É apenas a segunda vez na nossa história democrática de meio século que temos um tira-teimas presidencial. Suspeito, no entanto, que a campanha eleitoral que hoje termina não ficará na história. Pelo menos, num sentido positivo. Por duas razões. A primeira, é qualitativa: não há comparação possível entre a profundidade e substância política de 1986 e as figuras de Mário Soares e Freitas do Amaral, por um lado; e a superficialidade e indigência ideológica deste segundo quartel do século XXI e os candidatos que agora nos calham em sorte. Um populista sem escrúpulos e um homem que, apesar do bom senso e pergaminhos democráticos à prova de bala, não foi capaz de gerar entusiasmo.
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A segunda razão é quantitativa: perante a dimensão da destruição causada pela tempestade, o que dizem e pensam António José Seguro e André Ventura ficaria sempre remetido para segundo plano. Mesmo que o segundo não tenha feito outra coisa do que cavalgar a catástrofe. "Que se lixem as eleições", disse a certa altura o líder do Chega, sugerindo agora que sejam adiadas. Porque Ventura, ao contrário de outros líderes políticos, sabe interpretar a vontade do povo e já decidiu que ninguém está preocupado com o voto. Já vi tentações autocráticas mais bem disfarçadas.
Vale por isso a pena citar o presidente da Câmara da Marinha Grande, um dos municípios mais duramente atingidos pela tempestade. Ao ponto de as imagens que dali nos chegam fazerem lembrar um cenário de guerra. E o que disse o autarca, aos microfones da TSF, apesar de todas as provações da sua comunidade e das casas, fábricas e infraestruturas públicas destruídas? Algo simultaneamente simples e profundo: "A democracia não se adia. E mantém-se viva na Marinha Grande, apesar das circunstâncias em que nos encontramos."
Já havia razões para prever que o nível de abstenção fosse mais elevado do que na primeira volta, por causa da rejeição relativamente a Ventura, ou da falta de vínculo relativamente a Seguro. E também é certo que, perante a dificuldade da sobrevivência diária, haja uns quantos milhares de portugueses que sintam pouco apelo para aparecer nas assembleias de voto. Mas isso não pode servir de desculpa aos restantes. Bem pelo contrário.
Há uma escolha para fazer. A abstenção é sinónimo de desistência e de desinteresse pela comunidade. E, já agora, acrescento que dar-se ao trabalho de sair de casa para depositar na urna um voto nulo ou em branco é inócuo. Em eleições presidenciais, não entram nas contas. É quase o mesmo que ir dar meio voto a Seguro e outro meio a Ventura.
