
Rui Oliveira/Global Imagens
O mundo pode vir a enfrentar uma escassez de lítio à medida que a procura do metal aumenta. O interesse é muito; da China ao Chile, dos EUA ao Brasil, passando pela Índia e pelo Afeganistão, sem esquecer a Europa e África.
Mais procura, menos oferta. Está nos livros. Alguns analistas preveem que a escassez de lítio possa ocorrer já em 2025. Outros, no entanto, preveem um prazo mais alargado para a crise motivada pelo aumento da procura face às reservas, até aqui, disponíveis. O lítio é um componente crucial nas baterias para veículos elétricos, cuja procura aumenta como parte importante dos planos de combate às alterações climáticas.
De qualquer modo, embora não fosse muito expectável que os preços do lítio se mantivessem ao nível de 80 000 dólares por tonelada registado em novembro último no mercado chinês, o colapso gradual dos preços deste mineral fundamental para a transição energética surpreendeu os analistas, segundo a plataforma de informação BNAméricas. O lítio estava a ser negociado a 23 mil dólares por tonelada em 28 de setembro, uma queda de mais de 70% em menos de um ano. A economia relativamente estagnada da China e a diminuição das vendas de veículos elétricos, no que também tudo isto tem de relacionável entre si, são apontados como causas para a diminuição dos preços.
O peso da China e da América Latina
A China lidera a produção de baterias para veículos elétricos, sendo responsável por mais da metade da capacidade global de processamento e refinação deste minério, o que lhe confere uma influência desproporcional sobre o preço. Mas a América Latina também desempenha um papel importante. A queda de preços é fundamentalmente explicada por um aumento da oferta impulsionado por uma maior produção de a partir de salmoura na China. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, "Chile, Austrália, Argentina e China detêm juntos cerca de 95% das reservas de lítio atualmente conhecidas no mundo. Depósitos de lítio do tipo salmoura são encontrados na Bolívia, Chile e Argentina, além de China e EUA. Por outro lado, depósitos de lítio em pegmatitos estão localizados na Austrália, Áustria, Brasil, Canadá, China, Congo, República Checa, Finlândia, Alemanha, Mali, Namíbia, Peru, Portugal, Sérvia, Espanha, EUA e Zimbábue."
Há também analistas que apontam para o início das operações do projeto de rocha Grota do Cirilo da Sigma Lithium no Brasil. Segundo o site noticioso Brasil Mineral, "a Sigma Lithium Resources Corporation iniciou os trabalhos de terraplanagem do projeto de lítio de rocha dura Grota do Cirilo em Minas Gerais". As expectativas de "mais produção, a curto e médio prazo, na Argentina, no Brasil e em África" também têm impacto, na análise do BNAméricas.
Alguns analistas, no entanto, entendem que os desenvolvimentos na China não são os principais fatores do colapso dos preços, ate porque a China se esta a "impor em todos os mercados mundiais de automóveis elétricos, mesmo na Europa. Além disso, sendo o principal fabricante de baterias do mundo, um preço mais baixo é conveniente para tornar a produção mais barata", segundo o presidente da consultoria ESK Market Intelligence, Jorge Alee, citado pelo BNAmericas.
Mais de metade do lítio do mundo, um metal utilizado em baterias para veículos elétricos, encontra-se na América Latina, no triângulo Chile (a 21 de abril, Gabriel Boric, o presidente do país que é o país com as maiores reservas mundiais, anunciou planos para criar uma empresa estatal de produção), Argentina e Bolívia, que concentra cerca de sessenta por cento das reservas conhecidas. Recentemente, delegações dos Estados Unidos e da União Europeia (esta, ao mais alto nível, com Ursula Von Der Leyen) deslocaram-se à região, em parte para assegurar recursos que serão necessários na transição energética e para diversificar o aprovisionamento estratégico europeu, afastando-se da China.
O ano passado, o Financial Review contava que "poucas pessoas estão melhor posicionadas para a revolução dos veículos elétricos do que o multimilionário Julio Ponce Lerou". Está reformado há anos, mas este ex-genro do falecido ditador Augusto Pinochet ainda é conhecido no Chile como "o rei do lítio". E Ponce nunca foi tão rico: o grupo de acionistas que ele lidera "viu a sua participação de 25% na SQM, a segunda maior mineradora de lítio do mundo, quintuplicar nos últimos sete anos", com lucros recordes, aumentando o valor da sua participação para cinco mil milhões de dólares americanos.
Entretanto, na terra do Tio Sam...
Morreu aos cem anos John Goodenough, glardoado o Prêmio Nobel de Química de 2019 pelo seu trabalho no desenvolvimento da bateria de íons de lítio que transformou a tecnologia com energia recarregável para dispositivos que vão desde telemóveis e computadores até carros elétricos. Sem ver o vasto "novo depósito de lítio numa cratera vulcânica ao longo da fronteira entreo Nevada e o Oregon", descoberta que aguarda confirmação final, mas tem pelo menos uma empresa, de acordo com o Washington Post, a dizer que espera começar a extrair esta fonte em 2026. No entanto, "os decisores políticos norte-americanos têm estado nervosos, tanto porque o lítio é escasso como porque os EUA não parecem ter grandes reservas próprias". As grandes reservas conhecidas não se encontram na América do Norte, mas sim no Chile, Bolívia, Argentina, China e Austrália. Se esta descoberta for validada, diz o diário da capital federal norte-americana, "o investimento dos EUA em veículos elétricos deixará de estar tão envolto em preocupações de segurança nacional".
Não chega para arrefecer a procura o facto de as baterias de iões de lítio, que se encontram em muitos produtos de consumo populares, estarem novamente sob escrutínio nos EUA, na sequência de um incêndio de grandes proporções ocorrido este ano, no Bronx, Nova Iorque, que se pensa ter sido causado pela bateria que alimentava uma trotinete elétrica. Em 2022, de acordo com a CNN, os bombeiros da cidade de Nova Iorque "responderam a mais de 200 incêndios de trotinetes e bicicletas elétricas, que resultaram em seis mortes".
A descoberta de quase seis milhões de toneladas torna a Índia o sétimo maior recurso de lítio do mundo. O Serviço Geológico da Índia (GSI) "estabeleceu pela primeira vez a disponibilidade de recursos inferidos de lítio de 5,9 milhões de toneladas na área Salal-Haimana de Reasi, no Território da Uniãode Jammu e Caxemira", informou em fevereiro o Times of India.
É também de salientar que a procura de lítio é muito vasta. Ocasionalmente, há notícias de reservas significativas de lítio no Afeganistão, e os Talibãs já estão a vender esses direitos minerais, sobretudo à China revela o Washington Post. No entanto, o Afeganistão não é exatamente o local mais favorável ao comércio e à exploração mineira, por razões óbvias. Mas o exemplo "ilustra o quão poderosa é a elasticidade da oferta".
Onde vale tudo... o lítio vale muito
Em setembro, a Sahara Reporters contou-nos que, em Kakanfu, no estado de Kwara, na Nigéria, centenas de mineiros ilegais sob efeito de drogas pesadas, com armas e explosivos escavavam no subsolo em busca de lítio em grande escala, sem qualquer supervisão e com poucas medidas de segurança. Aqui, os agentes de segurança e as autoridades locais aceitam subornos para fechar os olhos - e também para ajudar - a esta atividade ilegal, de acordo com fontes e provas encontradas pelo site The Informant 247. As mortes e os ferimentos são frequentes e as atividades mineiras expõem as comunidades locais a vários níveis de produtos químicos tóxicos e a uma grave degradação ambiental. As crianças abandonaram a escola para se juntarem à atividade. Esta investigação jornalística, dirigida pelo diretor do site, Salihu Ayatullahi , também "localizou e revelou um dos maiores compradores e patrocinadores do minério extraído ilegalmente: uma poderosa empresa de propriedade chinesa que, ao longo dos anos" tem sido acusada de evasão fiscal.
Europa quer reduzir dependência da China
A Europa corre o risco de se tornar tão dependente da China para baterias e células de combustível como dependia da Rússia para energia antes da invasão da Ucrânia por Moscovo, de acordo com um relatório da União Europeia, de acordo com o documento que foi base da cimeira de 5 de Outubro em Granada, Espanha, sobre a segurança económica e energética da Europa. O documento, preparado pela presidência espanhola da União Europeia, afirma que devido à natureza intermitente das fontes de energia renováveis, como a solar ou a eólica, a Europa necessitará de formas de armazenar energia para atingir o objetivo de emissões líquidas zero de dióxido de carbono até 2050. ERste objetivo pode fazer disparar a procura "por baterias de iões de lítio, células de combustível e eletrolisadores, que deverá multiplicar-se entre 10 e 30 vezes nos próximos anos", afirma o relatório.