Anticorrupção é bandeira de Ventura? Seguro já a defendera na liderança do PS e usou-a contra Costa em luta interna

Créditos: José Coelho/Lusa
O combate à corrupção pode ser uma das maiores bandeiras do adversário de António José Seguro nestas presidenciais, André Ventura, mas o tema está longe de ter entrado agora na agenda do socialista. Seguro, que elegeu a luta contra a corrupção como uma das causas que terá em Belém, se for eleito Presidente, pegou no tema antes de chegar a secretário-geral socialista, usou-o contra António Costa na disputa pela liderança do PS e veio a público para debatê-lo mesmo quando estava afastado da vida política.
"A corrupção existe. É um problema sério e transversal aos diversos sectores da sociedade portuguesa." Era com esta declaração que, em 2008, António José Seguro abria um artigo de opinião, no jornal Expresso. O socialista defendia que era preciso "separar o trigo do joio" e aumentar a confiança dos cidadãos na classe política.
Seguro propunha, para isso, que os políticos explicassem a origem do património que detinham, que houvesse recursos para a investigação da corrupção e maior transparência na prática de atos públicos.
"É dever dos democratas combater esta podridão (...) que paira sobre a atividade pública. Com seriedade e sem receios", defendia então António José Seguro, que recusava que tal viesse promover um clima de suspeição sobre todos. "Bem pelo contrário, a transparência elimina a suspeição sobre os honestos, reforça a confiança no Estado de Direito Democrático e diminui o risco da corrupção."
Já lá vão quase duas décadas. Na altura, embora nunca tenha avançado contra ele, António José Seguro protagonizava oposição interna a José Sócrates, que era primeiro-ministro (embora, mais tarde, tenha vindo a apoiar o então líder do PS, em campanha).
Enquanto deputado, chegou a romper com a disciplina de voto, em matérias que diziam respeito precisamente a temas relacionados com o universo da corrupção. Foi o caso das alterações à lei de financiamento dos partidos, em 2010. Seguro alegava que traziam "menor exigência" quanto à justificação do dinheiro que chegava à forças política.
Quando, em 2011, chegou a secretário-geral do PS, prometeu que seria "implacável" contra a corrupção, definindo essa luta como uma prioridade para o partido e prometendo um plano de ação com propostas concretas.
Mas, dentro do próprio partido houve, quanto a este tema, desafios durante a liderança de Seguro. Uma militante chegou a ser expulsa do PS por denunciar inscrições fraudulentas de militantes. Algo que fora possível por não ser exigida identificação a quem se inscrevia no partido - uma regra que António José Seguro veio depois alterar.
O combate à corrupção foi também argumento para Seguro no plano do combate político. Em 2014, quando desafiado por António Costa na liderança do partido, acusou-o de "misturar política e negócios".
"Há um partido invisível na sociedade portuguesa, que corresponde a poderes fácticos, que tem diversas expressões nos partidos de poder", afirmou, durante um debate televisivo contra Costa. "As pessoas no Partido Socialista que, de alguma forma, estão associadas a esses interesses apoiam António Costa."
"É de uma promiscuidade total entre o sistema financeiro, entre os negócios, entre a política e entre apoio dos outros partidos", atirou contra aquele que acabaria por derrotá-lo nas eleições primárias e vencer a liderança do PS - chegando depois a primeiro-ministro e, atualmente, ao cargo de presidente do Conselho Europeu.
Mesmo depois dessa derrota e de se ter afastado da vida política, a ética dos políticos foi um dos temas que fez António José Seguro vir a público.
"Há muitas pessoas que consideram que a ética da República é a lei. Eu considero que a lei é importante, mas que a ética individual de cada titular de cargo público se deve somar a essa ética da República", apontou, em 2022, durante um debate sobre corrupção e ética promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
"A questão está em saber é se a ética é compensada eleitoralmente. Isto é: se, na hora de votar, os eleitores querem políticos honestos ou isso é irrelevante", frisou.
A luta contra a corrupção é uma das grandes bandeiras do adversário de Seguro, nesta segunda volta, André Ventura. O socialista, que regressou ao tema por várias vezes já nesta campanha, quer fazer ver que é ele quem agita esta bandeira há mais tempo e, por isso, elege-a como uma das causas que virá a ter em Belém, se for eleito Presidente da República.