Portugal está em momento de excesso de mortalidade e "chegada antecipada da gripe" pode ser explicação

Leonel de Castro/Global Imagens (arquivo)
"Só saberemos mais sobre as verdadeiras causas quando começarmos a trabalhar mais sobre os números", explica o epidemiologista Miguel Castanho à TSF
O investigador Miguel Castanho considera que Portugal está perante um excesso de mortalidade, depois de os dados mostrarem que, nos primeiros dez dias de dezembro, a mortalidade ter sido 18% mais elevada do que no período homólogo do ano passado.
"O excesso define-se em relação àquilo que se espera, mas aquilo que se espera é uma estimativa. Portanto, é preciso fazer uma estimativa sobre aquilo que seriam as flutuações normais e ver se além disso estamos a ter mais casos. E, do ponto de vista estatístico, aparenta ser esse o caso, isto é, estamos com mais mortos do que aquilo que era esperado para o normal desta época do ano. Mas isto baseia-se numa análise de tendência", explicou Miguel Castanho à TSF.
Dados do portal e vigilância da mortalidade da Direção-Geral da Saúde indicam que, entre 1 e 10 de dezembro, morreram 3692 pessoas, cerca de mais seiscentas do que em 2024. O número de mortes neste período supera mesmo os dados registados na última década, à exceção dos anos da pandemia.
"Também temos que ver que a tendência dos últimos anos foi interrompida, ou seja, a normalidade dos últimos anos foi interrompida e isso perturba aqui assim bocadinho as estimativas, porque os anos da pandemia foram completamente fora de padrão, completamente anormais. Independentemente disso, parece haver, de facto, um aumento da mortalidade que vai além daquilo que seria o expectável para esta época do ano", refere o epidemiologista.
Além dos dados da DGS, o Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge adianta que Portugal registou um aumento de infeções respiratórias graves, sobretudo nos maiores de 65 anos, e também um excesso de mortalidade na região Norte em pessoas de 75 a 84 anos.
A chegada antecipada da gripe é a explicação mais provável: "Aquilo que temos localmente e que coincide com estes números, com este aumento da mortalidade, é a chegada antecipada da vaga de gripe, o que pode estar a trazer também antecipadamente um excesso de mortalidade. Agora, só saberemos mais sobre as verdadeiras causas quando começarmos a trabalhar mais sobre os números, colocando a hipótese, por exemplo, este excesso de mortalidade se deve a uma vaga antecipada da gripe entende-se porque é que as pessoas de maior idade são especialmente afetadas. Para entender se a tendência geográfica, de facto, a região Norte contribuir mais do que a região Sul, isto é compatível, por exemplo, com o facto de termos mais dados de hospitalizações de gripe a Norte do que a Sul, porque a vaga de gripe não tem que avançar à mesma velocidade em todas as regiões do país."
Apesar do elevado número de mortes para esta altura do ano, Miguel Castanho avisa que ainda não estamos no pico da gripe.
"Aqui o que é plausível é que agora, com a vinda do Natal e depois as festividades da passagem do ano, com o aumento da mobilidade das pessoas, com o aumento dos contactos sociais, com o facto de grande parte destes contactos se darem em ambientes fechados, que haja um aumento ou uma tendência para contágios, portanto, um número de aumento de casos. Tudo aponta que nós estamos na fase ascendente e provavelmente, o pico só será atingido depois da passagem de ano, já em janeiro", conclui.
