
Inês Sousa Real, porta-voz do PAN
Foto: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens (arquivo)
Nos 15 anos do PAN, a porta-voz Inês Sousa Real defende que o partido "é demasiado importante para se perder em questões internas". Tornar a violação um crime público, criminalizar os maus tratos a animais e a zoofilia e evitar que o Chega influencie o Tribunal Constitucional estão entre as prioridades.
Encontra futuro para o PAN como projeto político?
Sem dúvida. Eu recordo que tendo em conta a situação que o país enfrenta, o estado em que estamos atualmente com o custo de vida que as pessoas têm, com o negacionismo que existe até, e as alterações climáticas, de alguma forma, não estarem na prioridade da vida das pessoas, quando também temos forças políticas muito extremadas, faz falta um partido político moderado como o PAN, que tem sido um partido de centro, de progresso, na parte social um partido mais de centro-esquerda, é um facto, portanto, temos conseguido articular e equilibrar aquelas que são as nossas propostas relativamente a áreas tão fundamentais como, por exemplo, a habitação, sem diabolizar nem senhorios, nem arrendatários, ou na saúde, garantindo que o SNS tem que ser preservado e que a primeira linha de resposta é, de facto, uma resposta pública e um serviço de qualidade. Sem deixar cair aquilo que está na nossa gênese fundacional, que é a causa animal, a proteção dos animais, e ao longo destes 15 anos temos feito muito pela sua defesa, e é com muito orgulho que vimos medidas como acabarmos com os abates nos canis, em que mais de 200 mil animais eram abatidos, por ano, em Portugal, foi, de facto, um marco civilizacional que se deu pela mão do PAN, entre tantas outras conquistas que temos feito lá para cá, para além da parte ambiental, em que somos, de facto, a única força verde na Assembleia da República que, efetivamente, trabalha quotidianamente estas matérias.
As bandeiras que o PAN trouxe para o primeiro plano da vida política foram, de certa forma, cooptadas por outros partidos, perdendo o PAN algum protagonismo?
Nós temos vivido ao longo destes 15 anos uma grande dificuldade, porque nos temos debatido com muitos lobbies, batemos de frente com a tauromaquia, não temos tido qualquer problema de fazer uma pega de caras ao próprio lóbi ou setor, com a caça também, os combustíveis fósseis, portanto, o PAN tem afrontado muitos interesses que estão instalados e, de alguma maneira, isso tem-nos boicotado também aquela que é a nossa participação. Nós não temos, ao contrário dos outros partidos políticos, por exemplo, presença nos grandes órgãos de comunicação social, nomeadamente na televisão. Todas as forças políticas têm, mesmo aquelas que às vezes não tiveram representação parlamentar, e o PAN é sempre deixado de fora. Mas o trabalho que o PAN tem feito ao longo destes 15 anos fala por si. Não foram os grandes partidos, nomeadamente de direita ou de esquerda, que conseguiram, por exemplo, majorar o apoio para as pessoas com deficiência, foi o PAN. Também não foram os grandes partidos que deram aos mais jovens a possibilidade de as autarquias alargarem a isenção do IMI de 3 para 5 anos, foi o PAN, precisamente. E no que diz respeito à causa animal, nós temos conseguido, de forma bastante até digna e com estratégia, garantir que as autarquias têm fundos todos os anos e demos aqui um salto de 2 milhões de euros para 14 milhões de euros. E, portanto, são mais de 40 milhões de euros que ao longo destes últimos 5 anos têm sido dados para a proteção animal e isso é um trabalho que tem de ser, de alguma forma, reconhecido, porque na hora de votar as coisas são muito diferentes no Parlamento. Aliás, nós temos visto agora na campanha presidencial muitos dos candidatos abraçarem animais, dizerem que são contra, até de forma muito oportunista, quem maltrata animais, mas a verdade é que até estão à frente de partidos que representam e que defendem, por exemplo, as touradas. E um touro não é diferente daquilo que é o sofrimento de um cão ou de um gato, que só porque está nas nossas casas e o outro está numa exploração pecuária ou numa arena, numa praça de touros. E por isso mesmo, nós sabemos que só há um partido que de forma genuína tem defendido estas causas e tem sido o PAN.
Tem falado da dificuldade de ser uma deputada única no Parlamento, encontra nesta altura mais dificuldades para que o PAN se afirme como partido?
Nós temos contado com o apoio, com o carinho das pessoas e nesse sentido sabemos que apesar dos resultados eleitorais, do contexto política diverso que o país e o mundo têm vivido, porque Portugal não tem sido exceção, que efetivamente as pessoas acarinham muito o PAN e sabem que só o PAN defende estas causas na Assembleia da República. E por isso mesmo é evidente que num próximo ato eleitoral as pessoas vão ter que escolher se querem de facto continuar a alimentar partidos populistas que se alimentam até das suas próprias frustrações. Porque é normal num país onde nós tivemos ainda a semana passada mais de três pessoas à espera do INEM a morrerem, é normal que as pessoas estejam revoltadas e que estejam zangadas, mas eu recordo que foi, por exemplo, o PAN que conseguiu aprovar no Orçamento de Estado o reforço de 400 técnicos do INEM, sendo que o governo já abriu a contratação para 200 técnicos, foi precisamente pela mão do PAN, não foi por mais nenhuma força política. Porque sendo nós uma força política moderada, responsável, temos conseguido precisamente trabalhar até sem algum preconceito ideológico. Isto não significa que não façamos frente, aliás, já tenho tido algumas zangas com o governo em relação a algumas decisões que tem tomado, nomeadamente naquilo que diz respeito à causa animal e este retrocesso gravíssimo de passar as competências do ICNF para a DGAV, tendo em conta até as ausências e as falhas que a DGAV tem tido nesta matéria, mas independentemente disso, o PAN na verdade é que tem sido um partido dialogante, tem sido capaz de fazer a ponte com os diferentes governos que têm estado à frente do destino do país e acima de tudo a trabalhar para as pessoas e para as causas que representamos no Parlamento. Eu acredito que apesar de todas as dificuldades, é um balanço muito gratificante, é muito positivo, quando olhamos às vezes para matérias tão difíceis que já chegaram ao Parlamento e que conseguimos dar resposta, eu recordo quando tivemos a iniciativa legislativa de cidadãos que reuniu milhares de assinaturas a pedir, por exemplo, que o luto estacional fosse aumentado, o PAN foi uma das forças políticas que conseguiu trabalhar essa matéria e alterar para que as mulheres que perdiam os seus filhos pudessem ter o direito, sabemos que o luto não cabe em 20 dias, mas muito menos em 5, não era manifestamente digno e essa até foi agora uma das matérias muito polémicas que o governo quis retroceder, nas alterações ao código laboral e por isso mesmo só reforça a importância de um partido como o PAN, que desde o primeiro momento dissemos a este governo que não podia estar a alterar o código e não podia retorcer nos direitos das mulheres nesta matéria.
Um código laboral que chegue à Assembleia sem ter o aval, nomeadamente da UGT, em sede de concertação social, deve merecer o acordo da maioria dos deputados?
Bom, nós acima de tudo não queremos alterações que constituam um processo claro e um ataque claro aos direitos das mulheres, independentemente da posição da UGT, nós temos que olhar para a sociedade civil, para aquilo que tem sido conquistas e falo, por exemplo, não apenas da questão do luto estacional, que foi muito polémica, mas também do direito à amamentação. Os males da nossa sociedade não são as mulheres que amamentam, portanto a fraude ou a alegada fraude a que poderia estar por detrás daquilo que era uma intenção de eliminar este direito não é isto que faz o país não ser produtivo, aliás quem nos dera a nós que o país fosse produtivo, não como analogia do primeiro-ministro ao Cristiano Ronaldo, não se trata de ter nada contra a pessoa em si, mas se o país de facto e fizéssemos todos e tivéssemos todos uma economia como é a questão do esforço que as mulheres fazem quotidianamente para tratarem dos filhos, da casa, do trabalho, de certeza absoluta se tivéssemos um governo que fizesse esse mesmo esforço o país andaria muito melhor e muito mais para frente, porque há de facto uma força invisível de um trabalho que não é reconhecido, que não é pago, as mulheres continuam a ganhar muito menos do que os homens e a ter muito mais dificuldade de aceder aos lugares de chefia e de direção e por isso mesmo se tivéssemos leis apropriadas para aquilo que também é o reconhecimento dos seus direitos, por exemplo, o PAN bateu-se muito na campanha eleitoral destas legislativas para a equiparação da licença parental 100% remunerada, partilhada entre pais e mães. Ouvimos o governo dizer estamos a fazer, já ouvimos isso quase há um ano e portanto este é o governo do "estamos a fazer, estamos a tratar", mas a verdade é que nada sai do papel e portanto é um governo dos powerpoints e que não tem concretizado as medidas da forma que a sociedade precisa neste caso. Aliás é lamentável que as principais reformas que este governo tem tido foi descer o IVA da caça e não da casa, foi de facto estar a dar a mão aqui mais uma vez à extrema direita com a lei da nacionalidade, que foi uma clara trapalhice porque não foi por falta da alerta de que as medidas não tinham respaldo constitucional e portanto até a teimosia de Luís Montenegro deu para ver depois o resultado, ao invés de estarmos aqui a olhar para as prioridades do país e a matéria laboral, como é evidente, o parlamento tem que ter esta sensibilidade de perceber que a economia só é uma economia forte se também for uma economia humanista, que tem a responsabilidade social e ambiental que é o que o PAN tem vindo a defender, aliás o progresso só se faz tendo presente esta justiça social e ambiental.
Ou seja, se ficar com as linhas atuais deste anteprojeto, o PAN estará contra?
Claro que sim, ou seja, qualquer proposta que põe em causa o direito à amamentação ou os direitos de parentalidade, o PAN não irá acompanhar.
Na escolha dos juízes para o Tribunal Constitucional, para o PAN é normal que, sendo o Chega, o segundo partido, com a maior representação parlamentar, participe também dessa escolha? Ou considera que, como defendeu, por exemplo, o Partido Socialista, que esse consenso deveria passar pelo PSD e por uma espécie de coligação dos outros partidos que não o Chega?
Nós temos de respeitar em democracia aquilo que é o resultado do escrutínio e do sufrágio do povo. Portanto, se matematicamente os portugueses deram essa possibilidade ao Chega, não quer dizer que na nossa própria votação o voto não seja contra, evidentemente, eu própria, enquanto deputada única, já votei contra, que era a indicação do vice-presidente para a mesa da Assembleia da República, votarei contra qualquer nome indicado pelo Chega e é evidente que, havendo uma maioria parlamentar que forme uma lista, esta democracia também tem que ser respeitada da mesma forma que nós respeitamos que existem 60 deputados da bancada do Chega na Assembleia da República e lidamos com isso todos os dias e até com a degradação que eles contribuem para os trabalhos parlamentares, mas é evidente que tem que haver um esforço por parte das demais forças políticas, porque neste momento o que está em jogo são direitos fundamentais.
Permitir que o Chega tenha uma palavra a dizer no Tribunal Constitucional é permitir que haja um recuo, por exemplo, em relação ao direito à interrupção voluntária da gravidez por parte das mulheres. Eu recordo que o direito à interrupção voluntária da gravidez não empurrou ninguém para o aborto, salva-vidas, salva-vidas de mulheres que morriam antes porque não tinham a possibilidade de o fazer de forma segura ou até mesmo em relação àquilo que diz respeito aos direitos, liberdades e garantias das pessoas LGBTI. Esta questão, esta perseguição que temos visto à disciplina de cidadania nas escolas, alimentar o ódio de uns contra os outros, de não respeitarmos que as crianças podem também ser diferentes e que também têm o direito a ver a sua individualidade respeitada, sem que haja esta estigmatização e este ódio, é de facto muito perigoso em sociedade quando cada pessoa deve ter a liberdade de ser quem é e isso não tem absolutamente mal nenhum. Aliás, num país onde nós temos um problema tão grave como a violência doméstica, é com muita preocupação que vimos este ataque à disciplina de cidadania, que era uma disciplina onde podíamos e devíamos estar a ensinar para o respeito e para a igualdade também entre homens e mulheres. Depois, por outro lado, na Constituição eu recordo que hoje não há qualquer impedimento para abolirmos as touradas, os chega para touradas. O André Ventura pode fazer os cartazes que quiser a dizer que não gosta de quem maltrata animais, mas então aí tem um grave problema na sua própria bancada, a começar pelo facto de ter alguém que lidera a bancada, que é forcado, foi talhante e, portanto, é tudo menos alguém que gosta propriamente de animais ou pelo menos só gosta de alguns. Este tipo de hipocrisia, este tipo de cinismo político não pode ter lugar, por exemplo, num Tribunal Constitucional e boicotar aquilo que seria, por exemplo, uma abolição em Portugal acompanhando assim o sentir da maior parte dos portugueses e, por isso mesmo, como é evidente, o PAN não acompanhará, eu pessoalmente enquanto deputada única não acompanharei essa votação, mas a democracia é assim, temos que saber ser tolerantes, ainda que, do outro lado, tenhamos uma total intolerância em relação aos direitos, liberdades e garantias, mas não significa que não saibamos que depois, se há uma maioria democrática responsável que se forma, não tínhamos que chamar a nós essa responsabilidade, aliás, o tempo é o tempo da responsabilidade dos moderados, não é o tempo do radicalismo e dos extremos.
Então, caso falhasse essa lista ou esse nome proposto pelo Chega, acreditam que o consenso deveria ser procurado entre todas as forças políticas?
Claro, evidentemente, aliás, nós já temos defendido até que o modelo de nomeação para o Tribunal Constitucional tem que ser revisto para que haja uma garantia de independência, de preservação também da instituição, enquanto garante máximo da nossa lei fundacional, porque eu recordo-me que das primeiras afirmações de André Ventura, quando chegou ao Parlamento, foi que o lugar da Constituição era no caixote do lixo. A Constituição deve ser um documento vivo, atual, sempre no sentido de reforçar os direitos das pessoas, das pessoas de futuras gerações, quer em matéria ambiental, quer também nos outros seres, e por isso é que o PAN também quis introduzir os direitos dos animais na Constituição, mas já mais deve ser uma arma de arremesso que possa blindar aquilo que são discursos de ódio, de xenofobia, de discriminação ou de não inclusão, e por isso mesmo é com muita preocupação que nós vemos qualquer possibilidade de condicionar aquilo que é uma revisão constitucional, aliás, nós sabemos que se calhar, a seguir às presidenciais, vamos ter, não é um novo processo de revisão constitucional, e é com muita preocupação que olhamos para a direita estar a ser tão leviana em relação àquilo que é a influência do Chega, ir atrás de uma agenda do Chega, como tem ido.
Mas tendo Luís Montenegro garantido que não é uma prioridade avançar com o processo de revisão constitucional, acredita que mais cedo ou mais tarde o PSD vai ceder ao Chega?
Esperamos que tenham o bom senso de não ir atrás do Chega, mas infelizmente não vimos esse bom senso no passado, aliás, vimos vários processos já de revisão serem abertos, não se ter focado até naquilo que era essencial, como era o caso que na altura o PAN propôs, que era um processo de revisão extraordinário, que não mexia com o processo de revisão ordinário e, portanto, permitiria termos salvaguardado o bem-estar animal e não termos, por exemplo, o risco que tivemos quando foi dos crimes de maus-tratos contra animais de companhia, em que o Tribunal Constitucional estava sucessivamente a decidir no sentido de poder revogar a norma que estava no Código Penal de que protegia aos animais, para o PAN foi com muita preocupação que vimos isso acontecer e, mais uma vez, ter partidos a irem atrás do agendamento do Chega, ao invés de terem aprovado, por exemplo, a proposta do PAN, que era cirúrgica, não mexia com absolutamente mais nada e permitia uma nova revisão. Nós sabemos que o "nunca" de hoje é o "talvez" de amanhã e o "sim" de depois da amanhã e, portanto, é evidente que temos que nos manter atentos, não de alguma forma tentar que o próprio Primeiro-Ministro e os partidos que o suportam, neste caso PSD e CDS-PP, tenham a responsabilidade de perceber que não é isso que os portugueses precisam a esta altura. Os portugueses precisam de muita estratégia para que o país possa ser um país mais resiliente, ter acesso à habitação, estamos a ver um momento gravíssimo na saúde e o Serviço Nacional de Saúde é insubstituível pelos privados, não podemos estar a assistir a uma privatização silenciosa do SNS, isso era o pior que poderia acontecer em termos de um dos direitos fundamentais que o 25 de Abril nos trouxe e que o 25 de Novembro, que tanto gostam de invocar, consolidou e mais ainda os direitos fundamentais da Constituição.
O PAN tem, há muito, pugnado para que o crime de violação seja tornado um crime público. Não se pode traduzir numa dupla penalização?
À semelhança do que aconteceu com a violência doméstica, o facto de se tornar crime público transferiu a responsabilidade de alguma forma para a esfera social. Nós aquilo que metemos é uma casuística que infelizmente são demasiados processos arquivados, demasiadas penas suspensas, aliás a suspensão provisória do processo tem sido uma autêntica aberração à forma como tem sido utilizada, muitas vezes permitindo a total impunidade do agressor, basta vermos o caso recente de bombeiro de Machico que ficou completamente impune, portanto houve uma suspensão provisória do processo e não consta sequer dos dados do RASI casos como esse e portanto há de facto aqui um caminho a ser feito e a proposta do PAN é uma proposta moderada, ou seja, nós propomos que seja crime público mas que caso a vítima pretenda possa a qualquer momento desistir desde que não esteja sob coação. Agora aquilo que não podemos ter é uma circunstância em que há sempre um ónus que é colocado e deixado para as vítimas. É absolutamente inaceitável termos a violação de uma jovem filmada e partilhada mais de 30 mil vezes, vista por mais de 30 mil usuários sem que ninguém o anuncie e portanto o crime e a vergonha têm que mudar de lado e tendo que mudar de lado isso também se faz com mudanças do ponto de vista do Código Penal para tornar mais eficiente a investigação, a sanção e até o caráter dissuasor que o Código Penal tem e ao tornarmos o crime público também estamos a fazer isso, também estamos a dizer que não é apenas uma questão da vítima, a vítima mexeu de facto com todas as pessoas, há muito aquele modo de mexer com uma, mexeu com todas, neste caso mexeu com toda a sociedade porque nós continuamos a ter números absolutamente gritantes, quer da violência doméstica, quer do abuso sexual, agora com os novos fenómenos das redes sociais está a atingir também um patamar bastante gravoso, aquilo que são as partilhas não consentidas com o caráter até de vingança do ponto de vista das imagens sexuais que são partilhadas e muitas delas às vezes até de menores e portanto temos que mudar estas ferramentas, temos que ter as plataformas do nosso lado e de imediato eliminarem este tipo de conteúdos, não é aceitável que eles permaneçam na esfera das redes sociais e garantir assim que temos de facto uma maior capacidade de prevenção.
E que outras prioridades quer o PAN colocar na mesa?
Bom, uma luta antiga a alterar o Código Penal e garantir que os maus-tratos contra outros animais, por exemplo um cavalo, também são crime, não nos faz sentido que apenas os maus-tratos contra animais de campanha estejam criminalizados e previstos na lei, temos tido casos muito gravosos que chegam à praça pública e que nos denunciam, a PAN recebe mais de mil denúncias todos os anos de maus-tratos a animais, inclusivamente ainda recentemente houve também uma investigação de tráfico ilegal e de abate ilegal de animais, neste caso estamos a falar de cavalos, sobretudo, nas explorações e portanto achamos que tem que se mudar o Código Penal para que efetivamente possamos ter uma maior capacidade de prevenção e não termos este nível de sofrimento em que muitos animais são sujeitos, porque há um carácter dissuasor do Código Penal que a outra tutela não consegue de toda alcançar e de alguma maneira garantirmos que para além desta mudança há uma clarificação em relação aos crimes contra animais de companhia. Tivemos um caso também muito recentemente de um abuso sexual de um animal que não está claro na lei, ou seja, apesar de ser crime, se houver maltrato físico, ao contrário de outros países que dizem expressamente que a zoofilia, portanto, o abuso sexual de um animal é crime, o Código Português não o faz e portanto eu tenho a certeza que todas as pessoas revoltam quando ouvem que houve um abuso sexual contra um animal e portanto até houve aquele caso da ovelha que também rodou muito nos órgãos de comunicação social e isso leva à revolta social mas depois não havendo nenhuma norma que o puna é evidente que acaba por cair no esquecimento e na total impunidade e isso não pode acontecer. Depois, por outro lado, darmos conclusão ao processo da violência doméstica, o chamado compromisso Violeta, que foi uma das promessas eleitorais do PAN, demos entrada logo no início da legislatura e já foi aprovado na Generalidade e que tem mudanças muito importantes como garantir que as vítimas de violência doméstica podem aceder às casas de abrigo quando têm animais de companhia ou até mesmo a qualquer habitação social, garantir também a revisão dos prazos, melhorar aqui assim a figura da suspensão provisória do processo que falávamos ainda há pouco porque não é apenas nos crimes sexuais que isso tem que acontecer, na violência doméstica também e portanto e garantir aqui uma dotação e uma agilização do próprio processo. Há questões que hoje em dia não nos fazem qualquer sentido, o processo de crime corre mas, por exemplo, as responsabilidades parentais muitas vezes não há uma comunicação ágil entre processos e o agressor pode à mesma ter direito a ver os filhos ainda que os filhos sejam vítimas também elas de violência doméstica porque estão num contexto de abusivo com o agressor e portanto tem que haver aqui mecanismos e isso tem que ser um compromisso de todas e de todos e em relação a este processo, aliás já apelei e volto a apelar, nós temos milhares de denúncias, são mais de 30 mil denúncias que todos os anos existem de violência doméstica, este tem que ser o grande combate nacional, nós falamos, ouvimos muitas vezes falar até a extrema direita, a direita da imigração, da insegurança, a insegurança está a começar dentro de casa e é contra sobretudo mulheres e crianças, também contra pessoas idosas, os homens não são exceção evidentemente mas sabemos que têm um rosto marcadamente feminino e por isso mesmo eu reitero o apelo que o PAN já fez para que agora esta iniciativa seja aprovada na especialidade e depois na votação final global para que possamos de facto combater eficazmente a violência doméstica em Portugal. Nós queremos mesmo garantir que esta é uma prioridade nacional longe de qualquer clubismo partidário, portanto nós temos que ter todas as forças políticas envolvidas nestas iniciativas e o PAN está disponível para trabalhar e conversar e dialogar com todos precisamente para que esta iniciativa seja aprovada. Portanto são duas grandes medidas que queremos de facto que vejam a luz do dia, assim como a questão da licença parental, nós não podemos continuar a querer de alguma forma defender aquilo que é a diminuir o fosso que existe em matéria de igualdade de género e depois não permitir que os pais também participem da vida dos filhos, sobretudo numa fase tão sensível como é o caso do nascimento de uma criança e o primeiro ano de vida é fundamental que o mesmo possa estar em contato com ambos os pais. A proposta do PAN tem uma diferença até face àquilo que o Governo tem trabalhado, é porque nós propomos que ao longo do primeiro ano de vida a mesma possa ser gozada alternadamente entre o pai e a mãe, fazendo assim um ano na totalidade e não apenas aqueles seis meses, para além de que é fundamental que pelo menos nos seis meses iniciais que a mulher está a tirar ela possa ser efetivamente 100% remunerada, porque tivemos muitos casos que nos chegaram ao conhecimento de mulheres que tinham que ir trabalhar muitas vezes aos quatro meses da criança ou até antes, senão não estavam a receber o seu ordenado e portanto não nos faz sentido que uma mulher por ser mãe seja penalizada do ponto de vista profissional e do ponto de vista até financeiro e não existam estes mecanismos para que depois possa haver de facto aqui uma resposta e como é evidente há aqui graves problemas que nós temos do ponto de vista do acesso à habitação, que continuam por resolver. Nós sabemos que nenhuma medida, nomeadamente para termos um parque habitacional robusto, vai ter efeitos imediatos amanhã e é por isso que é preciso haver vários instrumentos, incentivos para o arrendamento acessível, para a compra de casa própria, o parque habitacional público estar acessível a todas as famílias, garantir também que é um incentivo, por exemplo, para fixar quer os mais jovens, quer por exemplo os médicos ou até outros profissionais poder haver o acesso à habitação, o mesmo em relação às creches. A creche, por exemplo, pode ser até um incentivo para conseguirmos fixar profissionais e o PAN propôs e, infelizmente, PS e PSD rejeitaram que a rede da Creche Feliz fosse alargada também ao período noturno porque há muitos profissionais, os vidreiros, por exemplo, contactaram-nos já várias vezes com esta dificuldade, os médicos, os enfermeiros, os auxiliares de saúde, todos eles também têm esta mesma dificuldade que é não terem onde deixar a criança quando estão a trabalhar no período noturno ou até mesmo quando nós hoje sabemos que existe uma pressão muito maior até pela alteração demográfica no nosso país e as pessoas e umas famílias, a classe média não consegue deixar um filho numa creche, não faz sentido nós dizermos a estas pessoas que pelo facto de trabalharem, pagarem impostos, não têm como deixar a criança na creche e por isso mesmo a rede tem que ser alargada, quer do ponto de vista do horário, quer do ponto de vista se alguém, se uma família preenche as condições para ter o direito à creche feliz, então se a mesma não está com uma vaga no público, o Estado financiar e comparticipar a sua inscrição no privado.
Olhando para dentro do PAN, como porta-voz do partido, que sinal é que dá para o exterior o facto de a oposição estar ausente no último congresso?
Bom, eu acho que só a oposição poderá justificar. Eu acho que é um desrespeito profundo para com a democracia interna e para com as pessoas que se julgaram ao congresso, mas ao longo destes 15 anos de existência do PAN, eu estou no PAN desde a sua fundação e tenho visto diferentes fações, diferentes visões dentro do partido, diferentes lideranças, faz parte do crescimento, faz parte dos coletivos, mas acho que temos que ter a maturidade e o respeito de perceber que da mesma forma que respeitamos que há diferentes visões, também temos que aceitar em democracia que há uma visão maioritária, há uma visão com a qual as pessoas se identificam e saber respeitar isso mesmo. O PAN é demasiado importante para se perder em questões internas, eu estou focada na união, na coesão interna e tenho felizmente uma clara maioria, aliás este congresso foi ganho com 96% dos votos e tenho uma clara maioria que se revê nesta direção e que quer participar e que quer colaborar e os 15 anos de conquistas do PAN dão nota disso mesmo, da importância do PAN e de um partido moderado como nós estarmos presentes quer na Assembleia da República, quer nas várias autarquias, aliás o PAN nestas autárquicas ganhou duas câmaras municipais pela primeira vez, Sintra e também Coimbra e portanto é com muito orgulho que temos hoje responsabilidades acrescidas e que estamos de olhos postos naquilo que é o nosso trabalho, quer local, quer nacional e regional, também temos o deputado da região autónoma dos Açores e portanto é no trabalho que estamos focados e na coesão e união interna quem está disponível para trabalhar, está quem não está e não está por bem, terá que fazer o seu caminho que é um caminho no qual não nos reconhecemos.
Há a possibilidade de tréguas com essa oposição interna?
As pontes foram feitas, aliás eu recordo que incluí pessoas na minha lista que não eram, ou seja, neste caso tinham assumido até uma visão diferente, as pontes foram feitas, o diálogo foi feito, quem de facto não se revê nesta direção ou acha que o caminho da terra queimada é que é o caminho correto, eu distancio-me dessa visão, aliás se há algo que tenho pugnado por pautar o meu mandato é de facto por um mandato de diálogo, de proximidade com as estruturas e com o terreno, eu gosto muito de ir ao terreno, acho que nós não podemos legislar entre quatro paredes e qualquer deputado que esteja na Assembleia da República, qualquer líder partidário tem que saber estar na rua e ouvir as pessoas, mesmo quando às vezes isso é desagradável e portanto na larga maioria tenho a grande sorte das pessoas serem sempre muito corretas e de mostrarem até, nos darem esta confiança de partilharem connosco as suas dificuldades e quando ouvimos as pessoas virem ter companhia, terem esperança e às vezes pessoas em situações muito difíceis. Eu acho que nós temos que ter aqui uma grande responsabilidade e um sentido de respeito por quem deposita no PAN uma confiança e este respeito também passa por saber honrar e respeitar a democracia interna e aquilo que é o trabalho do PAN e eu muito honestamente, com todo o respeito e já tive diferentes oposições no partido, não me parece que esta fação da oposição esteja propriamente aqui pelo PAN e esteja aqui propriamente por isso e, portanto, não entro nesse tipo de jogos, quero apelar à união, quero apelar à coesão, o PAN tem neste momento um Conselho Consultivo que foi até aprovado neste último congresso, temos também uma juventude que foi formalizada e oficializada no último congresso, temos uma descentralização até de estruturas permitindo existir estes núcleos da juventude e os núcleos locais com muito mais presença no território porque eu quando estou todos os dias a trabalhar para o PAN e não há dia nenhum em que eu não acorde e isso não aconteça, seja no Natal, no Ano Novo, nos feriados, eu tenho presente sempre aquilo que as pessoas me dizem na rua e eu sei que nós somos, de facto, muito privilegiados por podermos estar na Assembleia da República ou numa Assembleia Municipal ou de freguesia a defender aquilo que acreditamos e que há pessoas que acreditam que nós vamos fazer isso mesmo e estarmos perdidos entre questões internas ou até mesmo vermos às vezes algum oportunismo por parte de outras forças políticas é um pouco frustrante porque só existe uma oportunidade de fazer as coisas bem e a oportunidade que nos foi dada não deve ser desperdiçada efetivamente.
Imagina-se líder do PAN durante quantos anos?
Bom, eu não sei, é uma pergunta difícil de responder, até porque eu acho que as pessoas não se devem perpetuar nos cargos, acho que devemos continuar enquanto também estivermos felizes e sentimos...
Já tem alguns anos de liderança...
Neste caso até são poucos, temos muitos atos eleitorais porque em comparação com líderes anteriores, eu estou há quatro anos na liderança do PAN e portanto estando há quatro anos na liderança do PAN, o líder anterior esteve sete anos, temos líderes partidários que estão há doze anos nos seus partidos, à frente do partido e portanto são quatro anos que parecem quase uma eternidade porque em quatro anos tive mais de sete atos eleitorais a nível nacional então, desde a pandemia, com várias dissoluções da Assembleia da República, várias repetições de atos eleitorais nas regiões autónomas, as autárquicas, as europeias e isso acaba por ser bastante desgastante.
Mas tem desgastado também eleitoralmente o PAN?
Eu acho que há um desgaste da democracia em geral, não é um desgaste do PAN, porque quando nós olhamos, o mundo mudou, aliás, nós temos hoje o presidente da maior potência global a desrespeitar profundamente os direitos humanos e temos de ter a consciência que partidos como o PAN, partidos responsáveis que são pró-direitos humanos, que são pró-direitos dos animais, que são partidos que querem deixar às gerações futuras um planeta com qualidade de vida para viverem, que é muito difícil lidarmos com potências globais que estão neste momento não só a incentivar a guerra, o ódio, a discriminação. O que aconteceu nos Estados Unidos recentemente, em que uma mãe que estava a ir para o trabalho foi morta, deixa-nos a todos estupefactos, é condenável e termos um presidente que alimenta o medo e alimenta o ódio, é de facto preocupante e isto tem impacto no dia-a-dia das pessoas. Mas eu acredito que há de facto um papel para o PAN e esse papel é um papel de responsabilidade. Temos de saber também perceber que o problema não é do PAN, portanto não são as nossas causas que estão erradas e eu tenho a certeza que quem nos está a ouvir quer um país que respeita os animais, em que há empatia. Há de facto aqui um espaço muito importante para aquela que é a atuação do PAN, mas tendo em conta o contexto de guerra também temos que saber, de alguma forma, ouvir a preocupação das pessoas, que neste momento é muito perigoso com a habitação, com a saúde, termos um doente oncológico a ter que se deitar num chão, isto é manifestamente indigno, isto não é digno num país do século XXI, quando sabemos que se calhar, e basta aqui fazermos um cálculo simples, uma maca há de custar perto de 1.400 euros e temos neste momento autarquias que preferem financiar a construção de praças de touros ou a renovação de praças de touros e gastar mais de 16 mil euros, quando podiam investir estes 16 mil euros a comprar macas para fornecer aos hospitais. Podem vir dizer, ai não é da nossa competência, claro que é, haja vontade política que passa a ser. Agora quando vimos os fundos comunitários, o dinheiro europeu a ser utilizado indevidamente para comprar bilhetes para as touradas, quando vimos um governo aceder ao lóbi. do CDS e a baixar o IVA da caça, ao invés do IVA da casa, é normal que os portugueses estejam chateados e que estejam revoltados.