"A voz é nossa." Da rua para o ecrã, o ativismo pela IVG reinventou-se nas redes sociais
Autor: Mariana Caparica
Por toda a Internet, têm-se multiplicado perfis de associações, equipas e pessoas que usam o potencial alcance das redes sociais para sensibilizar para a Interrupção Voluntária de Gravidez (IVG), quebrando tabus e investindo em redes de apoio. Quem investe nesta forma de ativismo em Portugal aponta para a personalização da experiência, possível graças à comunidade que é possível formar online.
Em Portugal a IVG foi legalizada em 2007, mas, por essa altura, as redes sociais ainda eram uma tendência por adivinhar. Entretanto, passados quase 20 anos, o modo de sinalizar a vitória do "sim" por manifestações, entrevistas e protestos reinventou-se no ambiente online.
A Associação Escolha, que ajuda mulheres que optam por abortar, nasceu da experiência pessoal da fundadora Patrícia Cardoso. Em 2020, quando precisou de realizar uma IVG, a ativista e jornalista viu "muito secretismo, vergonha e tabu" em torno do assunto que "não a feria".
A fundadora conta à TSF, que viu uma lacuna por cobrir naquele momento e decidiu agir: "Posso, com esta atitude perante a minha experiência, falar de uma forma aberta para as outras que também queiram falar."
A Associação Escolha atua virtualmente através de um site e de uma página no Instagram, ambicionando "dar voz às pessoas que fizeram ou estão a pensar fazer uma IVG, e acham que têm que viver esta experiência numa redoma de vergonha".
Para a fundadora da associação de apoio, a plataforma online é muito importante porque alcança as mulheres que não se conseguem informar sobre a realidade de recorrer a uma IVG.
Semanalmente, Patrícia Cardoso recebe entre duas a três mensagens de mulheres que partilham a sua experiência de "forma corriqueira através das redes, e-mail e telemóvel", e considera que é esta forma de falar mais casual que faz a diferença.
"Não sabem o que é que se passa, não sabem o que é uma objeção de consciência, não sabem o que os hospitais não fazem", sendo que através das páginas na Internet da associação torna-se possível que "as pessoas se relacionem porque viveram coisas parecidas" e tenham acesso a "testemunhos reais".
A estratégia de ação da Associação Escolha passa por "personalizar a experiência", criando "proximidade através das redes sociais que outras formas [de atuar] não criam".
A título de exemplo, foi graças à repercussão online que, em 2024, Patrícia Cardoso foi convidada a ir até aos Açores não só partilhar o seu testemunho, como contribuir para a implementação de uma linha de apoio a quem quer fazer uma IVG. Foram "os testemunhos do continente", partilhados via Instagram, que "aproximaram as pessoas".
Para que possamos falar do tema sem vergonha, temos que personalizar a experiência. Temos que dizer: 'Eu, uma mulher privilegiada, com estudos, com um namorado, com uma relação estável, simplesmente fiz porque não quis.'
"Quando se lê que alguém teve um mês à espera de fazer uma IVG no Hospital de Santa Maria, que à partida funcionaria, e foi levada a ouvir batimentos cardíacos e a acreditar que há um coração quando ainda não há", conta Patrícia Cardoso, recordando uma história real, "está-se a contar na primeira pessoa o desespero que isto foi".
"A voz é nossa. Os testemunhos que estão nas redes sociais da Associação Escolha dão voz a quem passou por isto", vinca a fundadora.
Além da partilha de testemunhos, a equipa da Associação Escolha oferece aconselhamento e acompanhamento antes, durante e após a intervenção de IVG. Aposta, ainda, na advocacia, com vista a empoderar as mulheres com informação, educar profissionais de saúde e traduzir conceitos complicados. As redes sociais servem para estimular essa "mobilização".
No entanto, estar na Internet traz represálias. Ainda esta semana, a Polícia Judiciária e a ministra da Justiça alertaram para o perigo da radicalização e dos conteúdos de ódio online - realidade a que Patrícia Cardoso está acostumada não só à página da associação, como também à sua pessoa.
Todavia, a comunidade online da Associação Escolha "é combativa" e "apaga, bloqueia e humilha o ódio gratuito e desinformado".
Por todo o mundo, novas plataformas renovam o ativismo
A Jacarandas é uma linha de apoio ao aborto na Colômbia que usa ilustrações divertidas e animadas na internet para sensibilizar para a IVG.
O The Guardian apresenta a equipa colombiana, inteiramente composta por mulheres, que tira partido da era do TikTok e usa as plataformas ao seu dispor para transmitir a sua mensagem: o "aborto é um procedimento de saúde normal e não precisa de ser traumático".
Com recurso a um gato roxo animado e gráficos multicolor, a Jacarandas aborda a IVG de forma descontraída através de vídeos nas redes sociais, em particular o TikTok.
Carolina Benítez Mendoza, diretora adjunta da equipa, explica ao jornal britânico que o objetivo "é alcançar novas pessoas e abrir o diálogo", tentando "redesenhar e reinventar". "Ja não estamos nos anos 90, as pessoas não precisam de estatísticas; uma jovem de 14 anos que precisa de um aborto não se importa com uma decisão judicial, precisa saber para onde ir", diz.
