"Crise não pode ser resolvida colocando barreiras entre nós"

A presidente da Comissão Europeia apareceu esta manhã de luvas cirúrgicas na sessão plenária sobre a Covid-19.

Ursula von der Leyen fez duras criticas aos Estados-Membros que avançaram com o encerramento de fronteiras. A presidente da Comissão Europeia alerta para a importância da livre circulação nas fronteiras e critica a ação de alguns Estados, que impede o acesso de médicos a materiais urgentes.

"Eles precisam desse equipamento - o equipamento adequado -, nas quantidades necessárias. E precisam dele agora mesmo. Mas, em vez disso, o que vimos é equipamento crucial bloqueado em engarrafamentos, ou em alfândegas durante dias", afirmou a presidente da Comissão, que defende que a Europa tem de agir em conjunto.

"Uma resposta europeia bem-sucedida só poderá ser coordenada se o nosso mercado único e o nosso espaço Schengen funcionarem como deve ser. Uma crise sem fronteiras não pode ser resolvida colocando barreiras entre nós", defendeu Von der Leyen, lamentando que esse tenha sido "o primeiro reflexo que muitos países europeus tiveram".

É também por essa razão que avisa que "não há um único Estado-Membro que consiga suprir as próprias necessidades de equipamento médico vital". "A livre circulação existe como o nosso único e mais forte ativo para assegurar que o abastecimento é dirigido para onde é mais necessário."

Vários líderes pedem medidas a Bruxelas para o dia seguinte à crise da Covid-19, como um plano de recuperação para a Europa, ou uma proposta para a emissão de dívida conjunta. Mas, a poucas horas de uma cimeira de crise, Von der Leyen não se alongou em propostas.

Esta quarta-feira, o primeiro-ministro português, António Costa, escreveu uma carta conjunta, com outros oito chefes de Estado ou de Governo - entre os quais estão o Presidente Francês, Emmanuel Macron, e o líder do executivo espanhol, Pedro Sanchez -, a apelar à UE para coordenar a resposta à crise do novo coronavírus.

Nessa carta, alertaram para a "gravidade da situação e a necessidade de mais ações para reforçar as economias", nomeadamente através da instrumento de emissão de dívida conjunta, para contribuir para uma "rápida recuperação" da economia.

"Em particular, precisamos de trabalhar num instrumento de dívida comum emitido por uma instituição europeia, para captar recursos no mercado na mesma base e para os benefícios de todos os Estados-Membros, garantindo assim um financiamento estável a longo prazo para as políticas necessárias para combater os danos causados por esta pandemia", lê-se na carta.

Além disto, numa fase em que o Orçamento de Longo Prazo da UE se encontra num impasse, agora agravado pelo novo coronavírus, os líderes consideram que "o espírito de eficiência e solidariedade" deve ser utilizado para "explorar outras ferramentas, como um financiamento específico para despesas relacionadas com o coronavírus no orçamento da UE, pelo menos para os anos 2020 e 2021, além dos anúncios que já foram feitos".

Recorde-se que, há menos de duas semanas, a presidente da Comissão Europeia prometeu, para compensar os setores na primeira linha do combate ao coronavírus, disponibilizar uma verba que ascende aos 37 mil milhões de euros (destinado, principalmente, à Saúde e às Pequenas e Médias Empresas).

Já esta semana, Mário Centeno prometeu não fechar a porta à mutualização de dívida europeia, garantindo que "todas as possibilidades" serão exploradas para travar a crise do coronavírus.

"A posição que adotámos no Eurogrupo é a de que precisamos de continuar a trabalhar, e nenhuma eventual solução foi colocada de parte até ao dia de hoje", disse no final da reunião realizada esta semana.

Centeno considera que a crise económica provocada pelo novo coronavírus não tem comparação com qualquer outra. E, por essa razão, garante que o Eurogrupo fará o que for preciso para minimizar o contágio, dando a entender que a ideia dos "coronabonds" desta vez não vai desvanecer-se.

"Os desafios que as nossas economias estão a enfrentar hoje não são em nada semelhantes aos das crises anteriores. Trata-se de um choque simétrico e externo. As considerações morais não se verificam, neste caso. Teremos de ter isto em mente, quando consideramos os instrumentos para a [crise do] coronavírus", defendeu Centeno, com uma promessa.

Por sua vez, o comissário Paulo Gentiloni afirmou mesmo que a emissão de dívida europeia é um tema que faz parte da discussão. Mas que precisa de ser mais debatido.

"Temos inúmeros instrumentos em cima da mesa. E os "coronabonds" são uma das ferramentas que podemos colocar na mesa. Temos de avançar com as nossas discussões e temos de construir um consenso", disse o comissário.

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