contra a tuberculose (BCG) há décadas estão atualmente no meio de uma epidemia e são severamente afetados."

Dá o exemplo da Alemanha, que publica um mapa para o desenvolvimento da epidemia em todo o território, e observou em detalhes a propagação da doença:

"Há alguns dias, foi publicado um mapa da Alemanha, detalhando o desenvolvimento da Covid-19 e existe uma diferença significativa entre a antiga Alemanha Oriental e a antiga Alemanha Ocidental. A Alemanha Oriental é até três vezes menos afetada. E, novamente, há uma coincidência entre o uso massivo de BCG na antiga Alemanha de Leste, RDA e a Alemanha Federal que, nos anos noventa, deixou de a aplicar"

Os EUA nunca usaram de forma generalizada a vacina da BCG, contra a tuberculose. Mas a realidade apontada pela especialista búlgara chega bem mais perto: "O mesmo ocorre com a Espanha, severamente afetada, enquanto o vizinho Portugal vacina os seus filhos desde o nascimento até aos 12 anos de idade. E essa é a diferença".

Para a investigadora búlgara, há outra grande diferença que a impressionou: as estirpes de vacina usadas. "Búlgara, japonesa, brasileira e russa são todas muito semelhantes. Essas são estirpes do tipo antigo, estáveis ​​por décadas." Tudo países com relativa menor incidência da Covid-19. Segundo Despotova, a vacina da BCG, com um século, pode assim ajudar a prevenir e lidar com o novo coronavírus.

Vacinar sempre, independentemente da idade

"Grandes pesquisas populacionais podem começar imediatamente e eu vou dizer-lhe porquê", afirmou aos microfones da estação pública da Bulgária. "É muito fácil para cada paciente na Bulgária descobrir se foi vacinado. A Bulgária continua a ser o único país no mundo que apoia a imunização com um processo de revacinação".

Sim, admite que há movimentos antivacinas no país e na Europa mas declara que "isto é sobre milhões de pessoas". "Se a vacina BCG for comprovada como uma arma na luta contra o vírus, significa que ainda é necessário fazer essas vacinas, independentemente da idade das pessoas, e, seguindo o calendário de imunização, as pessoas devem ser vacinadas? Eu diria que sim."

Esses calendários são personalizados para cada país e devem ser aplicados para ter mais de 90% de cobertura nacional da população, para que possamos decidir se temos um teste para determinar se todos estão imunes ou não. Este seria um teste que um grande grupo de clínicos gerais facilitaria. Ou seja, ajustar a política de vacinas do país assim que a epidemia começar a desaparecer. Portanto, talvez uma vacina nos ajude novamente."

Investigação prossegue em várias frentes

Na Science, escreveu Jop de Vrieze a 23 de março, que investigadores "em quatro países em breve iniciarão um ensaio clínico de uma abordagem não ortodoxa para o novo coronavírus. Vão testar se uma vacina secular contra a tuberculose (TB), uma doença bacteriana, pode acelerar o sistema imunológico humano de uma maneira ampla, permitindo combater melhor o vírus que causa a doença de Covid-19 e, talvez, impedir a infeção". Os estudos, que começam na Holanda, serão realizados em médicos e enfermeiros, que "correm maior risco de serem infetados pela doença respiratória do que a população em geral, e em idosos, que correm maior risco de doença grave se forem infetados".

O artigo da prestigiada revista científica refere que as vacinas geralmente aumentam respostas imunes específicas a um patógeno direcionado, como anticorpos que se ligam e neutralizam um tipo de vírus, mas não outros. Mas a BCG também "pode aumentar a capacidade do sistema imunológico de combater outros patógenos que não a bactéria da TB, de acordo com estudos clínicos e observacionais publicados há várias décadas pelos investigadores dinamarqueses Peter Aaby e Christine Stabell Benn, que vivem e trabalham na Guiné-Bissau".A dupla, que dirige na capital guineense o projeto de saúde Bandim, concluiu que a vacina da BCG previne cerca de 30% das infeções por qualquer patógeno conhecido, incluindo vírus, no primeiro ano após ser ministrada.

Os estudos publicados neste campo foram criticados pela sua metodologia. Uma revisão de 2014 ordenada pela Organização Mundial da Saúde concluiu que a BCG parecia diminuir a mortalidade geral em crianças, mas classificou a confiança nos resultados como "muito baixa". No entanto, uma revisão de 2016 foi ligeiramente mais positiva sobre os possíveis benefícios da BCG, embora afirmando que outros estudos eram necessários.

Desde então, as evidências nesta linha científica fortaleceram-se e vários grupos fizeram importantes etapas investigando como a BCG pode impulsionar o sistema imunológico de um modo geral. O romeno Mihai Netea, especialista em doenças infecciosas do Centro Médico da Universidade Radboud, na Holanda, descobriu que a vacina pode desafiar o conhecimento dos manuais científicos sobre como funciona a imunidade.

Juntamente com Evangelos Giamarellos, da Universidade de Atenas, Netea montou uma investigação na Grécia para verificar se a BCG pode aumentar a resistência a infeções em pessoas idosas e planeia iniciar um estudo semelhante na Holanda, em breve, algo que estava planeado antes do aparecimento do novo coronavírus. Escreve a Science que "a pandemia pode revelar os amplos efeitos da BCG com mais clareza", citando Mihai Netea.

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