
Créditos: Miguel A. Lopes/Lusa
Desde as primeiras telhas que caíram até ao vento intenso descrito por muitos testemunhos, o barulho "passa a ser um medo", especialmente para quem viveu os efeitos do temporal. Na TSF, a psicóloga Susana Gouveia critica a resposta de intervenção psicológica e diz que esta está a ser caótica
A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) não ativou a bolsa de intervenção psicológica em crise e catástrofe, o que, além de revelar "falta de organização", está a trazer "caos onde já havia caos", criticou esta quarta-feira Susana Gouveia, psicóloga que coordena o grupo de missão da Ordem dos Psicólogos.
"Em 2017, houve essa ativação da bolsa. Houve também a ativação dos colegas da psicologia do INEM e de outras organizações que tinham psicólogos com capacitação para intervir no momento zero. No teatro de operações estavam apenas aqueles que tinham essa capacitação", afirmou, em declarações à TSF, referindo-se à resposta dada durante os incêndios de Pedrógão Grande.
Para a psicóloga, a resposta de intervenção psicológica face à destruição provocada pela passagem da depressão Kristin está a ser caótica. "Esta falta de organização trouxe o caos onde já havia caos."
"Enquanto técnica nesta área há 17 anos, consigo garantir que é a primeira vez que assisto a uma situação desta natureza, em que há uma desregulação total daquilo que é uma resposta de intervenção psicológica no momento da crise. Só deviam lá estar aqueles que são precisos efetivamente", sublinhou.
Susana Gouveia lamentou ainda a presença de pessoas sem formação adequada, que "não conhecem estratégias e técnicas para estabilizar emocionalmente" quem está a sofrer com as consequências do temporal, lembrando que "o sofrimento emocional começa logo após o acontecimento".
Desde as primeiras telhas que caíram até ao vento intenso descrito por muitos testemunhos, o barulho "passa a ser um medo", especialmente para quem viveu a situação e continua a revivê-la dias depois.
"O facto de as pessoas estarem com o modo de sobrevivência ativado pode explicar, por exemplo, alguns dos assaltos que têm ocorrido. A entrada em casas, supermercados ou o roubo de fios de cobre para estabelecer ligações é algo difícil de perceber, se não for vivido", concluiu Susana Gouveia.
Dez pessoas morreram desde a semana passada na sequência do temporal. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois quatro óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 58 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
*Com Maria Ramos Santos