Investigação "Pegasus" vence primeira edição de prémio europeu de jornalismo

A investigação revelou que os telefones de 14 chefes de Estado e Governo e centenas de funcionários de governos de todo o mundo poderão ter sido espiados pelo 'software' Pegasus, comercializado pela empresa israelita NSO Group.

O Parlamento Europeu decidiu atribuir à investigação do consórcio Forbidden Stories o prémio Daphne Caruana Galizia, na sua primeira edição. O prémio, anunciado esta manhã em Bruxelas, dois dias antes do aniversário da morte da jornalista maltesa, foi concebido para premiar "um jornalismo de excelência que reflita os valores da União Europeia (UE)" e tem o valor de 20 mil euros.

David Sassoli, presidente do Parlamento Europeu, a intervir a partir de Itália por se encontrar em convalescença, começou por cumprimentar a família de Caruana Galizia presente em Bruxelas e recordou "o terrível assassínio" de uma "combatente pela democracia e liberdade", tendo lembrado igualmente os nomes de outros jornalistas assassinados no último ano, bem como a atribuição do Nobel 2021 à liberdade de informação nas pessoas de Maria Ressa e Dimitri Muratov: "uma decisão que chegou num momento justo".

O júri, composto por jornalistas de todos os países da UE, e que inclui a portuguesa Patrícia Fonseca (Médiotejo, ex-jornalista da Visão), debruçou-se sobre mais de 200 trabalhos concorrentes, tendo chegado a uma lista de 15 finalistas, "trabalhos de muita qualidade", conforme confirmou à TSF Luís Menendez, jornalista galego e membro da direção da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ).

A investigação jornalística do consórcio Forbidden Stories, sobre o sistema de spyware Pegasus, revelou que os telefones de 14 chefes de Estado e Governo e centenas de funcionários de governos de todo o mundo poderão ter sido espiados pelo 'software' Pegasus, comercializado pela empresa israelita NSO Group.

A lista incluía o rei de Marrocos, Mohammed VI, o Presidente francês, Emmanuel Macron, o Presidente iraquiano, Barham Salih, o Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, e o primeiro-ministro egípcio, além do primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, o marroquino Saad-Eddine El Othmani, o libanês Saad Hariri, o primeiro-ministro do Uganda Ruhakana Rugunda, e o belga Charles Michel, atual presidente do Conselho Europeu.

A lista continha números de telefone de mais de 600 funcionários de Governos e políticos de 34 países.

"A revelação sem precedentes de que os telefones de pelo menos 14 chefes de Estado terão sido pirateados usando o 'software' Pegasus do NSO Group deve causar um arrepio na espinha dos líderes mundiais", comentou, na altura da revelação, a secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnes Callamard.

"Há muito tempo sabemos que ativistas e jornalistas são alvos desse tipo de pirataria nos telefones, mas está claro que mesmo aqueles nos níveis mais altos de poder não podem escapar à propagação sinistra do 'spyware' do NSO", disse.

O Prémio Daphne Caruana Galizia pretende reconhecer o papel essencial dos jornalistas na "preservação das nossas democracias e servirá para recordar aos cidadãos a importância de uma imprensa livre. Este prémio destina-se a ajudar os jornalistas no trabalho vital e muitas vezes perigoso que realizam e a mostrar que o Parlamento Europeu apoia os jornalistas de investigação", frisou, na altura da divulgação pública do prémio, a vice-presidente do Parlamento Europeu (PE), Heidi Hautala.

Quem era Daphne Caruana Galizia?

Daphne Caruana Galizia era uma jornalista, blogger e ativista anticorrupção maltesa cujo trabalho jornalístico se centrava na corrupção, lavagem de dinheiro, crime organizado, venda de cidadania e nas ligações do governo maltês aos Panama Papers. Depois de alguns episódios de assédio e ameaças, foi assassinada numa explosão de carro-bomba, a 16 de outubro de 2017.

Os protestos relativos à gestão da investigação do seu homicídio pelas autoridades acabaram por levar à demissão do primeiro-ministro maltês Joseph Muscat. Em dezembro de 2019, os eurodeputados apelaram à Comissão Europeia para que tomasse medidas em relação às falhas verificadas na investigação do homicídio.

Num relatório publicado a 28 de abril de 2021, a "Plataforma do Conselho da Europa para promover a Proteção do Jornalismo e a Segurança dos Jornalistas" contabilizou 201 violações graves da liberdade de imprensa em 2020. Esse número representa um aumento de 40% em relação a 2019 e é o maior registado desde que a plataforma foi criada, em 2014. Um número recorde de alertas incidiu sobre agressão física (52 casos) e assédio ou intimidação (70 casos).

A investigação ao Pegasus

A investigação sobre o Pegasus resulta de uma colaboração inovadora de mais de 80 jornalistas de 17 organizações dos meios de comunicação em 10 países coordenada pelo Forbidden Stories, um meio de comunicação sem fins lucrativos com sede em Paris, com apoio técnico da Amnistia Internacional, que conduziu testes forenses de ponta em telemóveis para identificar rastros do 'software'.

A NSO negou que Macron e Mohammed VI alguma vez tenham aparecido numa lista de alvos para clientes.

A empresa insistiu que o seu 'software' se destinava apenas ao uso contra terroristas e criminosos graves e reiterou que iria "investigar todas as alegações de uso indevido" e "tomar medidas enérgicas" sempre que tais alegações se revelassem corretas.

O legado de Daphne Caruana

Matthew Caruana Galizia, filho da jornalista assassinada, depois de trabalhar durante três anos como jornalista num jornal de São José na Costa Rica, regressou a casa e, com a família, gere em Malta a fundação com o nome da mãe que tem por missão continuar o legado da jornalista, isto é, o constante escrutínio dos poderes, porque é algo que "é importante continuar a fazer todos os dias", como afirmou à TSF, esta quarta-feira à noite.

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