Regressar a Marte para procurar sinais de vida passada e preparar a vida futura
Perseverance

Regressar a Marte para procurar sinais de vida passada e preparar a vida futura

Alheio a restrições de viagens e fecho de fronteiras, Marte recebeu nos últimos dias uma série de visitas. Depois de a sonda Amal, dos Emirados Árabes Unidos, e da chinesa Tianwen-1 terem chegado à órbita do planeta vermelho na semana passada, esta quinta-feira é a vez do rover norte-americano Perseverance ("Perseverança") fazer história.

Este veículo robótico não tripulado da NASA é maior (tem tamanho de um carro e uma tonelada de peso), mais veloz (desloca-se até 152 metros por hora) e muito mais sofisticado do que o seu antecessor Curiosity. A sua principal missão será recolher amostras de solo e rochas que serão posteriormente enviadas para o planeta Terra com o intuito de determinar se alguma vez existiu vida em Marte.

"Na Terra, a vida encontra sempre uma forma", mesmo nos locais mais inóspitos, mas "em Marte, até ao momento, não há provas de que possa existir vida", lembra em declarações à TSF a astrobióloga Joana Neto-Lima. O que existe, sim, são "os ingredientes essenciais" para a formação de vida "tal como a conhecemos" - carbono, hidrogénio, oxigénio, azoto, fósforo e enxofre e sinais de que no passado existiu água líquida em abundância.

Não é possível dizer se houve "tempo suficiente para vida aparecer e desenvolver-se, porque Marte é bastante especial... Enquanto a Terra tem um eixo ligeiramente estável, Marte é um bocadinho mais instável, está sempre a mudar de posição e não daria tempo suficiente à ocorrência de evolução".

Por outro lado, como também não há dados suficientes para dizer inequivocamente que nunca existiu vida em Marte, a esperança de encontrar vestígios de um qualquer organismo, nem que seja só "um micróbiozito marciano", mantém-se.

Joana Neto-Lima foi uma das muitas pessoas responsáveis pela calibração do Sherloc, um braço robótico com dois metros instalado no Perseverance, cuja função é detetar minerais, moléculas orgânicas ou outras bioassinaturas eventualmente presentes no solo.

Agora obrigada a regressar a Portugal porque a sua bolsa de investigação foi suspensa devido à pandemia, enquanto colaborou com o Centro de Astrobiologia de Madrid, afiliado da NASA em Espanha, a cientista portuguesa trabalhou durante meses na equipa responsável pela recolha e análise de amostras com objetivo de 'ensinar' o Sherloc a fazer um trabalho semelhante in loco.

Através de espetroscopia (o estudo da interação entre a radiação eletromagnética e a matéria), a equipa de Joana Neto-Lima usava diferentes feixes de luz para "retirar o ADN dos minerais" que servirá ao robô de "analogia" às amostras recolhidas em Marte, mais ou menos "como no CSI", compara a investigadora.

Esta espécie de treino para calibrar o Perseverance decorreu em locais análogos de Marte, isto é, locais na Terra com "bastantes parecenças" com o que podemos encontrar no planeta vizinho. É o caso da Islândia, do deserto do Atacama, no Chile, e do Rio Tinto em Huelva, Espanha, cujo nome tem origem na cor vermelha das águas, provocada pela grande concentração de ferro.

Pode ter sido semelhante a este o rio que no passado se podia encontrar na cratera Jezero, onde o Perseverance deverá pousar esta quinta-feira. Este antigo delta com 45 quilómetros de largura desperta a atenção da comunidade científica há anos por parecer um local lógico onde pode ter existido vida, mas o robô da NASA só pode arriscar lá chegar porque está equipado com uma nova tecnologia de navegação, o TRN (Terrain Relative Navigation).

Será como "ter olhos num mapa", explica a diretora do Programa de Missões de Demonstração Tecnológica da NASA, Trudy Kortes, numa videoconferência de antevisão da missão do Perseverance, via Zoom. O objetivo é "identificar os perigos já conhecidos" e "otimizar a aterragem", evitando penhascos, dunas e outros riscos que pudessem danificar o veículo.

Preparar a visita de humanos

Com as suas seis rodas e 19 câmaras, o Perseverance vai explorar a superfície de Marte durante 687 dias, o equivalente a um ano marciano, mas não só. "Esta é a primeira missão que vai à procura de sinais de habitabilidade", não só no passado do planeta, mas também para o futuro: "para uma possível ocupação humana, com botas no terreno", destaca Joana Lima-Neto.

O veículo leva consigo um instrumento que vai tentar produzir oxigénio a partir de dióxido de carbono da atmosfera de Marte, o sistema Moxie (Mars Oxygen In-Situ Resource Utilization Experiment) uma espécie de "árvore eletrónica em miniatura", nas palavras de Trudy Kortes, da NASA.

Trata-se de uma experiência em pequena escala, mas "fundamental", para testar "uma tecnologia que é bastante necessária para enviar equipas de astronautas a Marte, para não termos de ser nós a levar todo o material, que pesa e ocupa espaço", nota Joana Neto-Lima.

Um helicóptero em Marte

Igualmente aguardado pela comunidade científica é o voo do helicóptero Ingenuity ("Engenhosidade"), o primeiro do género noutro planeta. Com 1,21 metros de diâmetro e 1.8 kg, o Ingenuity pode subir até 10 metros de altitude. Está equipado com painéis solares, uma sonda e uma câmara, para que possa fotografar o solo marciano visto do céu, mas a sua principal função é testar a possibilidade de voar em Marte.

A gravidade no planeta é inferior à da Terra, o que pode ajudar, mas a atmosfera fina e o frio (com temperaturas que podem chegar aos -90ºC) serão as principais dificuldades deste helicóptero, aponta J. (Bob) Balaram, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA.

Se tudo correr como o esperado, "esta é uma tecnologia que vai inaugurar uma nova modalidade de exploração", destaca o gestor de projeto da NASA responsável pela missão do Perseverance Matt Wallace.

E para que possamos ouvir pela primeira vez sons reais de Marte, o Perseverance leva consigo um par de microfones que poderão gravar o vento, tempestades e qualquer outro ruído ambiente escutado à superfície do planeta, cumprindo finalmente o apelo que o famoso astrónomo Carl Sagan fez à NASA em 1996, após várias tentativas falhadas.

O resultado dos vários desafios da missão do Perseverance serão conhecidos nos próximos meses, mas o tesouro geológico - as rochas recolhidas no solo marciano - só deverão chegar ao planeta Terra no início de 2030, numa missão conjunta entre a NASA e a Agência Espacial Europeia. Será "uma das coisas mais difíceis já feitas pela humanidade e certamente na ciência espacial'', afirma o chefe da missão científica da NASA, Thomas Zurbuchen.

Um mês em cheio para Marte

Há uma explicação simples para que três sondas diferentes cheguem a Marte praticamente ao mesmo tempo: todas aproveitaram o momento em que o planeta está no ponto da sua órbita mais perto da Terra, o que só acontece a cada dois anos.

Tanto a nave dos EUA como as da China e dos Emirados Árabes Unidos foram lançadas em julho do ano passado, durante a janela de lançamento Terra-Marte, e percorreram cerca de 470 milhões de quilómetros ao longos dos últimos sete meses.

A sonda Amal ("Esperança", em árabe) ficará na órbita de Marte, onde chegou dia 9 de fevereiro, para monitorizar o clima do planeta ao longo de um ano marciano, medindo a temperatura e os níveis de ozono, oxigénio e hidrogénio da atmosfera marciana.

Já a chinesa Tianwen-1 ("Busca pela Verdade Celestial") vai permanecer em órbita até maio, altura em que um veículo não tripulado se vai desemparelhar da sonda e tentar pousar na planície Utopia, no hemisfério norte de Marte.

Tanto os Emirados como a China são recém-chegados a Marte, onde mais da metade dos emissários da Terra falharam. Melhor sorte tiveram sempre as missões da NASA, até agora bem-sucedida em oito das nove tentativas de chegar ao planeta. A última, antes desta missão, foi em novembro de 2018, com a sonda InSight, que instalou com sucesso um sismógrafo, o primeiro instrumento científico a ser colocado diretamente na superfície de Marte.

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