
Paulo Spranger/Global Imagens (arquivo)
O alerta é da organização Repórteres Sem Fronteiras, que explica como os desafios económicos, tecnológicos e geopolíticos se fazem sentir um pouco por toda a Europa
Os meios de comunicação públicos na Europa enfrentam uma série de novas ameaças, incluindo o escrutínio de uma extrema-direita ressurgente, cortes orçamentais e uma concorrência feroz num cenário mediático em transformação.
Segundo os analistas, na Lituânia, em Itália e dentro de alguns países europeus tradicionais como a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha, os meios de comunicação social financiados com recursos públicos enfrentam crises sem precedentes. Os desafios são tanto económicos, tecnológicos - devido à concorrência das plataformas digitais - como geopolíticos, alertou a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) num relatório de julho de 2025.
Por exemplo, em França, os pilares da radiodifusão pública, a France Télévisions e a Radio France, têm sido alvo, desde o final de novembro, de membros de direita de uma comissão parlamentar de inquérito, que os acusam de uma viragem à esquerda utilizando dinheiro dos contribuintes.
Na Grã-Bretanha, a conceituada BBC pediu desculpa e o seu diretor-geral demitiu-se após uma tempestade que se instalou quando veio a público, no ano passado, que um dos seus programas tinha editado excertos do discurso do presidente dos EUA, Donald Trump, a 6 de janeiro de 2021, de forma enganadora.
Na Alemanha, o partido de extrema-direita AfD, atualmente o principal partido da oposição, prometeu eliminar a taxa de licenciamento que financia os meios de comunicação públicos no país e reestruturar o setor caso chegue ao poder.
"Na Europa, não estamos na mesma situação" que os Estados Unidos, onde Trump cortou o financiamento dos media públicos desde que regressou ao poder em janeiro de 2025, disse Rasmus Kleis Nielsen, professor da Universidade de Copenhaga especializado em media.
Mas "algumas das dinâmicas são as mesmas", afirmou.
A comunicação social pública enfrenta há muito tempo críticas de editoras privadas (que defendem que não é necessária num mercado de media robusto), da extrema-esquerda (que a considera pró-governo) e da direita defensora do mercado livre (que deseja o seu fim, bem como o de outras empresas estatais), disse Nielsen.
Hoje, a extrema-direita também entrou na discussão, afirmando que "a comunicação social de serviço público não é suficientemente nacionalista" e "é muito tolerante com a diversidade de culturas e perspetivas nacionais", criticando-a essencialmente por "ser meio 'woke' e politicamente correta", disse.
A pressão sobre os meios de comunicação públicos na Europa "começou há mais de 10 anos na Hungria, com os meios de comunicação públicos que são agora considerados meios de comunicação estatais. Este 'modelo' foi exportado para outros países da União Europeia", disse Laure Chauvel, diretora do escritório da RSF em França e Itália.
Na Lituânia, cerca de dez mil pessoas saíram às ruas de Vilnius no início de dezembro para protestar contra o congelamento do orçamento da emissora pública (LRT) para os anos de 2026 a 2028 e contra outra reforma que visa facilitar a destituição do diretor-geral da instituição, proposta pelo partido populista Aurora do Neman.
Na Eslováquia, a estação pública STVR sofreu uma grande reformulação desde o regresso ao poder, em 2023, do primeiro-ministro nacionalista Robert Fico e hoje "assemelha-se cada vez mais a um porta-voz do governo", alertou o gabinete local da Transparência Internacional em novembro.
Em Itália, as organizações de defesa da liberdade de imprensa denunciam também a crescente politização da RAI desde que Giorgia Meloni chegou ao poder, em outubro de 2022, à frente de uma coligação ultraconservadora.
Grande parte da pressão é financeira. A maioria dos meios de comunicação públicos foi fundada há décadas, quando o mercado dos media era composto por um pequeno número de organizações consolidadas.
A internet, os avanços tecnológicos e as redes sociais transformaram este modelo, e hoje as pessoas obtêm as suas notícias de diversas fontes, incluindo notícias online, podcasts, newsletters e publicações virais.
Alguns questionam se o dinheiro público deve continuar a ser alocado aos media num mercado como este.
De acordo com dados da União Europeia de Radiodifusão (UER), o financiamento total para os meios de comunicação de serviço público nos 27 Estados-membros da UE diminuiu 7,4% na última década, ajustado à inflação, atingindo os 29,17 mil milhões de euros em 2024.
Por exemplo, na Suíça, a SSR, que transmite nas quatro línguas oficiais do país, vai cortar 900 postos de trabalho aos seus 7130 colaboradores até 2029.
Um plano que envolve o encerramento de estações de rádio e a fusão de canais de televisão foi também lançado na Alemanha.
Alguns defendem que os meios de comunicação públicos são mais necessários do que nunca no mundo atual, dominado pelas redes sociais e onde a desinformação é galopante.
"Os meios de comunicação de serviço público continuam a ser um pilar das sociedades democráticas, fornecendo conteúdos fiáveis, independentes e universalmente acessíveis", afirmou Richard Burnley, diretor de Assuntos Jurídicos e Políticas da EBU.
"Atualmente, um pequeno grupo de grandes empresas tecnológicas exerce uma influência desproporcional sobre a informação e a opinião pública, prejudicando a capacidade do público de aceder e interagir com os meios de comunicação europeus."
