"Temos de escolher os pacientes que salvamos. É algo que nos revira as entranhas"

Nos hospitais italianos, os médicos são obrigados a decidir quem é salvo e quem fica para trás. Uma escolha angustiante, relata a médica Francesca Mangiatordi à TSF, para a qual os profissionais de saúde não estão preparados.

Aos 40 anos, a médica italiana Francesca Mangiatordi tornou-se famosa por uma foto que tirou a uma enfermeira, exausta, encostada a uma secretária. A realidade dos cuidados intensivos do Hospital de Cremona tem, de facto, pouco de poético. Com voz rouca, "fruto do cansaço", mas segura, a médica, que não abraça os filhos há um mês, descreve à TSF a crua realidade de um hospital italiano.

Não me atrevo a perguntar como está, porque imagino que a resposta seja óbvia...

Imagina bem. Estou exausta. Cheguei agora a casa, depois de um turno de mais de 12 horas.

Correu mundo a foto que tirou da enfermeira Elena Pagliarini. A fotografia já todos conhecemos, mas o que é que ela não mostra?

Estávamos num daqueles dias em que muita gente chegava ao serviço de urgência com febre e dificuldades respiratórias, ou seja, com suspeitas de coronavírus. Naquela noite, tínhamos visto muitos pacientes e a enfermeira Elena tinha feito o turno da noite anterior, só tinha descansado um pouco durante o dia. Às 6h00 da manhã, pediu-me para descansar por uns minutos os olhos, porque estava verdadeiramente cansada. Estava exausta.

Naquele momento, decidi tirar a foto, para que ela um dia pudesse recordar aquele momento. Recordar, sobretudo, como tinha sido difícil enfrentar este problema. Como estamos, ainda, a enfrentar.

Como é que o hospital estava nessa noite?

Era uma coisa indescritível. Havia pacientes por todo o lado. Pacientes que precisavam de oxigénio, que não respiravam. Não havia rampas de oxigénio suficientes para todos e tivemos que utilizar botijas portáteis para os ajudar. Já não tínhamos camas disponíveis e tivemos que recorrer a macas de campanha da Proteção Civil. Caso contrário, os pacientes tinham ficado em cadeiras.

Não havia nenhum espaço livre. Havia pacientes por todo o lado, que pediam ajuda, mas, ao mesmo tempo, estavam conscientes da situação trágica em que, subitamente, nos encontrámos.

Faltavam ventiladores?

Sim faltavam. Habitualmente são suficientes, mas, naquele momento, dado o grande número de pacientes que recebemos, não eram.

Tiveram que ocupar outras áreas do hospital?

Sim, a partir de certa altura, as enfermarias de medicina interna já não chegavam. Portanto, libertámos as alas de cirurgia e adaptámo-las para os pacientes de Covid-19. A ala de ortopedia foi transformada, tal como a de ginecologia e a de neurocirurgia.

De repente, as enfermarias especializadas de neurologia e a unidade coronária hospedavam pacientes dos cuidados intensivos. Os pacientes nos cuidados intensivos eram 51, quando habitualmente deviam ser nove.

Chegou a pensar que não iam conseguir aguentar?

Houve momentos em que nos vinham as lágrimas aos olhos, porque não sabíamos como ajudar toda a gente. Não obstante fazermos o impossível, parecia que voltávamos sempre ao ponto inicial. Era frustrante.

Têm que escolher quem salvam e quem não salvam?

Infelizmente, sim. A Associação de Médicos Anestesistas e Intensivistas Italianos estabeleceu linhas orientadoras para esta situação de emergência. Infelizmente, temos que selecionar os pacientes que devemos entubar e os que não devemos entubar. Esta é uma escolha que, obviamente, nenhum médico quer ter que fazer.

Como é que um médico se sente ao ser obrigado a fazer essas escolhas?

É uma coisa que nos revira as entranhas. Faz-nos sentir mal. Infelizmente. Mas temos que salvar os mais jovens com menos patologias. Tentamos andar para a frente e combater por quem ainda tem uma hipótese.

Nesse caso, os mais idosos ficam para trás?

Infelizmente, sim.

Essas não costumam ser as funções de um médico. Isso é quase fazer de Deus. Sente-se preparada para isso?

Não. Não há nenhuma cadeira na universidade que nos diga que temos que escolher entre um paciente e outro.

Seja como for, é uma escolha que são obrigados a fazer, sem grande margem para reflexão?

Infelizmente, sim.

Os pacientes têm algum contacto com a família?

Não. Absolutamente nenhum. São recolhidos nas suas casas e transportados para o hospital. É dito aos familiares que contactem o hospital, ou são contactados para terem notícias.

Infelizmente, no hospital os pacientes estão sozinhos e - na medida do possível - nós procuramos aliviar-lhes um pouco a solidão. Mas a verdade é que estão ali... mal. Portanto, procuramos compensar esta ausência.

Como é que o fazem?

Procurando dar coragem. Mesmo que seja apenas com o olhar. Porque os olhos são a única parte visível. Com todos os equipamentos de proteção individual que usamos, só conseguem ver os nossos olhos e com o olhar procuramos transmitir segurança. A última coisa que muitos vêm é uma máscara.

Em Portugal, a maioria dos pacientes recupera em casa. Em Itália, também tentam adotar a regra 80-15-5?

No início, houve alguma confusão, porque não se sabia como encarar o problema, fosse de quem tinha alta ou dos casos menos graves em comparação com os mais graves. Agora, estamos a tentar enviar para casa os pacientes com um quadro clínico menos grave e segui-los através da telemedicina. Ou seja, um médico liga diariamente para saber como está o paciente, se há problemas.

Estão a transferir doentes para outros hospitais?

Houve vários pacientes transferidos para hospitais do Sul, onde os colegas dos cuidados intensivos deram uma grande ajuda. Transferimos sobretudo casos graves.

Em Itália há mais de 5.000 profissionais de saúde infetados. Falhou alguma coisa?

Sim. De facto, os profissionais de saúde, quando estão na primeira linha, estão em contacto direto com os pacientes. Não podemos manter uma distância de segurança, porque temos que fazer auscultação eletrocardiogramas, exames, ajudamo-los a levantarem-se. Portanto, estamos muito próximos do paciente. Não obstante todas as precauções, há este risco.

Num ambiente em que há tantos doentes, também é preciso fazer uma higienização contínua. Algo que não foi feito periodicamente no nosso hospital, nem em qualquer outro hospital. Além disso, muitos de nós sofreram os efeitos deste vírus antes de o conhecer.

Faltam equipamentos de proteção individual?

Não. Temos proteções suficientes. Não faltam máscaras, óculos, toucas, tudo, mas trata-se de estarmos próximos aos pacientes.

Quantos médicos do Hospital de Cremona estão infetados?

Não lhe sei dizer o número exato, mas são muitos. Para lhe dar um exemplo, nos cuidados intensivos já só estamos cinco. Éramos 13. Temos um colega aqui internado. Está com respiração assistida, mas tem melhorado. Nesta batalha, também lutamos por ele. Há ainda várias enfermeiras, que estão em casa de quarentena ou mesmo infetadas.

A propósito, como está a enfermeira Elena? Sei que esteve de quarentena e aguarda o resultado das análises ao novo coronavírus.

O teste deu negativo e ela está bem. Está em casa, à espera de poder regressar ao trabalho e está mais combativa do que nunca.

Houve rotação dos médicos no início do surto? Alguns ficaram de quarentena em casa?

Não, mas penso que seria uma ótima ideia. Podia ajudar muito. Porque nós trabalhámos tanto durante o último mês e trabalhar desta forma deixa-nos debilitados, quer mentalmente, quer fisicamente. Portanto, creio que uma rotação de 15 dias pode salvaguardar todos os profissionais de saúde.

A Francesca tem filhos?

Sim. Tenho dois rapazes, com 11 e 12 anos.

Tem estado com eles?

Sim. Vejo-os quando venho a casa, mas há um mês que não os abraço. Como também não abraço o meu marido. Mantemos a distância, mesmo quando almoçamos. Quando chego a casa, dispo-me do lado de fora da porta e depois vou imediatamente para o banho. Para tentar não trazer o vírus para dentro de casa.

Imagino que, como quase toda a gente na Lombardia, tenha pessoas que lhe são próximas infetadas.

Sim. Tenho vários amigos que tiveram Covid-19. Por sorte, estão a melhorar e já não estão internados, mas recuperam em casa.

Estão assustados, com medo de piorar e acabarem nos cuidados intensivos. Têm medo. Desde que lhes foi diagnosticada a infeção, choram. É um momento muito triste.

Há casos de médicos que chegam a fazer turnos de 18 horas nas urgências. É o seu caso?

Sim. Trabalhos quase sem repousar todos os dias. Não me recordo quando foi a última folga que tive, mas, se calhar, se tudo correr bem e tiver sorte, tenho o próximo domingo livre. Talvez...

Continuam a precisar de tentar passa alguma mensagem à população?

Nós procuramos dizer e repetir, o mais possível, que a quarentena é fundamental. O facto de nos últimos dias o número de novos casos ter reduzido é a prova de que ficar em casa baixa o número de contágios. Portanto, a ajuda que nos podem dar é ficar em casa.

Sente que as pessoas estão a respeitar as instruções sanitárias?

Aqui no Norte, até porque há muitos bloqueios policiais, as pessoas respeitam a quarentena. Noutras zonas - menos afetadas - há pessoas que ainda não perceberam a gravidade do problema.

O que podem aprender os médicos, de outros países, com a experiência italiana?

A não baixarem a guarda. Tenham atenção e não subvalorizem esta situação. Não subvalorizem esta epidemia.

LEIA AQUI TUDO SOBRE A COVID-19.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de