Não há de ser novidade para muitos dos ouvintes ou leitores, que a TSF e o JN estão a publicar uma sondagem diária sobre as eleições presidenciais. Que continuará a ser publicada até quase à véspera do dia de ir depositar os verdadeiros votos nas urnas. Já estou a imaginar uma parte da audiência a repetir para si aquela frase feita: "Eu cá não acredito em sondagens."
Ouça aqui a opinião de Rafael Barbosa
Sei bem porque colou essa ideia. São muitos os políticos que a repetem. Quase sempre os que, nas sondagens, não conseguem o resultado de que se acham merecedores. Mas, e para o caso de não saberem, eu conto um segredo mal guardado: quase todos recorrem às suas próprias sondagens. Como dizem os espanhóis, e pelos vistos acreditam alguns dos nossos políticos, não há que acreditar em bruxas, mas que as há, lá isso há.
Claro que as sondagens não são infalíveis. E não conseguem prever o futuro. Isso só mesmo as bruxas. O que as sondagens nos apontam, quando são feitas com escrúpulos e competência técnica, como é o caso, é para o quadro com que nos poderemos defrontar na noite eleitoral. E, em particular neste tipo de sondagem diária, quais as tendências de cada candidato. Mais ainda, além da intenção de voto, que é sempre o centro das atenções, dão-nos informações sobre que tipo de eleitorado é mais favorável ou desfavorável a um determinado candidato: mais jovem ou mais velho, homem ou mulher, mais rico ou mais pobre, do norte ou do sul.
Afirmava eu, no arranque desta diatribe, que não será novidade para muitos que está a ser publicada uma sondagem diária. E, portanto, também não será uma novidade para muitos quais são as duas principais conclusões que resultam desta primeira semana de estudo exaustivo sobre a opinião pública: que haverá uma segunda volta e que são cinco os candidatos em condições de passar à final e chegarem à Presidência da República.
Mas há uma novidade na última vaga desta sondagem, que será tema de conversa nos dias que se seguem. Pela primeira vez numa sondagem da Pitagórica, quem lidera é André Ventura. Com um alerta para as margens de erro, e para o facto de sabermos que, amanhã, já poderá ser qualquer um dos outros quatro, a liderança de Ventura é inédita. E tem, por isso, uma carga simbólica e política muito forte.
O líder do Chega é, nesta altura, um dos grandes favoritos à viagem para a segunda volta. Sim, é quase certo que perderá para quem quer que seja o seu oponente nessa corrida final. Mas, que não haja ilusões. Se for um dos dois escolhidos, os portugueses darão mais um passo em direção à conquista do poder pela extrema-direita, ou direita radical populista, na linguagem mais técnica e polida dos politólogos.
Antes que me esqueça e o tempo se esgote: a sondagem diária terá a sua última entrega na sexta-feira anterior ao domingo de eleições. O dia de reflexão será, por isso, fundamental para decidir que tipo de regime político queremos. Uma democracia, com todas as suas virtudes e defeitos, ou uma distopia vagamente democrática, como a que existe agora do lado de lá do Atlântico, e que André Ventura tanto admira.
