Problemas desde o início e momentos de pânico. As mensagens do piloto da Ethiopian Airlines

Fonte ligada às comunicações do aeroporto de Adis Abeba revelou parte das comunicações trocadas entre o avião da Ethiopian Airlines que se despenhou no último domingo e a torre de controlo.

O piloto do voo 302 da Ethiopian Airlines, que no último domingo se despenhou com 157 pessoas a bordo, reportou dificuldades desde o início do voo.

Apesar de ter tido treino prévio em aviões do novo modelo Boeing 737 MAX 8, minutos depois da descolagem o piloto Yared Getachew reportou problemas em controlar o avião e pediu para regressar a Adis Abeba.

Segundo o New York Times, que cita fonte ligada às comunicações do aeroporto e revela algumas das mensagens trocadas entre o piloto e um responsável pelo tráfego aéreo, a tensão sentida no cockpit era óbvia.

"Break break, peço autorização para regressar a casa", comunicou o piloto depois de evitar com dificuldades a colisão com dois aviões que se aproximavam do aeroporto. "Peço indicações para aterragem".

Não foram muitas as mensagens trocadas entre o avião da Ethiopian Airlines e a torre de controlo. As comunicações perderam-se cinco minutos depois da aeronave levantar voo.

Mas mesmo antes de o piloto reportar a emergência, quem estava a olhar para os radares conseguiu perceber de imediato que algo de muito errado se passada com o Boeing.

A velocidade era superior ao suposto, a altitude muito inferior aos mínimos de segurança durante uma descolagem, e o nariz do avião não parava de oscilar para cima e para baixo, tal como aconteceu ao Boeing 737 Max 8 ao serviço da Lion Air que despenhou em outubro com 189 pessoas a bordo.

O piloto Yared Getachew reportou os primeiros problemas com uma voz calma. O pânico só começou quando se cruzou com dois outros voos da Ethiopian Airlines, o 613 e o 629, que se aproximavam o aeroporto. O seu avião estava a voar mais baixo do que devia e os controladores aéreos tiveram de pedir aos dois outros voos para adiar a descida e manterem a altitude.

Autorizado a regressar ao aeroporto, o avião virou à direita e depois desapareceu dos radares.

As duas caixas negras do avião Boeing 737 MAX 8 da Ethiopian Airlines estão a ser analisadas em França. Só depois serão conhecidos em detalhe as gravações de voz do cockpit e os dados do voo.

No caso do avião da Lion Air, as caixas negras indicaram falhas no indicador de velocidade nos últimos quatro voos realizados pelo mesmo aparelho. Confrontados com valores "erráticos" dos indicadores de velocidade e de altitude, os pilotos lutaram contra problemas quase desde a descolagem.

Isto porque o novo sistema automático de estabilização, criado para corrigir a posição do nariz do avião - uma novidade do Boeing 737 Max -, estava a receber leituras incorretas do sensor e a tripulação não conseguiu desligá-lo. Em resultado, o nariz do avião foi forçado a baixar mais de uma dúzia de vezes no espaço de 11 minutos até que a perda de controlo foi total e o aparelho caiu no oceano, a mais de 700 quilómetros por hora.

Vários pilotos referem que nos antigos modelos os pilotos podiam reagir a esta emergência puxando um manípulo situado mesmo em frente a eles. No novo modelo essa medida não funciona e os pilotos do voo 610 da Lion Air puxaram diversas vezes a alavanca sem sucesso.

As coincidências entre os dois desastres são inevitáveis. Depois de a Agência Europeia de Segurança Aérea (EASA) ter proibido o modelo 737 Max 8 de operar no continente europeu, juntando-se a 20 países e 30 companhias aéreas de todo o mundo que suspenderam os voos com esses aparelhos, a Boeing anunciou esta quinta-feira a suspensão da entrega destas aeronaves.

"Suspendemos as entregas do 737 MAX até encontrarmos uma solução", disse um porta-voz da Boeing, acrescentando que a fabricante de aviões norte-americana mantém a produção do modelo.

"Estamos a avaliar as nossas capacidades e vamos ver onde é que os aviões que saem da linha de montagem vão ser armazenados", referiu.

Já se comprometeu, no entanto, a atualizar o software nos aviões 737 Max nos próximos 10 dias, uma medida preventiva que pode passar por alterações nos controlos de voo, ecrãs dos pilotos e ainda alterações nos manuais de operações.

Considerado um dos modelos mais avançados de sempre, com tecnologia de ponta no que diz respeito à sustentabilidade e eficiência, o Boeing 737 Max 8 começou a ser operado regularmente pelas companhias aéreas no final de 2017, depois de se estrear nos céus em 2016.

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