Tantos escândalos e nada

Na última semana, terminei a minha crónica sobre o papel do Comité Olímpico Internacional no escândalo relativo ao desaparecimento da tenista chinesa Peng Shuai, perguntando quantos escândalos desportivos serão necessários até finalmente fazermos algo para impor um mínimo de escrutínio e boa governação nas organizações desportivas. Estava longe de imaginar os acontecimentos desta semana. No sábado assistimos a uma página negra do futebol com o jogo entre o Benfica e a B-SAD a ter lugar, mesmo se esta equipa, devido à Covid, apenas poder alinhar com 9 jogadores (dois dos quais guarda-redes). Todos parecem criticar o que se passou, mas ninguém assume responsabilidade por um momento que nos deveria envergonhar a todos, independentemente do escândalo internacional que causou. Isto, na mesma semana em que tiveram lugar mais buscas relativas a uma investigação criminal que parece envolver a grande maioria dos clubes portugueses e também os seus responsáveis (atuais ou passados) e intermediários do futebol. Não conhecendo nada sobre os processos em causa não me pronuncio sobre eles, mas direi que dois dados alimentam as suspeitas em torno do nosso futebol. Por um lado, a concentração de poder e os fracos mecanismos de escrutínio e prevenção de conflitos de interesse nos clubes e sociedades desportivas. Por outro lado, o facto de um país e uma liga desta dimensão darem origem ao quarto maior volume de receitas com transferências no mundo. O nosso futebol devia ser tratado de acordo com a importância económica que tem, quer ao nível das condições que lhe devem ser oferecidas, quer ao nível da correspondente exigência a que devia estar sujeito.

Mas não foi apenas de Portugal que vieram esta semana mais revelações sobre o lamentável estado em que se encontra o mundo desportivo. Foi publicado esta semana o relatório do National Sports Governance Observatory (Observatório da Governação Desportiva Nacional). Pela primeira vez avaliaram a qualidade de governação das federações desportivas em 15 Estados, um dos quais Portugal. Apreciaram aspetos como a democraticidade, representatividade, transparência ou prevenção de conflitos de interesse nas diferentes federações desses Estados. Em nenhum desses Estados se atingiu a classificação de muito bom ou sequer de bom. Apenas três estados tiveram classificação positiva, mas apenas ligeiramente acima dos 50%. Portugal foi um dos Estados com pior classificação global.

Para terminar as más noticias da semana, a cereja no topo do bolo foram as inacreditáveis declarações de Richard Pound (umas das poucas figuras que eu ainda respeitava no mundo do dirigismo olímpico) que numa entrevista a Christian Amanpour, ainda sobre a situação de Peng Shuai, tentou defender a cobertura dada pelo Comité Olímpico Internacional ao governo chinês dizendo que talvez fosse até a própria atleta que não quisesse contactar com as suas colegas tenistas.

Numa semana intensa, também houve lugar a uma boa notícia. No Reino Unido, foram tornadas públicas as recomendações de um relatório que se iniciou com um processo consultivo aos próprios adeptos do futebol. A principal dessas recomendações, que parlamento e governo britânicos afirmam querer implementar, é a criação de uma entidade, independente das estruturas do futebol, com competências sobre clubes, mas também sobre liga e federação. Entre essas competências estarão o cumprimento de princípios de bom governo, testes de integridades a dirigentes, maior redistribuição entre clubes, transparência ou prevenção de conflitos de interesse. A confirmar-se, este será um precedente muito positivo. Será interessante ver também que reação terá a FIFA no caso do governo britânico avançar mesmo com a aplicação destas regras à federação (contrariando a doutrina da FIFA que recusa a sujeição das federações nacionais a regras deste tipo).

Os escândalos sucedem-se. Os britânicos têm pelo menos o mérito de não apenas falar, mas decidir fazer algo para melhorar a governação das organizações desportivas. Serão os únicos?

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de