"Praticamente insultuoso": isentar portagens apenas uma semana é "não ter noção da realidade"

Créditos: Pedro Correia (arquivo)
À TSF, Eurico Brilhante Dias sublinha que os estragos provocados pela depressão Kristin "não se resolvem numa semana" e, por isso, deixa um apelo: "Temos de ter a consciência de que nós tivemos uma catástrofe no distrito de Leiria. É uma catástrofe natural e, portanto, aquilo que se pede ao Governo é que tenha a noção daquilo que está a fazer"
Os deputados do PS eleitos por Leiria consideram inaceitável a isenção de portagens apenas uma semana na Autoestrada 8, que serve a região de Leiria, gravemente afetada pela depressão Kristin, e não responde "às necessidades reais do território".
Numa nota de imprensa, os parlamentares dizem tratar-se de "uma medida claramente insuficiente face à gravidade da situação que se vive na região".
"Eurico Brilhante Dias e Catarina Louro têm estado a acompanhar em permanência o evoluir da situação no distrito de Leiria, no terreno e em contacto pessoal ou telefónico com os autarcas e demais agentes que estão a dar resposta à calamidade, tendo confirmado que a utilização do troço da A8 entre a Marinha Grande e Leiria é essencial para os trabalhos de reconstrução", adianta.
O primeiro-ministro anunciou esta terça-feira que o Governo vai isentar de portagens durante uma semana as zonas afetadas pela depressão Kristin, no perímetro que abrangerá trechos das autoestradas 8, 17, 14 e 19.
A medida terá início às 00h00 de quarta-feira e durará até às 24h00 de 10 de fevereiro, terça-feira, dois dias após a conclusão da declaração da situação de calamidade, segundo o Ministério das Infraestruturas e da Habitação.
O ministério indicou que decidiu isentar todo o tráfego que tenha origem ou destino na A8, entre o nó de Valado de Frades e o nó de Leiria Nascente, na A17, entre o nó da A8 e o nó de Mira, na A14, entre Santa Eulália e o nó de Ançã, e na A19, entre o nó de Azoia e o nó de São Jorge (este troço também na região de Leiria).
Em declarações à TSF, Eurico Brilhante Dias assinala que a medida é "muito relevante", mas afirma ter ficado "absolutamente surpreendido" com o facto de esta ter a duração de uma semana. "Isto é não ter noção da realidade daquilo que está a acontecer no terreno", atira.
O socialista reforça que os estragos provocados pela depressão Kristin "não se resolvem numa semana". Pelo contrário, diz, os esforços para a reconstrução dos concelhos afetados vão "demorar bastante tempo". E alerta que, caso não seja feita uma ação para "desbloquear" a utilização de portagens, a infrestrutura rodoviária vai ser "sobrecarregada".
"Vamos ter obras em fábricas, obras em casas - não são apenas os telhados -, é o material de sinalização urbana, por exemplo, e outro equipamento urbano. Portanto, nós temos de ter a consciência de que nós tivemos uma catástrofe no distrito de Leiria. É uma catástrofe natural e, portanto, aquilo que se pede ao Governo é que tenha a noção daquilo que está a fazer", apela.
Eurico Brilhante Dias revela até que o período declarado de uma semana de isenção é considerado por alguns populares "praticamente insultuoso".
"Isso nem sequer sentido faz. Aquilo a que nós apelamos é ao mínimo bom senso", resume.
Para a deputada Catarina Louro, "esta isenção tem de durar o tempo que for necessário até que todas as infraestruturas estejam reconstruídas", tanto mais porque a sobrecarga da Estrada Nacional 242 (liga Leiria à Marinha Grande), "já hoje com fortes limitações, tornará a mobilidade neste eixo urbano particularmente difícil".
Na segunda-feira, o presidente da Câmara da Marinha Grande, Paulo Vicente, reivindicou a isenção imediata do pagamento de portagens no troço da A8 que serve o concelho, entre a Marinha Grande e Leiria.
Também a Câmara de Montemor-o-Velho pediu a suspensão temporária do pagamento de portagens na A14, enquanto se mantiverem os condicionamentos em várias estradas do concelho, na sequência da depressão Kristin.
Dez pessoas morreram desde a semana passada na sequência do temporal. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois quatro óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
