"Vão-se informando só pela TV e rádio." Presos podem votar, mas o "desinteresse" persiste

Paulo Spranger/Global Imagens (arquivo)
Quem está preso pode exercer o direito de voto nas eleições, mas a taxa de abstenção tem sido muito elevada. Nas cadeias portuguesas, a campanha só se vê na televisão e ouve-se pela rádio e a maioria dos reclusos está "completamente desinteressada"
Pelo menos 2900 eleitores que estão presos inscreveram-se para o voto antecipado nas eleições presidenciais, podendo participar no sufrágio entre esta segunda-feira e a próxima quinta-feira. Quem contacta diretamente com os reclusos sublinha, no entanto, a falta de "divulgação de quem são os candidatos e as propostas".
Se um recluso se quiser informar sobre as eleições "a única hipótese que tem é através da televisão e da rádio", explica à TSF Vítor Ilharco, secretário-geral da Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR), acrescentando que os "jornais nem sequer chegam à biblioteca e a internet está completamente proibida".
"Com os telejornais e com a rádio vão-se informando, mas não conseguem ler um artigo de opinião, não conseguem ter acesso a alguns debates, não conseguem ver as opiniões que são divulgadas através da internet constantemente, nem ter acesso às páginas dos diversos partidos" políticos, sublinha.
Todavia, explica o fundador daquela associação de apoio a quem está preso, o "stress" quotidiano na cadeia tira aos reclusos a "vocação até para ver os noticiários e tentarem-se informar".
Perante esta realidade, Vítor Ilharco considera que "haver três milhares de reclusos [num total de mais de 12 mil presos, distribuídos por 49 estabelecimentos prisionais] que ainda se preocupam em votar é uma enorme vitória".
"Ninguém pretende motivar os reclusos para votarem, isso é claro"
Nas eleições legislativas de 2015 apenas 9,3% dos reclusos exerceram o direito ao voto, num universo de 1097 pessoas.
Marta Teles, agora ex-reclusa, foi a única reclusa do Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo que o fez. Nas semanas anteriores, tinha-se dirigido ao gabinete do diretor na prisão para manifestar a vontade de exercer o direito de voto.
"O diretor ficou tão surpreendido que os olhos até se arregalaram. Ele disse-me: 'Em quatro anos que eu estou aqui, é a primeira vez que uma senhora me vem dizer que quer votar'", conta à TSF.
Passados três dias, entregou a Marta Teles documentos com "toda a informação dos candidatos, quem ia ser, e como ia ser".
Além disso, o exemplo de Marta Teles levou a que a direção, nas eleições seguintes, "afixasse nas paredes das alas alertas para o voto antecipado e mais informações". Nessa eleição, mais de uma dezena de reclusas votaram.
Mas, apesar de ter sido "pioneira" naquele estabelecimento prisional, Marta Teles confirma que "as pessoas estavam completamente desinteressadas". "Se eles não votam mais, a culpa é do próprio sistema", considera a ex-reclusa.
Opinião semelhante tem Carlos Rato, presidente da APAR e, também ele, ex-recluso. Durante o período em que esteve preso, Carlos Rato afirma que "votou porque se informou a si próprio" e "não por alguém ter feito alguma coisa para o motivar".
Ao longo dos seis anos de reclusão, que aconteceram entre 2012 e 2018, evidencia que "não houve nenhuma divulgação das eleições", além do cartaz "obrigatório" afixado na zona dos avisos que dizia qual era a eleição.
"Não houve nenhuma divulgação de candidatos, de propostas, de nada disso. Os educadores não promovem, os guardas não promovem, ninguém faz nada. Ninguém pretende motivar os reclusos para votarem, isso é claro. Era claro na altura e é claro agora", conta o atual presidente da APAR à TSF.
Carlos Rato conversa habitualmente com os atuais reclusos e percebe que, desde 2018, ano em que voltou à liberdade, nada mudou. E vê no incentivo ao voto uma parte da "reinserção de qualquer cidadão que está em reclusão".
"Todo o sistema prisional faz com que as pessoas que lá estão assumam um papel infantil. A própria pessoa sente que já não tem a obrigação de se comprometer com o sistema político e de tomar uma decisão sobre quem quer a dirigir o país", reflete.
Quanto aos quase três mil reclusos que solicitaram o voto antecipado nestas eleições, Carlos Rato considera que o número poderia ser maior se "houvesse motivação" e uma chamada de atenção para a "responsabilização que têm enquanto cidadãos".
Para o presidente da APAR, "em cada prisão devia ser obrigatório falar com todos os reclusos" para relembrar o ato eleitoral.
Incentivos deste género, refere Vítor Ilharco, são cruciais para o processo de reinserção dos reclusos, lembrando-os que "fazem parte da sociedade, têm direito a votar, e que também podem ter uma palavra a dizer no futuro do país".
Entre esta segunda-feira e a próxima quinta-feira, representantes das câmaras municipais respetivas deslocar-se-ão aos 49 estabelecimentos prisionais de todo o país, levando a documentação necessária, boletins de voto e um conjunto de envelopes. Quem está detido pode, então, votar.