
Gerardp Vieyra/Nurphoto via AFP
No 75.º aniversário da ACNUR, a diretora nacional destaca a força de milhões de refugiados e conta a história de uma mãe que fugiu da Síria. Num mundo com mais de 117 milhões de deslocados e menos recursos humanitários, Soraya Ventura considera que a agência vai continuar com "muito trabalho"
"Resiliência" é a palavra escolhida pela diretora-geral da Fundação Portugal com ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), quando questionada sobre o que mais a surpreendeu nos últimos 75 anos. A agência, que celebra sete décadas e meia de existência, divulgou, em novembro, que existem 117,3 milhões de pessoas deslocadas à força em todo o mundo.
À TSF, Soraya Ventura diz que a resiliência destas pessoas não deixa de a surpreender e partilha a história de uma mãe, com cinco filhos, que teve de fugir de Alepo, na Síria, para a Jordânia.
"[Ela] tinha uma vida como nós: o marido dela tinha uma pequena empresa de sapatos femininos e, quando explodiu ali a guerra e caiu a bomba na casa dela - a segunda, terceira bomba, caindo ao lado do bebé, que estava dormindo, e ela teve de pegar nele sem saber se estava vivo ou morto -, teve de deixar tudo para trás", recorda.
Doze anos depois desta fuga, a mãe continua a ser apoiada pela ACNUR, mas não é por isso que o seu percurso tem sido mais fácil. "Por conta de todas essas crises, inclusive a do [corte do] financiamento [à ajuda humanitária] desse ano, essa pessoa não consegue nem mesmo pagar a renda com a tranquilidade que deveria ter. A resiliência dessa pessoa seguir, 12 anos depois, com os filhos dela, continuar, sempre me impressiona", sublinha Soraya Ventura.
Já sobre a forma como olha para os 75 anos que se seguem, a diretora da Portugal com ACNUR reconhece que o trabalho da agência pode estar longe de terminar. "Levando em consideração que, no contexto global, em dez anos, tivemos o dobro de deslocamentos de pessoas, e agora já temos mais de 117 milhões de pessoas deslocadas no mundo, levando em consideração que todos os anos mais de 330 mil bebés nascem como refugiados, o prognóstico não é bom. Eu acho que o ACNUR vai seguir tendo muito trabalho", afirma.
Soraya Ventura adianta que, mesmo com o orçamento mais apertado, devido aos cortes nos financiamentos à ajuda humanitária, a agência vai continuar dedicada a ajudar pessoas refugiadas em todo o mundo.
