Francisco Assis: "é fulcral condenar o comportamento" da administração Trump após operação na Venezuela

Francisco Assis
Foto: Rita Chantre/Global Imagens (arquivo)
O socialista condena a intervenção dos Estados Unidos e considera "ofensivas" as declarações de Donald Trump sobre María Corina Machado não ter condições para liderar a Venezuela. Em declarações à TSF, o eurodeputado defende que a União Europeia deve assumir uma posição de condenação firme
Francisco Assis considera que é "fulcral condenar o comportamento da administração norte-americana" após a operação dos Estados Unidos na Venezuela, que levou à detenção de Nicolás Maduro e da mulher, na madrugada de sábado (hora local). Em declarações à TSF, o eurodeputado socialista acredita "que este ato praticado à rebelia do direito internacional, contrariando a Carta das Nações Unidas, não contribui em nada para a resolução do problema venezuelano".
O antigo deputado da Assembleia da República não poupa nas críticas ao Presidente venezuelano, mas salienta que os Estados Unidos não podem sair ilesos aos olhos do mundo depois desta intervenção militar.
"Nós sabemos que o Governo em funções [de Nicolás Maduro] é ilegítimo, condenámos também vivamente, no passado recente, Nicolás Maduro e a forma como não acatou os resultados eleitorais - em que claramente perdeu as eleições -, temos consciência disso. Foram tomadas muitas resoluções, até no âmbito do Parlamento Europeu, no sentido de censurar o Governo ilegítimo da Venezuela, mas a verdade é que uma intervenção militar feita nestes termos e, sobretudo, a declaração posterior do Presidente dos Estados Unidos, em que afirmou que os EUA têm a vontade de governar, de administrar a Venezuela por um período de tempo indefinido e de entregar os recursos petrolíferos venezuelanos às grandes empresas petrolíferas norte-americanas, é algo que não pode deixar de suscitar a mais veemente condenação", defende.
Numa conferência de imprensa na Flórida, no sábado à tarde, Donald Trump defendeu que María Corina Machado não tem condições para governar a Venezuela. Para o presidente dos Estados Unidos, a líder da oposição venezuelana e Nobel da Paz não tem o respeito, nem o apoio venezuelano para governar o país. Francisco Assis considera que estas declarações revelam "que não há, da parte de Donald Trump, qualquer preocupação com a democratização da sociedade venezuelana".
"Não há nenhuma preocupação de ordem política. São interesses, sobretudo da natureza económica, que estão por trás desta decisão do Presidente dos Estados Unidos", diz.
Além disso, o eurodeputado argumenta que a afirmação de Trump é "absolutamente ofensiva". "María Corina Machado é uma heroína da resistência à ditadura de Maduro, recebeu recentemente o Prémio Nobel da Paz, já tinha sido Prémio Sakharov, é uma grande personalidade da vida da Venezuela", refere, acrescentanto que o que Donald Trump disse sobre a líder da oposição venezuelana "é um verdadeiro insulto não apenas a ela, mas a milhões de venezuelanos, curiosamente da oposição a Maduro".
"[Maria Corina Machado] é uma das grandes referências da luta pela democracia na Venezuela, independentemente de estarmos ou não de acordo com tudo o que ela diz e pensa, mas a verdade é que o é e foi alguém que corajosamente enfrentou este regime venezuelano nos últimos anos", frisa.
Para Francisco Assis, a demonstração mais clara de que o Presidente dos Estados Unidos está preocupado com a democratização da Venezuela seria "reconhecer a presidência de quem ganhou as eleições há pouco mais de um ano, Edmundo Gonzalez, e não há nenhum indício de que isso venha a suceder".
O socialista não esconde também que está preocupado com a situação.
"Há esta atitude da oposição americana, a forma como ela foi apresentada, o exibicionismo bélico que lhe esteve associado, primário, patético até, de alguma forma, tudo isso causa uma grande preocupação no mundo, projeta uma enorme insegurança na América do Sul, relança a ideia de que os Estados Unidos querem regressar ao tempo dos protetorados e querem olhar para a América Latina como uma espécie de quintal. Isso é muito preocupante, porque gera tensões, medo, ódios na América Latina e isso é algo que nós, europeus, não podemos acompanhar."
O eurodeputado acredita que a União Europeia "devia ter tido, e ainda vai a tempo de o ter, uma posição mais firme na condenação dos atos praticados pelos norte-americanos".
"Não é bom para a Europa que nós confundidos com esta administração americana, isso diminui fortemente a nossa capacidade de interlocução no mundo", sublinha.
