Guterres "pode ser um verdadeiro Papa da sociedade civil"

À TSF, o padre Vítor Melícias diz que António Guterres tem uma "luta particularmente delicada e difícil".

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, está esta terça-feira em Moscovo com o objetivo de ser um canal para alcançar a paz na Ucrânia.

A TSF conversou com Vítor Melícias, padre e amigo de Guterres, que confia no líder da ONU. "Temos de ter a confiança de que ele sabe o que está a fazer. Seguramente está bem acompanhado e tem de ter muita delicadeza, também, nos seus contactos. Não pode ter posições de um lado contra o outro, embora ele, inicialmente, tenha tido a coragem de se pôr nitidamente no lado da paz pela Ucrânia. Mas ele não é nome do mundo e tem de julgar como primeiro responsável da diplomacia no mundo", disse.

Em antecipação à visita, Vítor Melícias revela uma conversa que teve recentemente com António Guterres: "Vejo exatamente com o mesmo sentimento com que há três dias quando lhe mandei uma mensagem - nós temos contactos bastante recorrentes - a dizer exatamente que rezo por ele intensamente neste momento para que Deus o proteja, o acompanhe em toda essa missão, para que haja efetivamente paz no mundo. Ele agradeceu-me com o abraço habitual. Não posso estar mais de acordo que os crentes que rezam pela paz, rezem por todos aqueles que são mensageiros da paz. Todos temos consciência de que António Guterres está, neste momento, numa função de grande responsabilidade mundial. Luta particularmente delicada e difícil."

Mas os pedidos à divindade não se ficam pelo amigo, mas por todo o mundo. "Peço a Deus, naturalmente, e peço mesmo, que a paz venha ao mundo. Que os homens com responsabilidades tenham o tino e o senso de que o mundo não pode ser gerido desta maneira. Não há sentido nenhum para guerra num mundo em globalização no século XXI. Parece não haver a mínima das razões que justifiquem uma coisa destas. É uma barbaridade que os seres humanos estão a praticar uns contra os outros", critica o padre.

Caso tivesse a oportunidade de falar com Guterres diria para ter "serenidade e coragem": "Sê tu mesmo. Que o senhor te proteja e acompanhe"

"Eu recordo-me, quando fui à tomada de posse do António Guterres como secretário-geral das Nações Unidas, no avião um colega seu me perguntou e eu no momento: 'Pode ser um verdadeiro Papa da sociedade civil.' Assim como o Papa Francisco é um mensageiro da paz para o mundo, designadamente nos parâmetros morais e religiosos, António Guterres pode ser um homem com essa função e com essa missão de ser um pacificador internacional. Julgo que ele está empenhado nisso mesmo", recorda.

Expectativas baixas podem "ajudar António Guterres"

Já o politólogo e professor da Universidade Católica, André Azevedo Alves, considera que as baixas expectativas da opinião pública para a reunião entre Guterres e Putin pode beneficiar o português e argumenta que "é um pouco difícil de entender como é que passados dois meses esta é a primeira iniciativa concreta".

"As expectativas serem baixas pode, paradoxalmente, ajudar António Guterres no sentido em que a sua intervenção acaba por ser tardia. Muita gente perguntava-se ao fim de dois meses, porque é que ainda não havia uma intervenção mais ativa por parte do secretário-geral da ONU. Por outro lado, neste momento, já pouca gente esperará desenvolvimentos a curto prazo", explica.

Isto quer dizer que "qualquer avanço ou qualquer impacto positivo no sentido da paz que seja dado pode ser visto como um avanço mais significativo".

André Azevedo Alves aponta a maior dificuldade das negociações: "Uma saída negociada terá de permitir salvar a face do Presidente russo, o que quanto mais o conflito avança, quanto mais as notícias de atrocidades cometidas nós conhecemos, fica cada vez mais difícil de conseguir. Eu diria que essa é a grande dificuldade negocial."

*Com David Alvito e Paula Dias

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