Jean Moulin passou por Lisboa, "um bom ninho de espiões". Agora uma homenagem celebra esta passagem

Quatro apaixonados pela figura heroica da Resistência Francesa inauguram a "Quinzena Jean Moulin", com filmes, exposições, um debate e um livro. Na Manhã TSF, entrevistado pelo jornalista Fernando Alves, o escritor e editor João Paulo Cotrim conta tudo sobre este "fascínio".

Fazia caricaturas de professores, e, entre outras ousadias, elaborava jornais satíricos desde cedo. Desenhava "guerras a brincar antes de perceber que a guerra não era brincadeira". Na infância de Jean Moulin, os mortos levantavam-se por obra da criação. Mais tarde, deixou de ser assim. A aguarela diluiu-se na sua vida, mas também a bruma da guerra. "Ele desenhava ininterruptamente. O único testemunho que nós temos é de Jorge Reis, um escritor neorrealista que, ao que parece, se cruzou com ele em duas circunstâncias diferentes. Uma na Barateira, a comprar um livro francês."

É assim que o editor da editora Abismo e escritor João Paulo Cotrim evoca a figura heroica da Resistência francesa que passou por Lisboa, há 80 anos. O programa da "Quinzena Jean Moulin" inclui diversas iniciativas, entre as quais uma exposição biográfica que abre nesta tarde, na Casa da Imprensa. Na Manhã TSF, entrevistado pelo jornalista Fernando Alves, João Paulo Cotrim explicou que esta exposição mostra também precisamente esses dias de Jean Moulin em Lisboa. "Esteve por cá cinco semanas, mas acabou por ser um período simbólico. Ele passou aqui a caminho de Londres, atravessou a Península Ibérica, atravessou Espanha..."

Apesar da passagem simbólica por Lisboa, o destino final era Londres. "Ia encontrar-se com De Gaulle, veio obviamente disfarçado..." Passou a ser procurado em Espanha por auxiliar na Guerra Civil, e "redige [na Península Ibérica] o primeiro relatório sério sobre a situação da Resistência em França, naquele momento".

Regressa de paraquedas depois da missão em Londres, numa altura em que Lisboa era "um bom ninho de espiões", e "teve muito contacto com os Serviços Secretos ingleses, na Rua da Emenda". Por sugestão de um espião britânico, começou a escrever o relatório em Portugal. O editor português calcorreia passo a passo o caminho de Jean Moulin.

João Paulo Cotrim revela que as sementes da homenagem ao comandante da "Operação Rex" radicam numa ideia que nasceu há anos. "Quem começou isto foi João Soares e José Manuel Saraiva, a que se juntou depois Manuela Rego. Depois, juntei-me eu e o Jorge Silva, ilustrador, designer e autor de toda a imagem gráfica deste evento." Entre as iniciativas, destaca-se o selo lançado na segunda-feira, "cartazes espalhados pela cidade" e exposições, "sobretudo na Casa da Imprensa". O programa da "Quinzena Jean Moulin" começou com a apresentação de um postal na estação dos CTT do Largo de Camões, a dois passos da Casa da Imprensa, onde esta terça-feira é inaugurada uma exposição biográfica sobre este tema. "Foi o rosto de uma França muito ferida, um rosto em que a França se podia rever."

"Partilhamos este fascínio pelo Jean Moulin, pela sua história. É uma vida aventurosa." João Paulo Cotrim lembra que estudar os vestígios da passagem pelo território português do comandante só "agravou" a condição de admiradores da figura. "Tendo sido o Jean Moulin ilustrador também, houve um momento em que escolheu a carreira de funcionário público, mais do que uma carreira artística, mas ele continuou fascinado pela arte. Aliás, um dos seus disfarces, que não é disfarce, e talvez tenha sido isso que o fez passar tanto tempo a escapar às garras da Gestapo, foi o facto de ele não fingir ser outra coisa".

Dono também de uma galeria de arte, o homenageado é ainda celebrado na exposição "Dançar nas Ruínas", que pode ser visitada a partir de quinta-feira, dia 30, na galeria da editora Abismo.

A exposição terá patentes reproduções da arte de Jean Moulin, bem como o último desenho feito antes de ser apanhado pela Gestapo. Mas há ainda um livro que lembra a obra desta figura do século XX: "A Sombra Não Apaga a Cor", de João Paulo Cotrim, com texto e ilustração que se abraçam página a página, para contar esta história a crianças.

Um texto para crianças-leitoras-preparadas que rememora um foragido das ameaças nazis, "um homem absolutamente comum que diz 'não' em momentos chave", mas também lembra como, na ausência de cor dos dias de guerra, alguém que atravessa nevoeiros pode mobilizar um exército das sombras e agrupar as forças da Resistência quando toda a Europa e todo o mundo estão "cinzentos".

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