"As caras já não têm o mesmo aspeto." Máscaras dificultam (e até impedem) reconhecimento

Há diferenças culturais, mas, no Ocidente, o cérebro humano pode demorar a adaptar-se a descodificar rostos tapados. Os cientistas até acreditam que as crianças podem vir a sofrer no futuro por não se adaptarem a ver caras descobertas.

O uso de máscara já se tornou um hábito, mas o reconhecimento de pessoas tem sido dificultado pelo equipamento de proteção individual, mesmo para os peritos em análise de traços do rosto.

O jornal The New York Times cita Marlene Behrmann, uma neurocientista cognitiva da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, nos Estados Unidos da América, que realizou uma experiência involuntária nos últimos dias. Ao dirigir-se para fora das instalações do hospital onde trabalha, não reconheceu a pessoa que a esperava, já que usava máscara e cortara o cabelo, mesmo depois de décadas dedicadas à ciência do reconhecimento facial.

Alguns cientistas têm-se dedicado a estudar o que está na origem da dificuldade no reconhecimento facial em contexto de pandemia, com base na análise cerebral de pessoas que, antes mesmo das máscaras, já não conseguiam identificar com facilidade os rostos que as rodeiam.

Erez Freud, psicólogo do Centre for Vision Research, da Universidade Iorque, em Toronto, sistematiza, em declarações ao jornal norte-americano, que o reconhecimento facial é usado "em todos os aspetos da interação social" e que, dos rostos alheios, é possível captar "pistas sobre a personalidade, o género e as emoções de cada um", o que torna esse mecanismo "fundamental para a nossa perceção". Só que, de repente, "as caras não têm o mesmo aspeto", explica ainda.

Com a colaboração de outros coautores, Erez Freud resolveu iniciar um estudo para descobrir como as máscaras dificultam a capacidade de reconhecer as pessoas. Foram recrutados 500 adultos para completarem um desafio de memorização de traços do rosto. Os participantes viam várias faces desconhecidas e tinham de, posteriormente, reconhecê-las, mediante condições cada vez mais difíceis. Metade das pessoas testadas viram rostos tapados, no nariz e na boca, por máscaras cirúrgicas. Os resultados não foram surpreendentes: a pontuação dos participantes foi "substancialmente pior" na deteção de caras cobertas por máscaras.

As conclusões do investigador apontam que 13% dos participantes tiveram uma dificuldade comparável à dos indivíduos que têm prosopagnosia ["cegueira para feições" que afeta uma em cada 50 pessoas] ou de invisuais. Sem as máscaras, esse número é reduzido a 3,5%.

Também na Universidade de Stirling, na Escócia, foi publicado um estudo em junho, cuja análise à tarefa de fazer corresponder rostos cobertos a caras sem proteção individual, permitiu descobrir que as máscaras podem mesmo impossibilitar o reconhecimento. Os 138 adultos desafiados tiveram um fraco desempenho na identificação, mesmo no caso de caras conhecidas, ou seja, de celebridades.

A neurocientista Marlene Behrmann acredita que a pandemia tem provocado nas pessoas a sensação de cegueira causada pela prosopagnosia. Apesar de ser um processo "extremamente sofisticado", o reconhecimento de feições ocorre de forma instantânea, o que dificulta o estudo de como tudo se processa. A prosopagnosia é a condição que mais fornece pistas aos investigadores.

Uma das conclusões a que chegaram os cientistas, ao fundir traços de diferentes celebridades, foi de que a identificação acontece de forma holística. É feita de uma só vez, na observação da globalidade do rosto, pelo que, quando metade da face está coberta pela máscara, o processo é prejudicado.

No entanto, os investigadores não subestimam o protagonismo dos olhos, essenciais para o reconhecimento, mas também para a interpretação das emoções. "Grande parte da informação é oferecida pelo olhar, por isso ainda podemos descodificar alguns aspetos", defende Richard Cook, um psicólogo da Universidade de Londres, ouvido pelo New York Times.

Marlene Behrmann lembra que o ser humano também recorre a outros indícios, como a forma de andar ou falar ou o penteado. Análises a mulheres provenientes do Egito ou dos Emirados Árabes Unidos, onde a cultura vigente promove o uso de lenços a ocultar o cabelo, provaram que os residentes do Médio Oriente têm mais agilidade no reconhecimento facial do que participantes britânicos ou norte-americanos. É possível, por isso, que nalguns países asiáticos, os indivíduos não vejam a tarefa de identificação de pessoas com máscara tão intrincada quanto os que residem no Ocidente, admite a investigadora de ciência cognitiva Katsumi Watanabe, a trabalhar em Tóquio.

"Os caucasianos do Ocidente tendem a descodificar expressões faciais a partir da região da boca, e os asiáticos costumam utilizar a informação cedida pelo olhar", fundamenta a cientista. É um fator cultural: no Japão, por exemplo, a interação social poderá não assistir a alterações tão profundas, já que os países que rodeiam o território têm uma longa tradição de uso de equipamentos de proteção individual para evitar o contágio de doenças.

Os cientistas também acreditam que os mais jovens poderão sofrer efeitos negativos a longo prazo. Os bebés e as crianças nos primeiros anos de vida poderão não desenvolver com a mesma acuidade as competências que permitem a identificação de pessoas através da análise de feições. Por agora, são mesmo os adultos que estão a apresentar dificuldades, sobretudo os que antes já não eram tão ágeis no processo de reconhecimento.

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