Tancos: nova videovigilância foi preparada desde 2016, mas nunca saiu do papel

Antigo comandante disse no parlamento que Rovisco Duarte sabia dos problemas de segurança em Tancos e que contava ter o sistema de videovigilância a funcionar em pleno em 2017, no ano em que ocorreu o furto.

O coronel Amorim Ribeiro, um dos cinco comandantes exonerados temporariamente após o furto de material militar em Tancos, revelou, esta quinta-feira, na comissão parlamentar de inquérito ao caso, que a 12 de março de 2017, três meses antes do roubo nos Paióis Nacionais, o então chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, já tinha emitido um despacho para que ocorressem obras no local.

"Foi num apontamento que o General Chefe [do Estado-Maior do Exército] faz depois de visitar as unidades", disse o oficial, que afirmou perante os deputados que poucos dias antes, a 8 de março, "Rovisco Duarte já tinha sido informado do estado das instalações de Tancos.

Durante a audição, no parlamento, o antigo comandante da Unidade de Apoio Geral de Material do Exército foi menos crítico em relação ao estado de conservação das instalações do que o que haviam feito outros comandantes ouvidos pelos deputados, mas lembrou que já em 2016 havia reuniões sobre as falhas no sistema de videovigilância.

"Em outubro de 2016 começámos a ter reuniões muito claras e objetivas sobre a implementação do novo sistema de videovigilância, foi feita uma proposta", disse o coronel Amorim Ribeiro, que "contava ter" o sistema de videovigilância a funcionar nos Paióis Nacionais de Tancos ao longo de 2017, depois de dar conta de uma diretiva do então chefe do Estado-Maior do Exército, na qual o general Rovisco Duarte referia que a instalação do SICAV [sistema de vigilância eletrónico] era "uma prioridade" em Tancos e em Santa Margarida.

Sobre o estado do sistema de videovigilância, o coronel admite "estranheza" pelo facto de nenhum dos responsáveis se ter decidido pela substituição: "Também me causa estranheza que mais cedo não tenha sido feito algo".

"Quem estabelece as prioridades de certeza que deu ordem para que houvesse outras prioridades", acrescentou.

Em julho de 2017, e poucos dias após o furto, o DN noticiava que se tinham passado 73 dias entre a declaração da Direção de Finanças do Exército, a registar que existia "cabimento orçamental" para a "reconstrução" da vedação da base militar de Tancos, e o despacho de "concordância prévia" para a empreitada, assinado pelo ministro da Defesa Nacional.

Ou seja, a 24 de março de 2017, três meses antes do ocorrido, o Exército já tinha disponível a verba necessária de cerca de 388 mil euros para realizar uma obra que iria permitir melhorar a segurança dos paióis, de onde foi roubado material militar.

"As obras obedecem a regras cada vez mais rigorosas, acho estranho que não tenha sido por ajuste directo", disse ainda o antigo comandante da Unidade de Apoio Geral de Material do Exército, coronel Amorim Ribeiro.

Exoneração? "Respeitei e respeito"

O coronel Amorim Ribeiro, antigo comandante da Unidade de Apoio Geral de Material do Exército, foi um dos cinco comandantes exonerados temporariamente pelo então chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), o general Rovisco Duarte, logo após o furto de material militar em Tancos, em junho de 2017.

"Respeito decisão do general CEME. Ao tomar a decisão tem dados que não são do meu conhecimento. Houve um 'brainstorming' na minha cabeça, mas fica para mim", disse o militar, depois de questionado sobre a reação que teve à decisão da exoneração temporária que, na altura, suscitou polémica no Exército, com dois generais a assumirem publicamente a discordância face à forma como Rovisco Duarte geriu o caso.

"Fiquei com ideia de que ia haver uma grande rapidez na conclusão dos processos de averiguações", disse ainda o oficial.

A comissão parlamentar de inquérito ao furto de material militar em Tancos tem previstas audições a 63 personalidades e entidades. Decorre durante 180 dias, até maio de 2019, e é prorrogável por mais 90 dias, para que se possa chegar a conclusões.

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