"Uma loucura." EUA tentam "subordinar" Europa, que pode ser forçada a implementar bazuca comercial

Discursando de óculos escuros, devido a um pequeno problema ocular, Macron exortou ainda os outros Estados-membros da UE a não hesitarem em aplicar o instrumento anticoerção
Créditos: Fabrice Coffrini/AFP
Emmanuel Macron entende que, no atual contexto internacional, "não faz sentido haver tarifas" comerciais entre Estados Unidos e Europa. Ainda assim, lembra que o velho continente tem "ferramentas muito poderosas" que devem ser utilizadas quando "as regras do jogo não são respeitadas"
O Presidente francês, Emmanuel Macron, denunciou esta terça-feira a intenção dos Estados Unidos da Américam "subordinarem a Europa" e criticou as tarifas "inaceitáveis" aos países que se opõem aos planos de Donald Trump para anexar a Gronelândia.
Num discurso no Fórum Económico de Davos, Macron defendeu que os EUA têm procurado impôr-se como "concorrência" através de acordos comerciais "que prejudicam os interesses de exportação" dos europeus, exigindo "concessões máximas". O objetivo final, sublinhou, é "enfraquecer e subordinar a Europa".
Estes acordos foram "combinados com uma acumulação interminável de novas tarifas que são fundamentalmente inaceitáveis - ainda mais quando são utilizadas como forma de pressão contra a soberania territorial", declarou.
O chefe de Estado francês reiterou, assim, a possibilidade de recorrer ao mecanismo "anti-coerção" da União Europeia, considerado uma "bazuca" em caso de guerra comercial, perante "uma agressão inútil".
"Podemos ser colocados numa posição em que teremos de usar o instrumento anticoerção contra os Estados Unidos. Isto é uma loucura. É o resultado da imprevisibilidade e da agressão inútil", atirou.
Discursando de óculos escuros, devido a um pequeno problema ocular, Macron exortou ainda os outros Estados-membros da UE a não hesitarem em aplicar o instrumento anticoerção, também designado como bazuca comercial, um mecanismo aprovado em 2023 para proteger o bloco de pressões económicas de países terceiros.
Inicialmente pensado tendo em vista a China, aquele instrumento nunca foi utilizado até ao momento e permite restringir as atividades de empresas norte-americanas na UE.
"A Europa tem ferramentas muito poderosas e devemos utilizá-las quando não somos respeitados e quando as regras do jogo não são respeitadas", afirmou o chefe de Estado de França, um dos países europeus aos quais o Presidente norte-americano ameaça impor tarifas suplementares, devido à oposição à aspiração de Donald Trump de assumir o controlo da Gronelândia.
O Presidente francês defendeu mesmo que, no atual contexto internacional, designadamente a agressão militar russa na Ucrânia, "não faz sentido haver tarifas" comerciais entre Estados Unidos e Europa, que provocam divisão, e ainda menos sentido faz Washington "ameaçar com tarifas adicionais".
Durante a intervenção em Davos, e sem se referir expressamente a Donald Trump, o Presidente francês disse ainda preferir "o respeito em vez da violência" e "o Estado de direito em vez da brutalidade".
Esta edição do Fórum de Davos está a ser marcada pela ameaça dos Estados Unidos de se apropriarem da Gronelândia, território dinamarquês sob a égide da NATO, argumentando que a segurança e a vigilância da ilha ártica foram negligenciadas nos últimos anos e que o controlo desta podia cair nas mãos da China ou da Rússia.
A par da ameaça norte-americana sobre a Gronelândia, a imposição de tarifas adicionais, como anunciado por Trump, a vários países aliados que se opõem àquela ambição norte-americana está também a marcar a reunião.
No sábado, Trump anunciou uma taxa de importação de 10%, a partir de fevereiro, sobre os produtos de oito nações europeias que se uniram em torno da Dinamarca, incluindo França, Reino Unido e Alemanha, que seriam aumentadas para 25% a partir de 1 de junho até que se chegue a um acordo para o controlo total da Gronelândia.
O Presidente dos Estados Unidos, que regressa presencialmente a Davos seis anos depois, durante o primeiro mandato na Casa Branca (2017-2021), tem a intervenção agendada para quarta-feira, naquele que é inevitavelmente o momento mais aguardado do Fórum.
Na intervenção esta manhã (hora local), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reiterou que a imposição de taxas adicionais pelos Estados Unidos a países europeus devido à Gronelândia "é um erro" e garantiu que a resposta da UE será "firme, unida e proporcional".