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Crónicas de justiça de Rui Cardoso Martins. Relatos de vidas que se cruzam com o poder da lei, o braço da justiça e as circunstâncias de cada um. E quando se levanta o réu, é o juiz que decide
Sou defensor de uma máxima do diário do escritor Franz Kafka que diz assim: "Só o possível acontece". Isto é, se aconteceu, era possível. Segundo o aforismo, até um chamado milagre podia acontecer, afinal. Mas há dias vi uma coisa que me fez sentir qualquer coisa da ordem do religioso. Nove meses depois da sua morte terrena, é dia de vos contar mais um milagre do Papa Francisco...
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Valentina esperava no corredor do tribunal com os olhos azuis de anjo, o cabelo dourado, o casaco branco e, quando finalmente a chamaram ao banco dos réus, entrou com o sorriso das jovens santas que avançam para o martírio voluntariamente. Estava pronta para o destino e, em pé na varanda do seu patíbulo, começou a aprovar a situação.
Dizia-lhe a juíza qualquer coisa e ela logo fazia que sim com a cabeça, sim, nasceu em 1998, é portuguesa, agora está desempregada, sim, tem duas filhas pequenas e em Outubro de 2022 entrou no balcão de atendimento do Instituto de Mobilidade e Transportes e sim, sim, pediu para trocar um título de condução estrangeiro por uma carta de condução portuguesa, e sim, sim, oh sim, dizia a cabeça, a carta que apresentou em seu nome e tirada na Cidade da Praia, Cabo Verde, com validade até 2035, tal como o respectivo certificado de autenticidade... eram completamente falsos.
Valentina estava a pedir uma carta portuguesa a que não tinha direito, crimes de falsificação e contrafacção de documentos oficiais. Valentina foi realista na resposta:
- Aconteceu sim, é real.
Estava com uma amiga no café do bairro e a amiga começou uma daquelas conversas de como é difícil a tirar a carta em Portugal, o código a gente estuda, estuda, e depois chumba numa armadilha, e as lições de condução, tanto tempo perdido, tanto dinheiro, e à mínima também nos chumbam, estamos nas mãos deles, e etc.
- Lá o café onde estava eu só conhecia essa pessoa, a minha amiga.
Mas entrou em cena um diabo, um mefistófeles da mobilidade rodoviária, um mafarrico das cartas de ligeiros que estava na mesa ao lado e lhe fez uma proposta. Uma carta pronta em nome de Valentina. Carto cabo-verdiana que depois podia trocar.
- Eu aceitei e não o devia ter feito.
A juíza gostou, uma confissão integral e sem reservas é raridade, facilita as coisas, minutos antes, noutro julgamento, um homem repetia e repetia que só tinha chamado puta à mulher "porque ela me chamou corno primeiro."
- Mas fez isto porquê, pensava que não conseguia tirar a carta?
- Sim. E agora até ando a tirá-la.
- Quanto é que pagou?
- Acho que foi 680 euros na altura... Também foi dinheiro que nunca mais vou ver!
- Se calhar, mais valia ter tirado logo a carta...
- Oh, foi o mesmo que agora paguei!
- Está a ver?!, exclamou a juíza.
- E afinal nem é tão difícil como eu pensava, concordou a rapariga.
E já o tribunal entrava num espírito raro de compreensão, perdão pelos fracos e arrependidos, a juíza dizia-lhe que era bom que Valentina acabasse
o 9º ano, até porque em Portugal os salários são tão baixos até para quem tira licenciaturas!, a procuradora, em vez de atacar, defendia Valentina por dser "absolutamente sincera", até pela "própria postura aqui no julgamento que terá consequências na vida dela e das filhas" e apesar de ser um crime grave que tem a ver com toda a sociedade, a segurança, pois "temos de saber conduzir" e com exigências de prevenção elevadas, etc.
Então entrou em cena, como santidade súbita, a figura querida do Papa Francisco. Lembram-se decerto da visita e do perdão papal a vários crimes menores, coisa que deixou melhor memória nos portugueses do que aquele palco caríssimo que para ali está a apodrecer no rio Trancão.
E a juíza aplicou logo ali, em plena sala, sem adiar a sentença nem um minuto, o perdão da multa e custas de 600 euros, o perdão ainda está em vigor para a data do crime de Valentina, justiça rápida, uma graça póstuma que iluminou de aleluias o Campus de Justiça. Já agora, amigo, irmão Francisco lá no céu, obrigado também eu pela vez em que não tive de entregar a carta durante três meses, sim, aquele crime horrível de conduzir a 72 quilómetros numa via de velocidade máxima de 60 à hora.
Tenha a autoridade rodoviária piedade de nós.
O autor escreve de acordo com a anterior ortografia
