Cavaco admite que Governo de Passos tinha razão em criticá-lo

O antigo Presidente da República faz um ato de contrição em relação ao Governo PSD/CDS, apesar de referir que é apenas "em parte". À TSF, Cavaco Silva lembra uma reunião secreta por Angola ou o Buzinão da Ponte.

Nos 31 anos da TSF, o antigo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva admite: "Eu talvez dê razão, em parte [às críticas]. Eu discordei, de facto, de várias medidas que a 'troika' impôs, e que o Governo aceitou, apesar de reconhecer, e reconheço publicamente, que o Governo de coligação conseguiu algo que se considerava quase impossível, a certo momento, que era, evitar um segundo resgate."

Em entrevista à TSF, o antigo presidente da República conta ainda como juntou em Évora, numa reunião secreta em 1990, Savimbi e José Eduardo dos Santos, recorda o famoso "Buzinão da Ponte", um momento "de grande tensão, mas sobre o qual "o Governo nunca perdeu o controlo", tanto que "na parte da tarde já estava reposto o trânsito normal." Ainda assim, "foi um acontecimento que deixou uma marca, até na popularidade do próprio Governo."

Cavaco Silva vai mesmo mais longe e recorda: "O Mário Soares disse-me, a mim, que sabia que tinha sido preparado com a conivência da comunicação social, que instigou bastante ao não respeitar, digamos, a lei."

Sobre a adesão portuguesa à União Europeia, Cavaco Silva admite que nunca imaginou "ser primeiro-ministro nos primeiros 10 anos da adesão de Portugal ao espaço da Comunidade Económica Europeia e, depois, ter participado ativamente no desenho daquilo que foi acordado em Maastricht, defendendo os interesses portugueses."

Leia a entrevista:

Como foi a sua relação com a imprensa ao longo de 20 anos em que exerceu cargos públicos?

A comunicação social nunca gostou muito de mim, ou quase nada, porque eu tinha determinados princípios, que não afastava no relacionamento com a comunicação social. Eu achava que um primeiro-ministro, um Governo, devia dar mostras de independência total em relação a todos os grupos, incluindo a comunicação social. Foi por isso que durante os meus mandatos de PM, e os meus mandatos de Presidente da República, eu nunca atendi uma chamada telefónica de um jornalista, nem nunca telefonei a um jornalista.

Penso que é um caso único na política portuguesa, e isto porque eu considero que faz parte da dignidade do exercício das funções de PM, e da dignidade do exercício das funções de PR, manter um distanciamento em relação à comunicação social, aqueles que apreciam, julgam, divulgam aquilo que fazem os órgãos de soberania e, portanto, foi sempre uma relação de respeito. Eu respeitava e tive encontros com a comunicação social, em pequenos-almoços e almoços, respeitava, mas fazia questão de manter um certo distanciamento, porque, repito, era uma questão do exercício com dignidade do cargo.

Naquele dia [da Assinatura do Tratado de Maastricht], sente o peso de um momento histórico tão grande? Que memórias guarda dos bastidores?

Para mim é um momento muito especial na minha vida política. Nunca imaginei ser PM nos primeiros 10 anos da adesão de Portugal ao espaço da Comunidade Económica Europeia e, depois, ter participado ativamente no desenho daquilo que foi acordado em Maastricht, defendendo os interesses portugueses. Uma preocupação era a preservação da coesão económica e social, os apoios estruturais ao desenvolvimento de Portugal, e conseguiu-se, de facto, a criação do fundo de coesão para financiar projetos do ambiente e de redes rodoviárias transeuropeias, e conseguiu-se, também nessa altura, quando em dezembro de 1991 ocorreu a reunião de Maastricht, que Portugal fosse autorizado a utilizar fundos estruturais para financiamento de investimentos na educação, e na saúde.

Portanto, eu sinto um certo orgulho, digamos assim, de poder dizer que este Euro que agora comemorou os seu vigésimo aniversário, e que tem o seu arranque quando cai o muro de Berlim, e a cortina de ferro, em consequência das reformas do Sr. Gorbachev, é a partir daí que se começa desenhar de facto aquilo que depois é consagrado em Maastricht. Tenho um certo orgulho de ter presidido à sessão de um tratado que eu considero..., como Lucas Pires disse: "A revolução mais extraordinária que aconteceu na Europa depois da revolução Soviética de 1917".

Chegamos a 1991 e a um momento que dá uma das fotografias mais famosas, que é a do sr. Presidente no meio de Jonas Savimbi e José Eduardo dos Santos, nos Acordos de Bicesse - como ficaram conhecidos. Que memórias tem?

Diz bem que é uma fotografia célebre [Cavaco no meio de Jonas Savimbi e José Eduardo dos Santos], tal forma o é que me ofereceram, e eu tenho no Algarve emoldurado, o New York Times do dia seguinte, 1 de junho de 1991, em que estou eu e num lado está Savimbi, e do outro lado está o José Eduardo dos Santos, presidente da Unita e o chefe do MPLA de Angola, a apertar a mão. Sabe, quando cheguei ao Governo, em relação à política externa, uma das minhas preocupações era normalizar as relações com Angola, e, contribuir para pôr fim a 16 anos de guerra civil, que tinha produzido um sofrimento enorme à população, e destruído as infraestruturas de Angola e, portanto, empenhei-me muito em contribuir para a paz em Angola.

A certo momento, houve oportunidade de realizar uma reunião preparatória entre os dois lados, em Évora - isto secreto -, no dia 24 e 25 de abril de 1990, em que eu tinha conseguido juntar, com a colaboração ativa de Durão Barroso, que as duas partes, do lado da Unita e do Governo de Angola, se encontrassem em Évora. E isto foi um passo decisivo, porque, depois disso, Savimbi e José Eduardo dos Santos pediram a intermediação de Portugal, e Portugal passou a funcionar como intermediador, e ocorreram várias reuniões em Lisboa entre as duas partes. A certo momento, tendo como observador também os Estados Unidos e a Rússia, foi um trabalho muito importante que se realizou para África, e digo para África porque aquela guerra civil entre o MPLA e a UNITA tinha uma dimensão internacional, principalmente devido à presença dos soldados cubanos em Angola, ajudado o exército do Governo angolano a combater a UNITA e a África do Sul. E a UNITA, com o apoio forte dos Estados Unidos, e o MPLA e o seu Governo, com o apoio da União Soviética, portanto, era preciso pôr fim a essa dimensão internacional, que se conseguiu quando houve um acordo em Genebra para a retirada das tropas cubanas.

Eles tinham apertado a mão várias vezes, até deram um abraço numa cimeira...

Sim, foi em Gbadolite, mas que não teve sequência... falhou. No princípio, nós apoiamos também esse encontro, que foi sob a presidência do Mobutu, mas Mobutu disse coisas diferentes à UNITA daquelas que disse ao MPLA... Portanto, o MPLA, o seu Governo, considerou ser enganado por Mobutu e o mesmo me disse o Savimbi. Eu encontrei-me com Savimbi, não só em Lisboa como em Paris, tive várias reuniões preparatórias deste acordo com José Eduardo dos Santos em Lisboa, mas também uma reunião, que foi quase secreta, em São Tomé e outra em Paris, em que consegui convencer o José Eduardo dos Santos a ser ele próprio a assinar o acordo. Ele não queria ser ele próprio a assinar o acordo ao lado de Savimbi nem que o acordo fosse assinado em Lisboa. O Governo de Angola queria que fosse assinado em Luanda. Era óbvio que quer a Unita quer os americanos nunca aceitariam que fosse assinado em Luanda. Foi assinado em Lisboa.

Deixe-me desafiá-lo: dessa reunião secreta, em Évora, lembra-se porque é que ela foi assim tão secreta? Como é que acontecem esses dois dias?

Nessa altura, ainda estava a ser aceite a mediação Mobutu, portanto, entre africanos, ainda resolver no plano africano, e, repare, o Governo de Angola não queria aquilo que eu insistia muito desde o início, que era um diálogo direto. Porquê? Porque o Governo de Angola, do MPLA, considera que o Savimbi era um lacaio da África do Sul, tratavam-no como um terrorista da África do Sul, para desestabilizar Angola. Era um tempo em que ainda a África do Sul estava muito envolvida do lado da UNITA, a apoiar a UNITA para tomar conta do poder, e havia um forte apoio dos americanos à UNITA. As coisas só começam a normalizar-se entre os americanos e o Governo de Angola depois de eu ter tido uma reunião em Washington com o Presidente George Bush, pai, com quem eu tinha uma relação muito especial, como é sabido. Eu passei um fim de semana na casa dele no Maine e, quando visitava a Casa Branca, a mulher convidava a minha mulher e eu próprio para irmos à residência privada dele.

Portanto, eu consegui convencê-lo a normalizar as relações com o Governo de Angola e aí já José Eduardo dos Santos, depois disso, me deu a promessa que alteraria a Constituição no sentido do multipartidarismo. Portanto, houve que fazer essa reunião com muito cuidado, dada a delicadeza da situação, quer das partes envolvidas, quer, repito, da mediação da Mobutu, mas a coisa correu muito bem. Aí, Portugal não era mediador, Portugal tinha criado condições para as duas partes se encontrarem. Depois é que se acerta uma reunião, que é em Oeiras, no Forte de São Julião da Barra, ocorrem reuniões dos altos estudos militares, na academia da Força Aérea, centra-se na Escola Hoteleira do Bicesse, e é aí que é rubricado o acordo final a que se chega, em maio de 1991. A assinatura é em 31 de maio e eu visito Angola, oficialmente, em setembro desse ano. Está tudo a correr bem, acertam-se as eleições em Angola que são em 1992, o problema foi que a UNITA não aceitou o resultado das eleições.

Passado pouco tempo, começou a batalha de Luanda. E foi uma frustração total, essa batalha, a retirada dos generais da UNITA, do Exército comum que se estava construir, o Savimbi a retirar-se para Huambo,... E começa a guerra que depois só parou com o Protocolo de Lusaka, já sob a mediação das Nações Unidas, e com Portugal como observador. Mas depois a guerra volta novamente, se não me engano em 1998, e Savimbi é morto depois em Luena, perto de Luena, em 2002. Mas Portugal deu, isto é, o que Portugal fez, foi o que serviu de base a todas as negociações que ocorreram depois, para trazer a paz a Angola.

Em 1994 acontece o famoso "Buzinão da Ponte 25 de abril". Nem estava em Lisboa, não era?

Eu estava em Corfu, a participar no Conselho Europeu. Foi o Conselho Europeu que aprovou a adesão à comunidade Europeia, da Áustria, da Finlândia, da Suécia e da Noruega, que depois a Noruega rejeitou por referendo. E foi nesse conselho que eu encontrei pela primeira vez, Boris Yeltsin, o presidente da Rússia, num tempo em que ele era um vitorioso, tinha ganho as eleições e era aplaudido por toda a Europa, por ter destruído como o Comunismo na União Soviética. No jantar, ele teve uma frase que eu registei e publiquei. De forma provocadora, Yeltsin disse: "E porque não a Rússia fazer parte da União Europeia e até da NATO?". Ficou tudo assim a olhar, de uma forma muito estranha, mas, claramente, era um provocador.

Foi durante esse conselho que eu recebi uma chamada telefónica pela manhã, do Dr. Fernando Nogueira, que me disse que às 6h30 da manhã, camiões tinham bloqueado a Ponte 25 de Abril. O que lhe disse foi que fizesse tudo o possível para desobstruir, repor a legalidade, a normalidade do trânsito, mas que se evitassem confrontos e a utilização da força. Eu acompanhei por telefone todo esse problema complicado, muito complicado. A partir de certo momento dizem-me que é necessário trazer uma grua do Exército, que estava em Santa Margarida, mas levava quatro horas a chegar a Lisboa, e eu insistia: "Não haverá outra forma de conseguir retirar os camiões?". Depois, recebi a boa notícia que mecânicos da GNR tinham conseguido pôr os camiões a trabalhar, e conseguiram desimpedir, mas foi um momento, de facto, de grande tensão, mas o Governo nunca perdeu o controlo da situação, na parte da tarde já estava reposto o trânsito normal, mas foi um acontecimento que deixou uma marca, até na popularidade do próprio Governo.

Era isso que ia perguntar: não sente que aí foi o primeiro grande beliscão a esse seu Governo?

Estávamos em 1994, isto foi em junho. Já tinha decidido, depois das duas maiorias absolutas, que não se deve ter [o mesmo] primeiro-ministro por mais de 10 anos. Foi aquilo que tinha acontecido também na Europa, foi o caso da Thatcher, foi o caso de Mitterrand, o Felipe González um pouco mais, foi o caso de Schlüter na Dinamarca, foi o caso de Lubbers na Holanda,... Só na Itália é que mudavam frequentemente os primeiros-ministros. Eu conheci, durante os meus 10 anos [de governação], nove primeiros-ministros em Itália. Portanto, eu tinha decidido, depois da vitória em maioria absoluta em 1991, que, retirar-me-ia a seguir, porque a popularidade do Governo foi atingida. Não sei se sabe o que o Governo fez o três dias depois: o ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral, foi à televisão e anunciou um desconto de quantidade para aqueles que passavam com mais frequência na ponte. E no mês de agosto não se pagava, era a regra, mas o Governo estendeu isso para junho também, para preparar o processo de desconto de quantidade para aqueles que passavam frequentemente. Vale a pena lembrar que houve uma nova tentativa de não pagar em setembro - em que alguns deputados do PCP e do PS, e algumas caras muito conhecidas de que agora se tem falado muito euforicamente passaram sem pagar -, mas a polícia, rapidamente, pôs fim a essa situação. Nós, no Governo, ficámos convencidos de que foi uma operação montada com a conivência da comunicação social, incluindo a TSF. O Mário Soares disse-me, a mim, que sabia que tinha sido preparado com a conivência da comunicação social, que instigou bastante o não respeitar a lei - e de tal forma que, nestes momentos de tensão, às vezes há momentos de humor (houve um político conhecido que escreveu o chamado "Fado dos Utentes", sobre o comportamento da comunicação social nessa ocupação por parte dos camionistas, e de passar sem pagar na Ponte 25 de Abril. O Fado diz mais ou menos assim "A TSF entrevistava a TVI, e a RTP entrevistava a TVI, e que a TSF falava para a Rádio Cidade", e portanto, alimentavam a continuação do bloqueio, para continuarem a fazer os seus relatos. Tem imensa piada.

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