
Manuel João Vieira
Foto: António Cotrim/Lusa
Conhecido pela irreverência artística, Manuel João Vieira estreia-se no boletim de voto para a Presidência da República. O candidato opta por uma campanha crítica da política tradicional e apresenta propostas que misturam humor, sátira e reflexão social.
Manuel João Vieira é músico, artista plástico, professor, pintor e um dos 11 candidatos a Belém. Nascido em Lisboa em 1962, ficou conhecido por ser fundador e vocalista das bandas Ena Pá 2000 e dos Irmãos Catita.
Manuel João Vieira já tinha anunciado candidaturas às eleições presidenciais de 2001, 2006, 2011 e 2016, mas este ano é a primeira vez que vai aparecer no boletim de voto. A candidatura "Candidato Vieira" reuniu 12.500 assinaturas, um número acima do mínimo exigido de 7500 pelo Tribunal Constitucional.
Por que decidiu avançar novamente com uma candidatura à Presidência da República?
É uma mania. Isto é uma doença. Quer dizer, mete-se o bichinho da candidatura e depois nunca mais sai. Em 2021 a ideia era diferente, era fazermos um programa de televisão. E daí partimos para a Internet e da Internet para o contacto com a população. E a resposta da população mostrou que era possível fazer com que a ficção fosse realidade. E esse misturar da ficção na realidade é uma coisa que me interessa muito enquanto artista plástico, enquanto português, enquanto político e enquanto cidadão.
Já concorreu várias vezes à Presidente da República, a primeira vez foi em 2001. Como é que a candidatura que apresenta agora é diferente das anteriores? Que mudanças podemos esperar?
É completamente diferente porque neste momento eu sou "candidatável", isto é, vou estar no boletim de voto. Da outra vez não conseguimos rever todas as assinaturas porque eram 11 mil assinaturas e tínhamos que ir a todas as juntas de freguesia. Tínhamos uma semana, acho que eu. Tínhamos que ir de Bragança a Ponta Delgada, reconhecer isso às juntas de freguesia todas. Não tínhamos um partido, era impossível. Éramos 4 ou 5 pessoas. Desta vez, graças ao novo sistema [digital], foi muito mais fácil e tivemos mesmo o dobro do necessário.
Há quem olhe para a candidatura de Manuel João Vieira como uma sátira e crítica à política e à sociedade. Até disse numa entrevista que se define como um candidato que expõe o "absurdo da política". A sua candidatura a Belém busca, então, o absurdo?
Eu acho que a minha candidatura, na fase de pré-candidatura e na fase em que estamos, deve expressar o mais absurdo e o mais ridículo que existe em política - e existe. Eu lembro-me de que em 2001 estava a fazer vídeos acerca de um presidente que jogava golfe e que tinha a mania que mandava em tudo, e hoje em dia temos o Donald Trump. Portanto, eu estava há alguns 20 anos à frente dos acontecimentos. Neste momento, tenho a possibilidade de fazer parte do elenco votável, não é? O que eu gostaria era de apelar às pessoas que votam em branco e às pessoas que ficam em casa sem votar para votarem no candidato Vieira, que eu acho que é muito mais saudável. Acho que as pessoas podem ficar muito mais bem dispostas do que em votarem em qualquer outro candidato.
O que é que espera desta campanha? Por onde é que vai passar?
Eu tenho uma campanha de betão. Vou circunscrever ao bairro onde eu próprio nasci, o bairro de Campo de Ourique. Vou fazer algumas intervenções no Porto e em Aveiro, mas vou, sobretudo, fazer ações no bairro onde eu nasci, porque é um bairro completo e é um bairro que se desfigurou bastante em termos não só populacionais como de serviços, de classe social. Era um bairro pequeno-burguês que tinha uma parte operária, outra, digamos, mais médio-pequeno-burguesa, e que se alterou completamente. Neste momento é um bairro habitado por estrangeiros - por franceses, italianos -, ainda há portugueses, ainda há muitos portugueses. Os portugueses vejo-os velhinhos, não os vejo muito pequeninos. As pessoas parecem que deixaram de fazer bebés. Quando eu era pequeno, eram 300 crianças, não se conseguia, "sai-me da frente", etc. Hoje em dia são acarinhados com uma única criança da família. Acho que isto é profundamente inquietante. Acho que nós estamos a entrar num mundo de ficção científica, numa distopia de ficção científica, e acho que nós devemos parar, e acho que devemos olhar um bocado para trás e para a frente, e devemos recorrer a métodos que foram de sucesso no passado, e não ter medo de ir em frente e de enfrentar o progresso, a maquinaria e a inteligência artificial, para nos dar condições a todos de ter uma boa vida. Portugal é o detentor das 14.ª reservas de ouro do mundo. Portugal tem dinheiro, não é um país de "pobretanas", como andam por aí a dizer.
Quando é que vai passar no Porto e em Aveiro e por quê?
Vou passar em Aveiro no dia 10, porque me foi pedido, os apoiantes do candidato Vieira pediram-me muito para passar por lá, e vou aproveitar para dar concerto normal, portanto, irei como músico. No Porto, é um concerto unicamente feito como música. Eu acho que música de intervenção, e é curioso que tenha sido convidado para o norte, que se diz que é um bocado mais à direita do que o sul, mas foi o que aconteceu.
Mas em que dia vai estar no Porto?
16, no Teatro de Sá da Bandeira.
Se for eleito, qual será a sua relação com o atual Governo?
Eu vou pedir ao atual governo para inscrever na Constituição a palavra "felicidade", isto é, os portugueses têm um direito inalienável à felicidade. Portanto, vou escrever um novo artigo na Constituição.
O que é que entende por felicidade?
O que entendo por felicidade é o que entendo pelo estado de alma. É um estado de alma feliz, não é? É um estado de alma em que nos sentimos capazes de subir uma montanha lá para baixo, enfim. A felicidade pode ser várias coisas diferentes para várias pessoas diferentes. Há pessoas que são felizes a passar o dia todo a dormir. E até acho que não era mau escolher um dia para pôr os portugueses todos a dormir, não fazer nada. O dia do sono. A "felicidade" tem que estar inscrita na Constituição, porque acontecem muitas coisas desagradáveis às pessoas. Outra coisa que eu inscrevi foi uma mãe em cada esquina. Isto é, há muita gente que perdeu a mãe. A sociedade portuguesa está com um nível de idade já muito avançado. E acho que continua a haver pessoas que gostavam de ir a casa, ter a sua mãe, a mãe fazer-lhe uma canjinha, [perguntar] "como é que estás? Estás melhor, meu querido? Estás muito magrinho." Portanto, haver estas profissionais da maternidade em cada esquina, porque o que nós temos hoje em dia nas ruas a vender são serviços de natureza sexual, eu não sou contra eles, mas previno também que devia haver produtos de natureza psicológica. Devia haver psicólogas em cada esquina também, para uma pessoa que, a meio de qualquer problema do seu dia a dia, precise de desabafar.
Já propôs, na sua candidatura, uma prostituta em cada esquina. Que visão tem dos direitos das mulheres?
Eu acho que as mulheres devem ter todos os direitos dos homens. É essa a visão que eu tenho. E têm mais direitos porque têm, obviamente, aqueles direitos ligados à sua condição de serem mães, de serem grávidas, etc. Portanto, acho que devem ter todos os direitos. Nem mais um, nem menos um.
Mas quer elaborar o que é que quer dizer com isso?
Quer dizer que a mulher tem o direito de ir à casa de banho antes do homem, mas também tem o direito de ir depois do homem. Quer dizer que as mulheres têm o direito de terem um ordenado igual ao do homem, mas igual ao do homem que faz o mesmo tipo de trabalho e que tem o mesmo tipo de competências. Portanto, isto no mundo laboral e isto alarga-se a todos os setores da sociedade.
Na sondagem da Pitagórica para a TSF/JN/TVI/CNN Portugal, aparece muito próximo nas intenções de voto de Jorge Pinto, candidato apoiado pelo Livre. Acredita que tem hipóteses de subir ainda mais e ultrapassar os candidatos de partidos ditos mais populares?
Olhe, eu prognósticos só depois do jogo, como se costuma dizer em futebol. Eu acredito depois de ver. Não tenho na minha cabeça fantasmas de ganhar ou perder ou ficar na mesma. O que me interessa agora é fazer a melhor campanha que possa fazer e depois assistirei aos resultados com interesse, com certeza, como todos os portugueses.
Martin Luther King é conhecido pela expressão "I have a dream" - eu tenho um sonho. Qual é o sonho de Manuel João Vieira para Portugal e para o mundo?
O meu sonho para Portugal é, em primeiro lugar, que a localização geográfica dos habitantes de Portugal seja mais bem distribuída. Não estou a falar de regionalização, podia ser. Tenho um plano para uma cidade exatamente no centro geodésico central de Portugal, que seria Vieirópolis, que é uma cidade do futuro, com equipamento do futuro, onde ninguém terá de trabalhar se não quiser e onde existe uma placa com um botão a dizer "Resolve" para qualquer problema que surja. Tenho esta impressão de que Portugal pode levar de novo novos mundos ao mundo e isso através da tecnologia. Já não será a tecnologia das caravelas, mas será a tecnologia da maquinaria e da inteligência artificial. E isso faria com que a população, que está tão mal distribuída pelo território, ficasse mais centralizada e que pudéssemos voltar a colonizar o interior, porque o nosso interior está cheio de aldeias abandonadas, palácios maravilhosos abandonados e que mereciam ser olhados com outra atenção. Nós, neste momento, temos estragado um bocado a paisagem e acho que os portugueses têm o direito a ter uma paisagem bela, acho que têm o direito a ter uma paisagem com árvores nativas. Acho que Portugal ainda é um país muito bonito, sobretudo quando não se põe à vista, em aldeias, prédios de habitação de 10 andares. Há muita escatologia arquitetónica espalhada pelo território.
Continua a dizer que só desiste se for eleito?
Só desisto se for eleito, exatamente. O que é bonito porque não vou desistir antes de ser eleito, mas se for eleito posso desistir, ou não. Isto é a lógica.
O que é que o faria não desistir?
O que me faria não desistir era contactar com os consultores da presidência e outras pessoas, fazer uma grande jantarada, e pensar no que realmente se pode fazer em Portugal sem roubar dinheiro às pessoas, sem estar a fazer esquemas, sem estar a ter um "Estado sombra" que é um Estado que quer, no fundo, privatizar o Estado para ficar com os seus interesses e ver quais seriam as possibilidades dentro dos limites terríveis que nós temos para os poderes do Presidente da República, o que é que se pode fazer. E a partir do momento em que souber aquilo que eu posso fazer, não que eu me tenha informado um pouco, mas queria esticar um bocado a corda e quero informação.
