Costa Silva critica Rangel por "quase legitimar" ação dos EUA na Venezuela, alerta que Brasil "está em risco" e ataca UE e ONU

António Costa Silva
Foto: Gerardo Santos (arquivo)
Em declarações à TSF, o antigo ministro da Economia refere que "não custa nada, não só em Portugal, mas na Europa, condenar estes atos como sendo inaceitáveis à luz da ordem internacional"
Após a ação miltar dos EUA na Venezuela, António Costa Silva, antigo ministro da Economia, alerta que o comportamento de Donald Trump coloca "em risco" vários países. Em entrevista à TSF, o ex-governante critica a União Europeia, as Nações Unidas e a forma como o Governo português reagiu aos ataques.
"O Governo português tentou reagir de forma cautelosa porque temos uma grande comunidade na Venezuela e o ministro Paulo Rangel teve bem na sua reação cautelosa. Já não me pareceu tão bem quando ele tentou quase legitimar a intervenção dos Estados Unidos. Não custa nada, não só em Portugal, mas na Europa, condenar estes atos como sendo inaceitáveis à luz da ordem internacional que vigorava até aqui. Porque se nós permitirmos que estes atos se multipliquem, amanhã a China vai ocupar Taiwan, a Rússia pode fazer uma operação para a captura do presidente da Ucrânia e julgá-lo em Moscovo", explica à TSF Costa Silva.
O antigo ministro alerta para o perigo de "converter o funcionamento da ordem internacional numa espécie de faroeste total", falando no "regresso do mundo hobbesiano".
"Quando não há autoridade, não há regras, não há princípios. O que se passa é a guerra de todos contra todos, é o regresso à selvajaria completa. É isso que o Presidente Trump está a proporcionar. Ele é hoje o principal ajudante da China e da Rússia, que são as grandes potências revisionistas da ordem internacional. Agora, junta-se a eles aquela potência que desenhou e ajudou a sustentar, com as outras democracias liberais, a ordem internacional até aqui. O que nos espera é o caos, é a anarquia, é as intervenções completamente desreguladas, é o colapso de todos os valores e da decência no funcionamento internacional."
"Todo o hemisfério ocidental está em risco." Costa Silva faz alerta sobre Brasil
Para Costa Silva, neste momento, "todo o hemisfério ocidental está em risco".
"O Brasil está em risco, a Gronelândia está em risco, o Canadá está em risco. O Brasil está num profundo risco e o risco chama-se terras raras", afirma, lembrando que Trump "já tentou interferir na política interna do Brasil através do apoio claro a Bolsonaro".
"Agora, como vai haver eleições, deve apoioar provavelmente o filho de Bolsonaro, que vai concorrer. A minha análise é uma análise fria, baseia-se nos números. O Brasil tem as segundas maiores reservas do mundo. Toda a América Latina, nesta altura, está em grande contenção", refere.
O antigo ministro espera para ver "como vai ser feita a transição de poder na Venezuela", argumentando que, "quando os Estados Unidos querem mudar regimes e reconstruir países, corre sempre muito mal", dando o exemplo de Bill Clinton, na Somália, e do Presidente Bush, no Iraque.
"Arriscamos a ter uma grande instabilidade na América Latina com este tipo de intervenções, mas isso não vai demover o Presidente americano da sua agenda imperialista e expansionista", considera.
Costa Silva ataca União Europeia e Nações Unidas
Para Costa Silva, a operação dos EUA na Venezuela mostra que Donald Trump está a desmantelar a ordem internacional e a comportar-se como um senhor feudal. Por isso, critica a União Europeia e as Nações Unidas por aquilo que não estão a fazer.
"As Nações Unidas são irrelevantes. A declaração do secretário-geral das Nações Unidas é uma declaração convencional, mas as Nações Unidas são absolutamente irrelevantes nesta altura, não conseguem ter nenhum peso. O Presidente Trump pura e simplesmente deixou de contribuir para muitos dos organismos das Nações Unidas e conduziu ao colapso de muitos deles. A Organização Mundial do Comércio não funciona com a guerra tarifária e as Nações Unidas estão completamente afastadas de tudo aquilo que são as decisões", atira.
O ex-governante argumenta, por isso, que a União Europeia deveria formar um comité com as "grandes democracias mundiais que ainda sobram". "Ter um grupo de contacto e de trabalho e reunir com o Canadá, com o México, com o Brasil, com a África do Sul, com a Índia, com a Coreia do Sul, com o Japão, com a Austrália, com a Nova Zelândia é fulcral, porque são estes países que têm de defender não só o comércio mundial, reforçar as suas relações, mas, simultaneamente, defender os princípios que nortearam a ordem internacional".
Para Costa Silva, "há uma mudança da ordem internacional anterior, que laboriosamente foi construída, inclusive propulsionada pelos Estados Unidos". E recorre ao sociológo alemão Max Weber para dizer que "quando há um Estado de nação, o Estado tem o monopólio legítimo da violência".
"Não temos isso na ordem internacional e é por isso que a ordem internacional é intrinsecamente anárquica. Ela foi domesticada com estas instituições, em todas as Nações Unidas e com mecanismos e regras mínimas para possibilitar a convivência internacional. Isso hoje está tudo em destruição. Vale a pena ainda defender-se com base numa articulação destas democracias", diz.
