"Quando uma mulher fala questiona-se 'porquê agora?'": o padrão que inibe denúncias de assédio sexual

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O caso de assédio sexual na Iniciativa Liberal (IL) foi partilhado há mais de um ano e meio na Feira do Livro por Inês Bichão, garantem as autoras do livro "#MeToo". Na TSF, Maria João Faustino repudia o "padrão histórico" que inibe denúncias: sempre que uma mulher fala é questionado 'Porquê agora? O que é que ela terá a ganhar com isso? Qual é o tipo de vantagem?'"
Maria João Faustino, uma das autoras do livro "#MeToo Um Segredo Muito Público", condena a "avalanche de críticas" e "comentários que descredibilizam" o testemunho de Inês Bichão, a ex-assessora da IL que diz ter sido vítima de assédio sexual por parte de João Cotrim Figueiredo. Ouvida pela TSF, esta sexta-feira, a também psicológa assegura que aquilo que está a acontecer inibe qualquer outra pessoa de fazer uma denúncia, quando "a presunção de inocência não pode ser pervertida numa mordaça".
"O linchamento agudizou-se e precipitou-se, porque as pessoas partem de uma desconfiança relativamente à palavra das mulheres e aos relatos de violência sexual. Isso é um padrão histórico que tem muitas razões culturais e que estamos muito longe de ultrapassar. Sempre que uma mulher fala é questionado 'Porquê agora? O que é que ela terá a ganhar com isso? Qual é o tipo de vantagem?'"
A autora sublinha que em contexto de campanha eleitoral para as presidenciais o caso de Inês Bichão ainda ganha mais relevância, com vários comentários "insultuosos" nas redes sociais e nos media tradicionais, mas "é muito importante perceber que isto não é um caso isolado. Esta é a resposta padrão".
"Se nós virmos a avalanche de críticas, os comentários que a descredibilizam e todas as teorias conspirativas de que existe aqui um móbil político, como se ela tivesse muito a ganhar com isto, não é? Obviamente, isto intimida muito. Qualquer mulher que tenha uma história sabe, a ver isto, que há uma enorme probabilidade de não ver a sua história validada e reconhecida. Sabe que vão decreditá-la, que vão tratá-la como mentirosa. Expõe-se ao risco de ainda ter um processo por difamação. Portanto, isto é uma mordaça imposta às mulheres", defende Maria João Faustino, sem dúvidas de que a maioria dos casos fica por denunciar.
"A presunção de inocência não pode ser pervertida numa mordaça. A presunção de inocência é um princípio legal absolutamente fundamental para assegurar direitos, mas é pervertida e confundida com a presunção de mentira de quem denuncia."
Na terça-feira, as autoras do livro #MeToo revelaram que a ex-assessora parlamentar da IL já as tinha contactado em 2024 por ser alvo de assédio sexual "por alguém muito influente" no partido. Numa publicação nas redes sociais, denunciaram que tiveram conhecimento através da comunicação social de que a mulher que as tinha abordado, durante a Feira do Livro, era Inês Bichão.
A ex-assessora parlamentar da IL partilhou no domingo na sua rede social Instagram, em contexto restrito e não público, uma publicação através da qual denuncia ter sido assediada sexualmente por Cotrim Figueiredo.
Nessa sequência, na segunda-feira perante essa informação e acesso à publicação, os jornalistas confrontaram o antigo líder da IL que negou imediatamente essa denúncia, tal como o fez nos dias seguintes.
Entretanto, já esta quinta-feira, a ex-assessora Inês Bichão, em comunicado enviado à agência Lusa, adiantou que a publicação sobre um alegado assédio sexual visando Cotrim Figueiredo foi difundida sem o seu consentimento, acrescentando que "a veracidade dos factos" envolvendo o candidato presidencial será apurada nos tribunais.
