Radicalização online: quando mudanças de comportamento podem ser sinais de alerta

Créditos: Onur Binay/Unsplash
À TSF, Cristiane Miranda, do projeto Agarrados à Net, alerta que é nas plataformas online, uma das maiores "fontes de recrutamento", que os jovens encontram sensação de pertença. É, por isso, essencial promover um diálogo aberto: "Não pode haver desculpa de 'ai, eu não tenho tempo'"
O projeto Agarrados à Net apela aos pais e professores para que tenham em atenção ao comportamentos dos jovens, numa altura em que são cada vez mais os alertas sobre o aumento da radicalização e discurso de ódio: "Não há nada que diga 'o meu filho está a entrar num processo de radicalização'."
Em causa está o aviso deixado esta terça-feira pelo diretor nacional da Polícia Judiciária e a ministra da Justiça, durante a apresentação da nova campanha da PJ "Ódio online mata offline", para o perigo da radicalização e dos conteúdos de ódio online.
A TSF procurou descobrir, junto do projeto Agarrados à Net - criado em 2021 para promover o bem-estar digital e sensibilizar famílias, escolas e jovens para os riscos de um uso excessivo da tecnologia -, quais são, afinal, os sinais a que os pais devem estar atentos. Mas a resposta é complexa.
"Infelizmente, não há assim nada que diga 'o meu filho está a entrar num destes processos de radicalização'", explica Cristiane Miranda, do projeto Agarrados à Net.
Na verdade, "qualquer mudança de comportamento pode indicar alguma coisa", mas é precisamente a isso que devem prestar mais atenção - ainda que tal exija um esforço maior dos adultos responsáveis para conseguirem perceber com o que é que esta relacionada a alteração.
"Pode ser uma paixoneta que não deu certo, pode ser estarem a ser vítimas de bullying na escola. Pode ser não estarem a gostar de um professor. Pode ser tanta coisa, mas é importante averiguar", sublinha.
Cristiane Miranda defende, por isso, que aposta deve passar sobretudo pela prevenção. Para cumprir este objetivo, é preciso acompanhar as rotinas de jovens e crianças na internet e promover um diálogo aberto.
"Não pode haver desculpa de "ai, eu não tenho tempo". Tem de se arranjar esse tempo. Aproveitar todos os momentos em que possamos ir conversando com os nossos filhos, percebendo o que é que eles estão a fazer, o que é que eles estão a ver, ter muito cuidado com as crianças que estão muito fechadas nos seus quartos, nos jogos, nas redes sociais", esclarece.
É precisamente nestes espaços virtuais que muitas vezes se encontram as fontes de recrutamento para grupos extremistas. Por estarem "muito envolvidos" nestas dinâmicas, acabam por ficar com uma sensação de pertença, quando, por oposição, no mundo real, frequentemente sentem que "não estão integrados em lado nenhum".
Nos casos detetados em que existam dúvidas, os pais devem começar por conversar com os filhos, procurar ajuda de um profissional e levar o jovem ao psicólogo. Já nos casos mais complexos, em que já esteja em causa um crime, não outra alternativa se não a denúncia, "mesmo que doa muito".
"Se já estivermos num ponto - e isto infelizmente pode custar a muitos pais -, em que eu percebo que o meu filho neste momento já está a entrar numa questão que já é um crime, aí, tem de ser denunciado, mesmo que seja o nosso filho. Não há outra coisa a fazer, porque estes jovens quando entram nestas questões podem mesmo fazer muito mal a outras pessoas. Mas também podem fazer muitas vezes mal a si próprios ou aos animais de companhia. Há tantas coisas que estes grupos de violências extremas e de extremismos e de radicalização estão a fazer", resume.
