Houve um tempo em que Paulo Rangel culpava Trump pelo enfraquecimento do Ocidente e criticava o seu apoio a governos e líderes políticos que desgastavam o projeto europeu violando direitos, liberdades e garantias.
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O chefe da diplomacia portuguesa viu a primeira eleição de Trump como um "dos piores acontecimentos da última década". "Pior", acrescentou, "só mesmo a sua reeleição". A pretexto da Rússia e da Ucrânia, Rangel também prometeu estar sempre "do lado do Direito Internacional", mas encolheu-se e recusou chamar genocídio ao que Israel fez em Gaza.
Já as suas declarações sobre a operação militar de Trump na Venezuela, que levou à captura do presidente Maduro e da sua mulher, abrem outro trágico capítulo nas prestações públicas do ministro para memória futura.
Rangel classificou as "intenções" norte-americanas na Venezuela como "benignas", em nome de uma "transição estável". Nos EUA, cujas virtudes democráticas tanto gosta de incensar, resmas de juristas e figuras do Direito pensam o contrário: dizem que a operação de Trump é ilegal, a nível interno e externo.
O presidente que pretende julgar em "casa", à revelia das leis, um chefe de Estado estrangeiro com alegações fantasiosas, é o mesmo que concedeu um indulto total ao ex-presidente hondurenho Juan Hernández, condenado, em 2024, a 45 anos de prisão por tráfico de cocaína no agora famoso tribunal do Distrito Sul de Nova York.
Na revista New Yorker, Oona Hathaway, professora de Direito em Yale e presidente da Sociedade Americana de Direito Internacional, chamou "saque" ao que Trump prepara na Venezuela. Não é preciso gostar de Maduro nem dos seus métodos autoritários para dizer o óbvio sobre a ação militar: "Não se trata do que é melhor para o povo venezuelano. Trata-se apenas de petróleo", resumiu.
"Preocupante", alertou Hathaway, não é apenas a circunstância de Trump ter usado a força violando a Constituição, as leis internas e o Direito Internacional: é o facto de não se importar. Para ela, isso é "assustador". Para Rangel, é apenas "benigno".
Mário Soares foi, em tempos, criticado e por meter o socialismo na gaveta.
Rangel é um homem culto, cristão, com mundo, leituras e um percurso respeitável na área do Direito, mas, pelos vistos, guardou o que aprendeu, ensinou e escreveu numa arca frigorífica. Quando um dia, liberto das atuais funções, descongelar os belos princípios que supostamente defende, suspeito que deles já só restará o fedor da covardia.
