"Procura mundial está em queda." Costa Silva avisa que EUA "podem ganhar muito pouco" com petróleo venezuelano

António Costa Silva
Foto: TSF
Em declarações à TSF, o antigo ministro da Economia explica que a ação militar dos EUA na Venezuela "foi muito mal pensada do ponto de vista geopolítico" e acusa Donald Trump de "condicionar o funcionamento da economia mundial"
Apesar da vontade de Donald Trump em ficar com o petróleo da Venezuela, António Costa Silva, antigo ministro da Economia que tem uma longa carreira no setor petrolífero, acredita que os Estados Unidos "podem ganhar muito pouco" com o petróleo venezuelano. Em entrevista à TSF, Costa Silva sublinha que a ordem energética mundial está a mudar.
"[Os Estados Unidos] podem ganhar muito pouco [com o petróleo venezuelano]. Podem produzir muito, mas vão colocar onde se a procura está em queda? Ele [Trump], pelas suas ações e guerras tarifárias, condiciona muito o funcionamento da economia mundial, causa retração, degradação contínua no cenário macroeconómico no mundo. É insano", explica à TSF António Costa Silva.
Neste momento, a aposta é, segundo o antigo governante, na eletricidade e não no petróleo. "Há uma quebra do consumo de petróleo no mundo. O desempenho do mercado petrolífero em 2025 foi dos piores de sempre, houve uma queda de quase 20% dos preços do petróleo no ano passado", afirma, frisando que "o mercado petrolífero tem um desempenho muito mau, em termos dos preços, porque procura mundial está em queda".
O antigo ministro argumenta, por isso, que a ação militar dos EUA na Venezuela "foi muito mal pensada do ponto de vista geopolítico". "É muito negativo utilizar a capacidade desse exército [norte-americano] para ter ações que só se vão acrescentar à anarquia que existe no mundo", sublinha.
A culpa, reforça, é de Donald Trump: "Devido às suas guerras tarifárias, à degradação que conseguiu introduzir na visão macroeconómica global e ao facto de a eletrificação da economia vir retirar crescentemente o papel principal do petróleo."
Os EUA atacaram a Venezuela numa altura em que "existem quase quatro milhões de barris por dia de sobreprodução, ou seja, de produção que não se consegue colocar nos mercados porque a procura não é suficientemente dinâmica". Por isso, operações militares como a norte-americana "só vai agravar o problema".
"Acrescenta incerteza, os investimentos vão cair e vamos ver o que vão fazer as companhias americanas. Os Estados Unidos ainda não são um Estado autoritário, embora o Presidente Trump faça tudo para minar a democracia americana e introduzir esse autoritarismo, mas ele não ordena e as companhias obedecem", refere, lembrando o que se passou na grande reserva natural do Ártico.
"Ele [Trump] abriu-a, é um crime contra a humanidade, contra a ecologia, mas as companhias petrolíferas foram muito mais responsáveis do que ele. O concurso ficou deserto, ninguém concorreu depois de ele fazer uma guerra para abrir a reserva natural do Ártico e convidar as companhias americanas a participar. As companhias fazem as suas contas, medem os seus riscos", diz.
Para Costa Silva, nesta altura, "a indústria não convida a grandes e grandes investimentos" devido ao "excesso de produção no mundo" e esse é "outro fator que pressiona os preços em baixa".
O Governo venezuelano denunciou a "gravíssima agressão militar" dos Estados Unidos e decretou o estado de exceção, enquanto o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou que irá governar o país até se concluir uma transição de poder.
Trump admitiu uma segunda ofensiva contra o país se for necessário.
O Presidente venezuelano foi transportado para Nova Iorque, onde deverá comparecer, nos próximos dias, num tribunal federal para responder a acusações de narcoterrorismo, segundo as agências internacionais.
Maduro passou a primeira noite detido no Metropolitan Detention Center, uma prisão federal de Brooklyn, em Nova Iorque, onde enfrenta acusações de alegado envolvimento em tráfico de droga e corrupção, enquanto a sua vice-presidente, Delcy Rodríguez, recebeu uma ordem do Supremo Tribunal venezuelano para assumir a presidência interina do país.
