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Crónicas de justiça de Rui Cardoso Martins. Relatos de vidas que se cruzam com o poder da lei, o braço da justiça e as circunstâncias de cada um. E quando se levanta o réu, é o juiz que decide
"A única restrição ao meu poder é a minha própria moralidade, a minha própria mente", disse ontem um homem do outro lado do mar.
Há anos, contei um caso de tribunal cujo título me ficou na cabeça: O homem porco. Volto a essa história porque tenho olhado bem e, de facto, tinha razão a primeira pessoa que reparou que os olhos de Donald Trump parecem os olhos de um suíno.
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Rasgados, com as pestanas cor de palha, a pele entre o cor-de-rosa e o laranja, as rugas cortadas a canivete, são olhinhos "espetados no toucinho" como numa personagem do romance negro de Boris Vian/Vernon Sullivan - Irei cuspir-vos nos túmulos. Mas também- reparem nesta fofura - lembrem-se do filme O Porquinho Babe, ainda há dias me diverti com o meu filho mais novo, Babe é um porquinho que quer ser pastor de ovelhas, quer ser cão, e elas no fim acabam por lhe obedecer e entrar no curral. Mas, fora histórias infantis, também este porquinho Babe virá um dia a fazer-se um porco grande, se não o assarem na Bairrada.
Mas vamos à história antiga do homem-porco.
O primo João contou que, numa noite de Verão, vinha do futebol e passara pela casa dos avós, como era habitual. Então ouviu gritos, usou uma chave que trazia sempre consigo e viu: "A tia Julieta tombada no chão, por cima daquela estava a avó Laurinda, por cima da avó estava o avô Joaquim e por cima do avô a prima Cristina. No cimo estava o tio Carlos que agredia todos conforme podia, ao murro e pontapé."
Esta colina humana era a família de Carlos. A mulher, filha, sogro e sogra.
E Carlos gritava à filha de 18 anos, "hei-de te matar, hei-de te matar!", e que ela e a mãe podiam fugir mas que ele as havia de encontrar.
- Nem que seja na China!, guinchava.
Desde sempre ele tinha batido brutalmente nas duas. Tinham tanto medo dele que nem apresentavam queixa. Nessa noite, fez a filha sair da cama para a espancar. Pela primeira vez abriu a porta da rua e cometeu um erro:
- Ponham-se lá fora!
E elas aproveitaram e refugiaram-se na casa dos avós, descalças e em camisa de dormir. Dez minutos depois, já Carlos se arrependera. Bateu à porta dos sogros, prometeu que estava arrependido - o Lobo Mau em cordeiro - entrou e espancou a mulher e a filha, e toda a gente.
No tribunal, disse que foi tudo inventado.
- Eventualmente terei dado um correctivo, porque ela não cumpria as suas obrigações, não punha a comida na mesa, não tratava da casa.
Depois disse que a filha andava com este e com outro, na prostituição.
- Mas viu-a na prostituição?, perguntou a juíza.
- Não, mas vieram dizer-me. Ela dizia-me que ia deixar a prostituição e depois não cumpria.
Carlos parecia sincero. Atrás dele estavam os guardas prisionais que o tinham trazido. A juíza leu o processo sobre a sua situação actual.
- O senhor está a cumprir uma pena de 14 anos por violação. O que é que aconteceu?
Carlos cuspiu as palavras para o lado.
- Foi essa que aí está...
Carlos violara a filha desde os 13 anos, sempre que a mãe não estava em casa. Foi a própria filha que o contou, minutos depois.
- Sempre que estava sozinha, ele aproveitava-se de mim.
A filha contou tudo, chorou sem fazer barulho. O pai chamava-lhe prostituta só porque um rapaz gostava dela. Carlos estava sereno como um porco a descansar na lama.
Fim da história antiga.
É a falta de escrúpulos, de moralidade numa escala doméstica. Agora, foi elevada com Trump ao cume de problema mundial. Também este homem que vi em tribunal, há muitos anos, achava que a única restrição ao seu poder era a sua própria vontade. Um dia foi preso, depois de anos de sofrimentos e crimes. A América, "terra dos livres", não pode aguentar muito mais esta desgraça em que se meteu... ou pode?...
Vamos esperar pela queda mas, antes, preparamo-nos.
Li agora mesmo que Trump, o fura-contratos, o vigarista, dá uma alternativa à invasão militar da Gronelândia. Oferece 100 mil euros a cada habitante do território, em troca da Gronelândia toda. Caros europeus, gronelandenses: 100 mil euros? Eu dou mais!
O autor escreve de acordo com a anterior ortografia
