Associações preocupadas com acesso mais difícil ao SNS: falta de médicos de família pode facilitar automedicação

Foto: Leonel de Castro/Global Imagens (arquivo)
Um estudo indica que mais de metade das pessoas recorrem à automedicação. Em declarações à TSF, Nuno Jacinto, da Associação de Medicina Geral e Familiar, e Bernardo Gomes, da Associação de Médicos de Saúde Pública, alertam para a falta de médicos de família
A dificuldade cada vez maior no acesso aos cuidados de saúde preocupam a Associação de Medicina Geral e Familiar e a Associação de Médicos de Saúde Pública. Em declarações à TSF, Nuno Jacinto e Bernardo Gomes lamentam que a falta de médicos de família se arraste há mais de dez anos. Por outro lado, a Associação de Medicina Geral e Familiar acredita que a falta daqueles profissionais de saúde pode facilitar a automedicação.
Um estudo divulgado esta terça-feira indica que mais de metade das pessoas recorrem à automedicação. O relatório mostra também uma prática mais disseminada do que se pensa e também usada na saúde mental, sendo que a maioria não diz ao médico. Os investigadores alertam para a necessidade de garantir que a automedicação seja parte da integração de cuidados e defendem que, para isso acontecer, as pessoas devem ter acesso a informação clara e acessível, para saber quando podem tratar um problema por si, e deve haver estruturas de proximidade que consigam avaliar a necessidade e orientar o utente e uma comunicação entre os prestadores.
Em declarações à TSF, Nuno Jacinto considera positiva a automedicação nos doentes ligeiros, mas sublinha que isso pode resultar da falta de médicos de família.
"O que é preocupante é não termos um médico de família para todos. A questão dos autocuidados, desde que seja feita de forma informada em situações clínicas ligeiras, com recurso a medicação não sujeita à receita médica e adequada, ou seja, que seja uma decisão fundamentada e correta, não é preocupante e a situação dos autocuidados é até promovida e defendida pelos profissionais de saúde neste tipo de situações", explica à TSF Nuno Jacinto.
O presidente da Associação de Medicina Geral e Familiar alerta, no entanto, que "em situações de automedicação com outro tipo de medicamentos, para doenças crónicas, para patologia mental, aí a conversa já é diferente".
"Aquilo que nos preocupa é a inexistência de médicos de família para uma fatia significativa da nossa população e o que isso condiciona", sublinha, afirmando que as dificuldades no acesso aos cuidados de saúde é a prova do falhanço das políticas de sucessivos governos.
"As políticas que foram adotadas ao longo das últimas décadas não funcionaram. Obviamente que não é uma coisa só desta legislatura e desta tutela, mas a tendência não se inverte. Quando olhamos para os números, não vemos uma evolução positiva do número de médicos de família no SNS, pelo contrário, ou há uma estagnação, ou, dependendo do período em análise, por vezes há até uma diminuição", assinala, frisando que esta é uma situação "muito preocupante".
"Significa que continuamos sem conseguir atrair e reter médicos de família no SNS por múltiplas opções políticas incorretas, que têm a ver não só com a remuneração, mas também com as condições de trabalho e a valorização que não é dada a estes profissionais", acrescenta.
Para o presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, os problemas apontados pelo estudo não são novidade. Também ouvido pela TSF, Bernardo Gomes lamenta que a falta de médicos de família seja um "problema" que tem "mais de uma década".
"Temos um problema de cobertura de médicos de família em algumas zonas críticas do país, com destaque para Lisboa e Vale do Tejo, com responsabilidade de vários governos e também da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo enquanto estava a funcionar", afirma, argumentando que "tem de haver alguma permeabilidade para soluções diferentes por parte não só da Saúde, mas também do Ministério das Finanças e da administração pública".
"Há um problema para resolver já há demasiado tempo, o que tem consequências", alerta.
Os ministérios da Saúde e das Finanças devem ser mais flexíveis, defende Bernardo Gomes, lembrando que as soluções são conhecidas. Agora, é mais do que tempo para mudar a política e recursos humanos.
"Face a estas circunstâncias e na época difícil que estamos a passar, com sobrecarga de serviços de urgência um pouco por todo o país, mas em Lisboa e Vale to Tejo, mais uma vez, de forma mais destacada, e em centros que estão carentes de reestruturação, como o Amadora-Sintra, chegou o momento de ter uma política de recursos humanos diferente", acrescenta.