Nicholas Christakis
entrevista com Nicholas Christakis

Pós-pandemia trará "os loucos anos 20 do século XXI". Mas vai ser preciso esperar até 2024

A Humanidade não estava preparada para uma pandemia e está a vivê-la como um filme de terror, mas Nicholas Christakis, sociólogo, fisiologista e investigador da Universidade de Yale, acredita que tal acontece porque "somos estúpidos". Ao ser humano escaparam os sinais repetitivos da História e das histórias tantas vezes contadas pela literatura ficcional.

Mas, se agora a pandemia não dá tréguas, em 2024, o mundo - Portugal incluído - viverá os "loucos anos 20", com festa desenfreada, muitos gastos e pessoas nas ruas. O autor explica tudo em "Apollo's Arrow:The Profound and Enduring Impact of Coronavirus on the Way We Live", um livro que será traduzido e publicado em português ["A Flecha de Apolo: O Impacto Profundo e Duradouro da Covid-19 no Nosso Modo de Vida"] e que chegará às livrarias nacionais já a 22 de março, sob a chancela da Editora Vogais. Antes, o autor aceitou falar à TSF sobre como as pandemias podem mudar sociedades e o rumo da vida das pessoas.

Alguns especialistas já previam que uma pandemia acontecesse. Era também a sua previsão?

As pandemias respiratórias surgem ao fim de dez ou 20 anos. As pandemias graves aparecem a cada 50 ou cem anos. É um pouco aleatório quando chegam, mas o facto de aparecerem não é surpreendente, de todo.

No meu livro, eu apresento um gráfico de quando as pandemias apareceram ao longo de 300 anos. É muito típico e, de facto, um dos argumentos do meu livro é de que as pestes não são novas para a nossa espécie. Só são novas para nós.

Nós pensamos que isto é uma loucura. Como é que isto pode estar a acontecer? Mas, de facto, os seres humanos já sofrem de pestes há milhares de anos, certo? Quer dizer, estão presentes na bíblia, na história de Homero, na história do burro de Cervantes. Estão nas obras de Shakespeare. As pestes são parte da condição humana.

Não há nada de especial na nossa sociedade, em particular, que nos faz mais vulneráveis às pestes. Mas é verdade que, com as alterações climáticas, os cientistas demonstraram que, nos últimos 40 anos, temos tido mais e mais novos agentes patogénicos, novos germes que vêm dos animais selvagens para nós. Nós entramos na floresta, certo? Causamos a desflorestação, e há também a migração. As pessoas deslocam-se. A floresta está a colapsar, e os animais abandonam a floresta, por isso temos mais contacto entre animais e seres humanos. Recebemos mais germes, tal como este vírus, este coronavírus.

A espécie humana enfrenta essas doenças há muito tempo, mas nós não nos lembramos. Não nos lembramos da gripe espanhola porque apareceu há cem anos. Mas há padrões de comportamento que revelam como nós, humanos, lidamos com as pandemias?

A resposta é sim. Como demonstro no meu livro, muitas das coisas que estamos a ver agora, que as pessoas estão a noticiar nos jornais, estão presentes há milhares de anos. Para escolher um exemplo, já foi observado que profissionais de saúde estão a morrer. Bom, Tucídides escreveu sobre a praga de Atenas em 430 a.C. e falava sobre como os médicos estavam a morrer. O papa Clemente VI escreveu sobre a peste bubónica em 1347 e falou sobre como os enfermeiros estavam a morrer. Isto é típico das pestes: os profissionais de saúde morrerem.

Outro aspeto típico nas pestes é a mentira. De facto, podemos pensar na peste como um germe que se está a movimentar ao longo de uma rede humana e social, e, mesmo atrás do germe, vêm as mentiras. As mentiras também se movimentam de pessoa para pessoa para pessoa. Durante milhares de anos, durante os tempos das pestes, as pessoas mentiram sobre isso. Ou negaram-no, dizendo: 'Nada está a acontecer, nada está a correr mal.' A mesma coisa aconteceu agora, certo? O antigo Presidente dos Estados Unidos disse mesmo que nada estava a acontecer. 'Não se preocupem.'

As pessoas estão a vender antídotos malucos que não resultam, estão a mentir. As pessoas querem negar que nada de mau esteja a acontecer. Tudo isto é típico das pestes e, durante milhares de anos, este tem sido um padrão.

Outro padrão é culpar os outros. Por exemplo, durante a peste negra, na Europa, o antissemitismo vingou. As pessoas matavam os judeus. Culpavam os judeus pela praga, o que é um absurdo. Ou, depois com o VIH, as pessoas culpavam os homossexuais. Ou culpavam a população do Haiti, ou culpavam os toxicodependentes. Ou durante a propagação da sífilis, depois de Cristóvão Colombo ter chegado ao Novo Mundo, houve surtos na Europa, e os franceses chamaram-lhe sarna castelhana. E os espanhóis chamaram-lhe mal-francês, numa tentativa de culpar outros. E agora vemos a mesma coisa: as pessoas estão a tentar culpar os imigrantes, como se os imigrantes estivessem a trazer a doença para os nossos países. Isto é uma loucura! Não é culpa de ninguém, certo? Não se deve culpar ninguém, isto é apenas o vírus que nos está a matar.

Por isso, a mentira, a culpabilização, a morte de muitos profissionais de saúde, o luto e a tristeza... É outra componente típica das pestes, mesmo recuando há milhares de anos. As pestes são tempo de luto. Nós perdemos as nossas vidas, a nossa forma de sustento e o nosso estilo de vida. É isso que as pestes fazem. Por isso, há estes padrões ao longo do tempo, sobre a forma como somos afetados. E acontece estarmos nós, estes seres humanos, vivos num tempo em que se dá um acontecimento que ocorre uma vez em cada século. Eu tenho 58 anos e isto é uma estreia para mim. O meu pai tem 80 anos e é uma estreia para ele. Nenhum de nós estava vivo quando outra pandemia tão grave andava a circular por todo o mundo.

Uma pandemia grave mas não tão grave como outras, que descreve no seu livro...

Este germe mata aproximadamente 1% das pessoas que infeta. A peste bubónica matou cerca de 50% das pessoas que infetou. Não há razão nenhuma para que este vírus não seja mais mortífero. Este vírus é grave, mas poderia ser 10 vezes pior. Ou 30 vezes pior: 30% de Portugal poderia estar a morrer neste momento. Nós temos sorte, somos uns sortudos por o vírus não matar mais. Poderia ter sido mais mortífero, não há nenhuma razão para que não seja.

É importante compreender e analisar factualmente o que está a acontecer-nos, porque só dessa forma vamos derrotar o vírus. É uma doença grave, mas não tanto como a varíola ou a cólera ou a peste bubónica. Mas é um problema sério, não é trivial.

Acredita que a pandemia ainda se prolongará por muito tempo?

O vírus ficará connosco para sempre, mas, dentro de um ano, atingiremos a imunidade de grupo. Ou chegaremos lá naturalmente - à medida que o vírus vai sendo transmitido -, ou chegaremos lá por causa da vacinação. E obviamente a vacinação é a melhor forma, porque não teremos tantas pessoas a morrer.

Vamos ter de nos adaptar a esta forma de viver?

Não vamos ter de viver assim para sempre, não. Penso que teremos mais um ano disto, porque levará um tempo para que as vacinas sejam produzidas e distribuídas, e temos de ter, no mínimo, 50% da população vacinada. Quanto mais pessoas forem vacinadas, melhor. Mas pelo menos metade, por isso precisamos de muitas pessoas vacinadas. E se o conseguirmos, a vida vai voltar ao normal mais rapidamente, mas isto levará cerca de um ano, para atingirmos esta margem de imunidade de grupo. Mas, mesmo quando chegarmos lá, como descrevo no meu livro, no capítulo sete, ainda teremos de esperar, porque depois ainda teremos de recuperar do choque social, económico e psicológico. Mesmo quando recuperarmos do choque epidemiológico, no início de 2022, teremos ainda mais dois anos para recuperar do choque social, económico e psicológico.

Depois, lá para 2024, teremos os loucos anos 20 do século XXI, tal como houve loucos anos 20 no século XX, há cem anos.

Nesses dois anos, antes de 2024, viveremos num estádio intermédio de cuidados e interações?

No próximo ano, viveremos como estamos a viver agora: usando máscaras, com distância social, com encerramento de negócios. Pelo menos por mais um ano, eu diria. Depois, as coisas voltarão lentamente ao normal. Muitas pessoas ainda quererão usar máscaras, os negócios permanecerão fechados, as crianças continuarão a faltar às aulas. A vida não voltará ao normal logo, no imediato. Nem mesmo num ano. Levará tempo até recuperarmos.

A pandemia empurrou as populações para um confinamento em que muitas pessoas se sentem isoladas e com princípios de depressão...

Muitos jovens que vivem com os pais sentirão. Não era isto que julgavam que lhes aconteceria neste momento das suas vidas. É deprimente, é triste, mas é também sobre isso que escrevo no meu livro: a pandemia é um tempo de sofrimento. Há muitas pessoas a sofrer: pessoas que perderam os seus empregos, que perderam as suas vidas, pessoas que perderam entes queridos... É triste.

Quando falo com o meu pai, que está nos seus 80's, sei que ele não viveu durante outra pandemia, mas viveu durante a II Guerra Mundial. Ele era um pequeno rapaz que vivia em Atenas quando os nazis marcharam no território. Nesse referencial também houve muitas coisas más que aconteceram.

Muitas pessoas defenderam que este tempo de pandemia faria o ser humano repensar estilos de vida, atividades e o sistema económico, até. Acredita nessa hipótese?

Uma das coisas de que falo no meu livro é de que, durante os períodos de epidemia, as pessoas procuram o sentido da vida. Tipicamente vemos uma escalada da religião durante o tempo da pandemia, certo? As pessoas tornam-se mais religiosas. Ou os médicos e profissionais de saúde encontram sentido no seu trabalho. Estão a cuidar de todas as pessoas doentes. E outras pessoas procuram também um sentido na vida, porque estão isoladas, estão em casa e não têm nada para fazer. Estão preocupadas, com a morte a andar pelas ruas. É natural as pessoas começarem a pensar no sentido das suas vidas e no que é importante para elas. Isso é muito típico durante as pestes.

Nós vimo-lo nos Estados Unidos. Por exemplo, no verão, todos os manifestantes que se reuniram em protestos antirracistas. Não aconteceu apenas porque as pessoas perderam os seus empregos e, por isso, não tinham nada para fazer, ou porque estavam frustrados por terem de estar em casa. Noutras palavras, o que estava a motivar as pessoas não era apenas o facto de terem tempo ou de estarem preocupadas. Era também o facto de estarem a pensar no que era importante na vida e em como poderiam fazer a diferença. Isso também teve influência nos manifestantes da direita que também vimos nos Estados Unidos. As pessoas tiveram a oportunidade de pensar naquilo que prezam. Por isso, as pandemias são também momentos em que as pessoas buscam um significado para as suas vidas.

Foi também por isso que o caso de George Floyd tomou estas proporções?

Bom, em primeiro lugar, porque há um histórico de grande desigualdade racial no tratamento da polícia norte-americana. E havia também, claro, um vídeo horrível. Outra das razões era as pessoas estarem desempregadas. Estávamos numa crise económica por causa da pandemia. As pessoas estavam também mais retidas em casa, estavam frustradas. Mas uma outra razão prende-se com o facto de, por causa da pandemia, as pessoas estarem a pensar nisto do significado e sentido da vida. Estavam a pensar no que era importante nas suas vidas. Claro que as pessoas pensam que gostariam de estar numa festa com os amigos, mas também refletem sobre o que vão fazer às suas vidas.

Falou da expectativa de entrarmos nos loucos anos 20 do século XXI, mas a verdade é que alguns países sofrerão mais com o impacto económico, social e mesmo psicológico. As pessoas não estarão deprimidas demais para celebrar o fim da pandemia?

As pessoas celebrarão o fim da pandemia. Por essa altura, já estaremos fechados há dois anos em casa. Haverá milhares de formas de gastar o dinheiro. Vamos sair de casa e vamos fazer coisas. Vamos estar na rua todos os dias, vamos gastar dinheiro. Vamos estar tão aliviados por a pandemia ter passado... Isso é o que tipicamente acontece depois das pestes.

Mesmo nos países mais pobres?

Sim, não consigo ver por que não.

Em Portugal, também?

Não vejo por que Portugal não venha a ter o mesmo tipo de resposta ao fim da pandemia. Já estive em Portugal várias vezes, e os portugueses não são como os alemães. Tenho a sensação de que também farão uma festa. Haverá uma festa em Portugal, tenho a certeza.

Os loucos anos 20 contribuirão também para restaurar as economias?

Isso eu não sei, porque demorará algum tempo para as economias recuperarem, e muito depende de como os governos geriram tudo. Nos Estados Unidos, muitos empréstimos foram feitos, para pagar depois. E o que acontece geralmente, neste tipo de situações, é uma hiperinflação. A maior parte das economias não sofrerá uma hiperinflação, mas não sei a resposta para isso.

Para já, ainda estamos a viver a pandemia, e a vivê-la como uma experiência surreal, quase como um filme de suspense ou de ficção científica...

Porque somos estúpidos. Não aprendemos nada com o passado. Muitos especialistas tinham-nos alertado para esta possibilidade há algum tempo. Mesmo as democracias mais ricas, como os Estados europeus, incluindo Portugal, não estavam preparadas. Mas penso que não foram só os líderes que falharam. As pessoas não estavam dispostas a ouvir más notícias. Os políticos mentir-nos-ão se quisermos ser enganados.

Em fevereiro do ano passado, se um político tivesse dito à população portuguesa 'virá um germe mortífero e todos teremos de ficar em casa durante um ano', todos diriam que ele era estúpido e não votariam nele para ser o seu líder. As pessoas também têm a sua responsabilidade. Temos de ser maduros e aceitar que algo de mal aconteceu, que não é culpa de ninguém e que, a cada cem ou 50 anos, isto acontece. Temos de aceitar e dar o nosso melhor para o enfrentar.

Seremos estúpidos novamente? Acredita que não nos preparemos para uma próxima pandemia?

Bom, nós vamos preparar-nos para os próximos 20 anos, mas poderá demorar 50 ou cem anos até uma nova pandemia surgir. Não sei se essas pessoas se prepararão para essa possibilidade. No livro "A Peste", de Albert Camus, há uma passagem muito interessante. O protagonista do livro é um médico, da Europa do século XIX, e é confrontado com "a peste". No início do capítulo oito, está escrito que "o doutor Rieux resolveu escrever esta história para que algum memorial da injustiça e ultraje feito a eles pudesse perdurar, e para citar muito simplesmente que o que aprendemos em tempo de pandemia é que há mais coisas para admirar no Homem do que para desprezar, que nos tempos da peste descobrimos que as pessoas são boas, e não más". Há mais bem do que mal.

Ele estava a dizer que não queria que as gerações futuras esquecessem. Mas elas esquecem sempre, claro.

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